Priscilla Moreira de Avelar, 23 anos, sabe bem disso. Com 17 anos, 1,80m de altura, ela pesava 120kg e sofria com o excesso de peso. Foram diversas idas à emergência com pressão alta – a máxima variava entre 17 e 18. Para completar, ela sentia fortes dores nas costas, nos joelhos e nos tornozelos. Até o dia em que a ficha caiu. “Fui a uma médica e ela disse que eu tinha que me conformar que ia ser gorda para sempre. Saí do consultório com muita raiva e disposta a mudar aquela sentença”, conta. Ela procurou assistência médica e participou do grupo de apoio Resultado Positivo, que cuida da parte nutricional e emocional da obesidade.

Em dois anos e meio, Priscilla emagreceu 40kg. “Quando comecei a emagrecer, tudo melhorou: o cansaço foi embora, a pressão diminuiu e isso foi um incentivo muito grande”, comenta. Um outro motivo fez com que a jovem continuasse no caminho em busca da saúde. “Eu já tinha perdido 20kg e fiquei sabendo que uma conhecida minha, que também era obesa, tinha falecido por causa do excesso de peso. Fiquei com muito medo de acontecer o mesmo comigo, e isso me deu mais força para seguir em frente”, admite. Quase seis anos depois da mudança, ela cuida muito mais da saúde e acredita que terá que se policiar a vida inteira para não voltar a engordar.

Problemas duradouros

O excesso de peso na juventude e em grande parte da vida adulta pode trazer consequências para o corpo. Segundo um estudo desenvolvido nos Estados Unidos, carregar quilos a mais durante muito tempo aumenta o risco de a pessoa desenvolver problemas de mobilidade quando ficar mais velha, mesmo que a pessoa tenha, eventualmente, perdido peso. “A artrite, por exemplo, quando chega muito cedo, pode aumentar ainda mais a probabilidade de problemas no futuro. Além disso, existem outras doenças crônicas, como as cardiovasculares e o diabetes, que também pioram as probabilidades”, afirmou ao Correio Denise K. Houston, da escola de medicina da Universidade de Wake Forest, nos Estados Unidos.

Para conseguir chegar ao resultado final, os cientistas analisaram a saúde de pessoas com 25, 50 e 70 a 79 anos. “Aqueles que eram obesos quando tinham por volta de 25 anos e continuaram no mesmo padrão são os que mais têm riscos de acabar com uma limitação no futuro”, explica Denise. Apesar de o quadro não ser muito otimista, ainda há chances. Para quem perdeu um peso considerável antes dos 50 anos, as probabilidades de adquirir problemas ortopédicos no fim da vida são menores.

Não é só a parte física que sofre com as consequências do excesso de peso; a psicológica também. A depressão é um problema que afeta muitos obesos. Uma pesquisa revelou que crianças com sobrepeso que participaram de um programa de exercícios durante três meses puderam levantar a autoestima e sair do estado depressivo, além de melhorarem o desempenho escolar. Segundo Catherine L. Davis, pediatra do Centro de Prevenção do Medical College do estado norte-americano da Georgia, a atividade quase sempre tem mais benefícios mentais do que físicos, e o mesmo vale também para os adultos. “É ótima maneira de ajudar a reduzir a depressão e desenvolver habilidades cognitivas, principalmente nos mais velhos. Além de prevenir doenças cardiovasculares”, afirma.

A hora da mundança – Bruno Silva Campos, 31 anos, descobriu isso há pouco tempo. Com 24 anos, ele era fumante, pesava 115kg, tinha 40% de gordura corporal, estava começando a sofrer com uma esofagite, tomava remédios para controlar a pressão alta e, definitivamente, não estava feliz. Cansado das idas e vindas ao médico e das milhares de sugestões de dieta e formas de emagrecimento, um dia ele resolveu tomar uma atitude sozinho. Mudou a alimentação e se inscreveu em uma academia. Com um objetivo traçado e muita força de vontade, perdeu 55kg em seis meses.

“Estava buscando, antes de tudo, qualidade de vida. O problema não era muito saúde, o que pesou mais foi o reconhecimento, o fato de as pessoas não querem se relacionar com você. Eu era sacaneado por ser gordo desde criança, até que uma hora bastou e eu falei: chega”, conta o advogado, que hoje tem apenas 4% de gordura no corpo. “Eu nunca imaginei que conseguiria ter o corpo que tenho hoje. Mudei completamente meu estilo de vida: como de três em três horas e não deixo de ir à academia. Tenho pavor de engordar de novo, mas de vez em quando eu vou a uma churrascaria, me permito. É muito difícil manter o peso perdido, mas é mais difícil ainda chegar lá”, confessa.

Uma das grandes consequências da alimentação exagerada é o colesterol alto. As pessoas que sofrem de obesidade têm níveis elevados de colesterol LDL, considerado ruim, e uma taxa baixa de HDL, o chamado colesterol bom. Ele é o responsável por ajudar a remover a gordura das paredes das artérias e diminuir o risco de um ataque cardíaco. Esse acúmulo dentro dos vasos pode causar entupimento e até um enfarte. O excesso alimentar também pode causar uma irregularidade na produção de hormônios e levar ao diabetes. “Acredito que é uma das piores doenças associadas à obesidade, porque ela pode causar muitos danos a uma pessoa. É como se fosse uma bola de neve”, revela Adam Gilden Tsai, professor de medicina psiquiátrica da Universidade do Colorado, em Denver.

A obesidade também pode influenciar a vida sexual, principalmente a dos homens. Um estudo de autoria do médico americano conseguiu comprovar que os obesos correm sérios riscos de ter disfunção erétil. Depois dos 50 anos, o risco de ter a doença chega a 40% e, segundo os cientistas, o excesso de peso e o sedentarismo podem aumentar consideravelmente a porcentagem. “A disfunção é causada, em muitos casos, por falta de circulação de sangue no pênis e isso ocorre por causa de hipertensão, diabetes e obesidade. Também pode acontecer uma mudança hormonal e a diminuição dos índices de testosterona. As chances de isso acontecer são ainda maiores com os homens obesos mais velhos”, explica Gilden Tsai, que também descobriu que perder peso pode combater a doença.

Onde mora o perigo

Coração
O excesso de peso exige um esforço maior do coração. O trabalho adicional pode provocar o acidente vascular cerebral ou doença cardíaca grave

PressãoO consumo excessivo de alimentos pode aumentar a produção da insulina; é ela que faz a manutenção do tamanho dos vasos sanguíneos. A compressão dos vasos resulta na pressão alta

TromboseO coração do obeso pode causar um mau bombeamento do sangue para o corpo inteiro, o que gera doenças ligadas ao sistema vascular. É normal o aparecimento de varizes nas pernas e de trombose

Apneia do sonoA doença crônica pode ser desenvolvida porque os obesos apresentam maior quantidade de tecido adiposo na região da faringe

FígadoO órgão pode não ser capaz de metabolizar toda a gordura ingerida em uma alimentação excessiva. A gordura acumulada por desenvolver cirrose ou fibrose

Diabetes –  O aumento do peso e da gordura no corpo pode causa resistência à ação da insulina, o que ajuda o organismo a regular os níveis de glicose, e promove o diabetes
(Correio Brasiliense)

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