Perda do emprego pode representar mudança positiva, dizem especialistas. Conheça casos de pessoas que conseguiram reverter a situação.

A produtora cultural Nancy Silva, 24, sofreu uma baixa na carreira em dezembro do ano passado: foi mandada embora da empresa em que trabalhava depois que a crise financeira motivou a perda contratos importantes para os negócios.

O que parecia um fim, no entanto, impulsionou o sonho da independência profissional que ela já vive um mês depois: escritório montado em casa, horários flexíveis, autonomia na escolha dos projetos, retorno financeiro e qualidade de vida.

O trabalho autônomo em parceria com uma colega – que já rendeu dois novos contratos e perspectivas de mais negócios – deve se transformar em uma empresa formal – uma produtora a ser criada por elas no segundo semestre.

“De cara, já é muito melhor. Profissionalmente, é um ganho evidente e financeiramente também porque, apesar dos investimentos, o retorno vem diretamente para você”, diz Nancy.

Vida pós-demissão – A experiência de encontrar vida e mudanças positivas após a demissão é saudável e extremamente possível, segundo especialistas consultados pelo G1.

Requer, alertam eles, planejamento e uma boa dose de esforço psicológico: pensamentos negativos podem transformar possibilidades promissoras em desânimo e depressão.

“[Aproveitar a demissão como oportunidade] é possível sempre, absolutamente sempre. Mas antes a pessoa tem que se livrar do rótulo daquele emprego, entender que ela é sempre muito mais do que ela faz onde quer que esteja”, diz a consultora Inês Cozzo Olivares.

Segundo ela, o primeiro passo para evitar o sentimento de desespero que costuma suceder as demissões é demarcar bem a diferença entre a identidade do trabalhador e do cargo que ele ocupava.

“A pessoa tem que entender que não é um engenheiro, ela apenas está ‘engenheirando’ naquele momento”, diz Inês.

Para isso, é importante fazer uma lista de todas as capacidades que ela tem, relacionados ou não à carreira em que atuava recentemente. Depois, listar também de que maneiras seria possível aplicar cada um daqueles talentos.

“O raciocínio é: isto eu faço bem? Onde eu posso levar?”, afirma a especialista.

Nos casos em que o desejo é encontrar uma vaga em um ramo diferente de atuação, vale buscar contatos, emprego e estudos mais próximos à nova carreira.

“A pessoa vai ter que se sujeitar a ganhar um salário inferior, mas se houver o desejo de mudança, pode valer a pena”, diz Adriano Meirinho, diretor de marketing da Catho.

Até um emprego “trampolim” é válido para garantir o sustento durante o período de qualificação.

“Vou fazer algo que me dê sustento e não me agrida até que eu volte a fazer o que eu amo. Não é vergonha nenhuma”, diz a consultora Inês Cozzo Olivares.

Mudança de carreira –  Na opinião do consultor Eduardo Carmello, ter algumas idéias pré-planejadas para um novo caminho fora da empresa fizeram toda a diferença quando ele aceitou em 1991 abandonar um cargo no setor de processamento de dados no Banco do Brasil, onde trabalhava havia sete anos.

Insatisfeito por não ter sido implementado um projeto ao quai havia se dedicado e frustrado em relação à chefia, ele participou de um Plano de Demissão Voluntária (PDV).

“No PDV, a empresa manda um comunicado e você tem 15 dias para tomar a decisão de sair ou não. Chorei três dias para decidir. É um processo que te dá um choque”, diz Carmello, que hoje é dono de uma consultoria que tem o Banco do Brasil na lista de clientes.

Para ele, a insatisfação e o desejo prévio de colocar algumas idéias de mudança em prática impulsionaram a carreira independente.

“Na época, muitos colegas saíram no mesmo PDV que eu e, como não tinham nada em vista, pediram para voltar. Só quem já tinha algum plano de negócios em mente conseguiu superar a demissão”, diz.

Agilizar contatos antecipadamente também colaborou para a adaptação da produtora Nancy SIlva antes de ser demitida e iniciar a carreira “solo”.

“Quando comecei a notar que cortes poderiam ocorrer, já comecei a levantar contatos e a me movimentar”, diz.

Planejamento no papel – Apesar dos exemplos bem-sucedidos no mercado, é necessário pensar antes de agir: nem sempre abrir um negócio próprio implica mudança de rumo positiva.

“Não é qualquer um que perde o emprego que tem condições de abrir um negócio próprio”, ensina o consultor do Sebrae, Ari Antônio Rosolem.

“Cerca de 20% das empresas que nascem, são de pessoas que saíram do emprego e abriram o próprio negócio. Boa parte não tem sucesso porque não tem o tino empreendedor”, diz.

A motivação para quem quer abrir uma empresa deve ser mais do que pressa para voltar ao mercado de trabalho após um corte.

“Deve ser a vontade de trabalhar com uma coisa que goste, que conheça, que tenha dinheiro para pagar”, explica.

Fonte: Folha Online