Todo mundo, um dia, já caiu na tentação. Seja a de comer demais, cobiçar o bem alheio, envaidecer-se de algo a ponto de alardear suas conquistas aos quatro cantos do mundo. Ou passar um dia inteiro deitado, sem fazer nada; entregar-se aos prazeres descompromissados do sexo, esconder dinheiro para não emprestar, enraivecer-se a ponto de disparar socos e pontapés. Para cada um desses excessos, há um nome. Juntos, eles compõem os sete pecados capitais, descritos pela primeira vez no fim do século 7, quando o papa Gregório fez uma lista das sete piores paixões humanas.

Apesar de nomeados pela Igreja Católica, soberba, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria são vícios malvistos por várias sociedades, antes mesmo que Jesus Cristo fundasse a nova religião. Na mitologia greco-romana, são temas passíveis da fúria dos deuses que, mesmo do alto da majestade olímpica, também não estavam incólumes às paixões humanas. O budismo ensina a se desapegar dos desejos corporais, e, para o hinduísmo, a avareza é um mal destruidor. Mesmo os agnósticos não deixam de torcer o nariz para os vícios que, moralmente, nos parecem mais odiosos, como o ócio ou o orgulho desenfreado.

A ciência, porém, veio nos redimir de todas as nossas culpas. Psicólogos sociais estão debruçados sobre a origem dos pecados capitais. Neurologistas já descobriram que a chave para muitos dos sentimentos considerados ruins estão na fisiologia do cérebro. Pesquisadores mostram que um vício pode ser, muitas vezes, o jeito que o ser humano encontra para se sobreviver, o que Charles Darwin chamaria de pura evolução.

A partir de hoje, o Correio mostra como os cientistas encaram os sete pecados capitais. No primeiro dia da série, dois pesquisadores dos Estados Unidos que realizaram trabalhos sobre o tema explicam porque estamos sujeitos ao que o teólogo São Tomás de Aquino considerou o pior de todos os vícios: a soberba.

Soberba –  Ela é a mãe de todos os pecados. A soberba, também chamada de orgulho, arrogância, pretensão ou vaidade, fez Eva desafiar as ordens divinas e provar do fruto proibido. Instigada pela serpente, a mulher nascida da costela de Adão sentiu-se maior do que realmente era. Quis conhecer o segredo de Deus e ainda levou o marido junto. O resto da história, todo mundo sabe: expulsão do Paraíso, uma tragédia fratricida e o peso de carregar, até o fim dos dias, a culpa original, salva apenas pela Paixão de Cristo.

A soberba passou pelas civilizações como a vilã da boa conduta. Na República romana, os magistrados espoliavam os vencidos, acumulavam metais preciosos, exibiam em seus casarões na colina do Palatino esculturas roubadas dos gregos, além de máscaras de cera retratando ancestrais famosos e lagos artificiais nos quais cultivavam peixes raros e ostras de melhor qualidade. No Senado, porém, apregoavam o desapego e a humildade. Chegaram ao ponto de sugerir leis que proibiam os cidadãos de ter em casa pratos e talheres feitos de ouro ou prata.

A religiosidade da Idade Média baniu por vez qualquer resquício de vaidade. Imagens de homens e mulheres estavam proibidas. Nas pinturas, somente cenas bíblicas podiam ser retratadas. A arquitetura gótica, com seus pés direitos altíssimos, eram um lembrete para os soberbos: somos infinitamente pequenos diante de Deus. Foi quando surgiram as ordens religiosas que introduziram o voto de pobreza. De pés descalços, São Francisco de Assis abdicou da riqueza e deixou a lição: “É dando que se recebe&quot.

Foram necessários milhares de anos (nas contas de Darwin; para os criacionistas, bilhares) para que a soberba fosse absolvida. A ciência agora tira a carga de culpa que sempre envolveu o sentimento. &quotEu diria que o orgulho é completamente natural e benéfico quando não chega aos extremos”, disse ao Correio o psicólogo social David DeSteno, professor associado da Northestern University, nos Estados Unidos, e autor de diversos trabalhos sobre o assunto. O mais recente foi publicado no ano passado e relaciona orgulho e perseverança.

