Sou do tempo em que algumas pessoas colavam um plástico no vidro dos automóveis: “Eu acredito em duendes!”

Hoje, os duendes saíram dos automóveis para assumir a identidade do PSDB.

Apenas um partido de existência improvável pode viver a situação em que os tucanos se encontram hoje.

Os tucanos governam estados importantes, como São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul. Tem uma boa bancada de deputados e senadores influentes.

Entre grandes empresários, muitos são petistas de carteira, em função de óbvias contingências políticas – e tucanos de coração.

O problema é que os tucanos não sabem quem será seu candidato a sucessão de Lula, embora um deles seja o primeiro colocado em todas as pesquisas de intenção de voto e já tenha o apoio declarado do segundo maior partido de oposição.

Os tucanos não conseguem ter uma atuação coerente na Câmara de Deputados, onde um terço da bancada está sempre contra a maioria.

E ainda nem falamos do principal: embora seja um partido de oposição, com o maior índice de acadêmicos per capta de nossa vida pública, o PSDB ainda não conseguiu produzir uma crítica útil nem relevante sobre o mandato e meio do governo Lula.

Não falta opinião – do contra, de preferência. Mas falta trabalho, pesquisa, argumento – aquilo que vai convencer o eleitor indeciso, sedimentar a opinião, consolidar a crítica.

Além de artigos – brilhantes ou não – que suas estrelas publicam em jornais, a título individual, não sabemos o que o PSDB acha, de verdade, sobre o Bolsa-Família.

Nem o que pensa sobre os juros de Henrique Meirelles que, por sinal, foi eleito deputado pelos tucanos.

Qual seu balanço das primeiras medidas que a equipe econômica para enfrentar a crise internacional? Não sabemos.

Desse jeito, será dificil entender por que o PSDB quer convencer o eleitor a conduzí-lo de volta ao Planalto.

O partido trabalha como se a lei de gravidade estivesse sempre a seu favor e o Palácio do Planalto fosse eu destino histórico.

Pode ser que a crise econômica ajude. Mas os impasses de Barack Obama mostram que uma tragédia pode ajudar a ganhar uma eleição mas não ajudam a fazer um bom governo.

Não tenho nada contra quem acredita em duendes. Só não acho que devem ser confundidos com eleitores de carne e osso.
(Voltando aos duendes nos vidros dos automóveis. Eram outros tempos. O trânsito era uma tribuna para se anunciar crenças religiosas, preferências políticas e mesmo filosofia em forma de auto-ajuda. Eram uma forma de comentário de atualidade. Muitos eram chatíssimos. Outros, oportunos e até engraçados. Muita gente denunciava a corrupção, pedia eleições, cobrava solidariedade contra a AIDS e assim por diante. As pessos viam, comentavam, imitavam e de certa forma respondiam com outros adesivos. Minha mãe carregava no carro um plástico redondo e amarelo, para denunciar a energia nuclear. Hoje, os plásticos religosos permanecem. Sobraram alguns Guevaras. O resto é silêncio visual. Parece que todos se cansaram de nossas crenças. Ou concluíram que não vale a pena  anunciá-las para os outros).

Autor: Paula Moreira Leite – Revista Época

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