De acordo com o especialista, ser vaidoso é uma questão de sobrevivência. Relaciona-se melhor no mundo quem tem uma atitude de autoapreciação. &quotO orgulho pode ser extremamente funcional, à medida que nos impele a perseverar nas nossas tarefas, desenvolver mais habilidades, para ser valorizado dentro de um grupo. Quando você está feliz, não precisa trabalhar pesado para parecer melhor. Na nossa pesquisa, mostramos que a vaidade conduz à perseverança”, diz.

DeSteno analisou um grupo de 62 estudantes de nível superior a testes que, em princípio, mediriam seu coeficiente de inteligência (QI) espacial. Eles não tinham ideia de como haviam se saído. Para alguns, o pesquisador não disse nada. Outros foram informados que suas pontuações eram as melhores que ele já tinha visto, mas, ao informá-los disso, o psicólogo não expressou qualquer emoção. Finalmente, um terceiro grupo de alunos foi festejado por DeSteno, que fez questão de cumprimentá-los pelos excelentes resultados.

Novamente reunidos, os estudantes tiveram de solucionar, juntos, novos testes. Os integrantes do terceiro grupo mostraram-se bem mais altivos e orgulhosos. E disseram que sentiam que seus parceiros de jogo — também elogiados por DeSteno — eram bem mais dominantes e agradáveis comparados aos demais. Pessoas vaidosas e que demonstram o sentimento, portanto, estão em mais alta consideração que aquelas de atitude humilde. Além disso, quanto mais &quotse acham”, mais os soberbos vão se esforçar para parecerem melhor ainda.

Exagero –  O psicólogo, porém, alerta que há um limite. &quotSe uma pessoa vai bem em uma tarefa, ela geralmente vai se sentir orgulhosa e encorajada a fazer ainda melhor. Porém, algumas pessoas generalizam esse sentimento. Sentem-se orgulhosas em relação a tudo. Esse senso de ‘eu sou bom em absolutamente tudo’ pode rapidamente se transformar em húbris”, diz DeSteno. Ele se refere ao termo grego hýbris, que se refere a uma insolência tão grande que chega a ser uma afronta moral. Os deuses de Atenas costumavam punir quem demonstrava arrogância em demasia.

O orgulho hubrístico, explica psicóloga Jessica L. Tracy, está associado ao narcisismo e ao egoísmo e pode ser considerado socialmente um mau sentimento. A pesquisadora da University of British Columbia é uma estudiosa da soberba e, no ano passado, publicou um estudo a respeito juntamente com a University of San Francisco. &quotNós descobrimos que há dois tipos diferentes de orgulho, o hubrístico e o autêntico. Esse último está ligado à autoconfiança, ao pensamento positivo e ao ganho de conhecimento. É o tipo de orgulho que as pessoas sentem quando trabalham duro para conseguir fazer algo”, disse ao Correio.

Jessica analisou as reações gestuais de lutadores de judô que participaram das Olimpíadas e Paraolimpíadas de 2004. Observou que o orgulho não tem nacionalidade. Todas as culturas o expressam de alguma forma. Os atletas que perdiam abaixavam os ombros e a cabeça, ou contraíam o tórax. Já os vencedores inflavam o peito, levantavam bem a cabeça e davam soquinhos no ar. Para Jessica, é uma prova de que o orgulho é um sentimento inato e não cultural. &quotDescobrimos que pessoas de culturas de todo o mundo mostram o orgulho por expressão não verbal como resposta ao sucesso e isso não difere, independentemente do país do qual procedem”, explica. &quotOs gestos foram verificados inclusive entre cegos congênitos, que, por nunca terem enxergado, não podem ter aprendido a mostrar essas expressões observando os outros”, diz a cientista, para quem os primeiros primatas não humanos já se valiam da soberba como forma de dominar o grupo.

(Correio Brasiliense)

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