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Catulo, o poeta subestimado e esquecido – foto: divulgação

Por José Teles, via JC Online

“Nosso Senhor dê bons dia a vasmincê, meu patrão, e a toda a sua famia/ cheguei há cinco sumana nesta grande Capitá/ sou musgo!… musgo gaitêro!… /e, não é prú me gabá/ fui o terrô dos violêro/ dos sertão do Ceará”. Por causa de versos feitos estes (do poema Quinca Micuá, do livro O meu sertão, 1918), em que entortava a prosódia, supostamente emulando o modo de falar dos sertanejos, que o maranhense Catulo da Paixão Cearense ganhou a antipatia de intelectuais, e críticos literários. Sobretudo depois da Semana da Arte Moderna, de 1922, que arejou a poesia brasileira, mas ele continua, até o dias atuais, influenciando a chamada poesia matuta.

Durante décadas, Catulo da Paixão Cearense foi um dos poetas e compositores mais populares do País. Publicava livros aos montes e compunha com profusão. Suas coletâneas de modinhas, chorinhos, serestas, eram disputadíssimas. Obras que alcançavam facilmente 20 edições, lançadas com papel barato e a preços módicos. No Rio, onde chegou de São Luís, em 1880, aos 17 anos, era recebido pela alta sociedade, dava recitais para teatros superlotados, foi o primeiro a fazer soar as cordas do até então estigmatizado violão no palácio do Catete, na presidência do Marechal Hermes da Fonseca.

Carismático, vaidoso, Catulo não era muito de fazer melodias. Mas, tanta sua fama, que as canções em que botava versos, mesmo quando compostas com nomes feito Ernesto Nazareth, passavam a ser conhecidas como se dele apenas fossem. Entre suas canções mais conhecidas estão Luar do Sertão (com João Pernambuco), Ontem ao luar (com Pedro Alcântara), Flor Amorosa (com Joaquim Antônio da Silva Callado) e Você não me dá (com Ernesto Nazareth).

Mas só uma pequena parcela da obra musical de Catulo da Paixão Cearense foi gravada, já que ele compunha desde o final do século 19. Embora em 1904 já se gravasse no Brasil, somente em 1913, surgia, na Tijuca, a fábrica de discos Odeon, do pioneiro Fred Figner. A produção era limitada para a enxurrada de composições do poeta maranhense. Quando morreu, em 1946, Catulo estava pobre e quase esquecido.

Continuou mais influente pela poesia matuta, que inspirou muitos contadores de causos, declamadores e cordelistas. Suas música, com mínimas exceções, são raramente gravadas. Duas destas, Ontem ao luar (cantada por Marisa Monte, em álbum de 2001), ou Luar do Sertão (que ganhou uma interpretação antológica de Milton Nascimento em 1991).

O disco A Paixão Segundo Catulo, produzido por Mário Séve, com elenco estelar de intérpretes e instrumentistas, com selo Sesc, é uma tentativa de tirar da obscuridade Catulo da Paixão Cearense, atualizando arranjos e a maneira de cantar estas canções, algumas com mais de um século. O projeto surgiu para lembrar o poeta nos seus 150 anos, em 2016 (seria em 2013, mas a idade foi aumentada no registro).

O músico e produtor Mário Séve idealizou e dirigiu, para o Centro Cultural Banco do Brasil, o espetáculo A Paixão Segundo Catulo – Um olhar sobre a modinha brasileira. “Foi exibido em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, e trazia também música de compositores que antecederam Catulo. Cada um com choros, valsas, schottisches, toadas, modinhas e lundus, estilos de composições de Catulo”, comenta Mário Séve.

Os shows, no formato de sarau, foram interpretados por Carol Saboya e Lui Coimbra, Mariana Baltar e Cláudio Nucci, Joyce Moreno e Alfredo Del-Penho, Leila Pinheiro e Rodrigo Maranhão. Séve, músico experiente (do grupo de Paulinho da Viola), confessa que considerava Catulo da Paixão Cearense uma figura meio misteriosa:

“Comecei a ouvir um disco da coleção de música popular brasileira, da Abril, com bela capa de Elifas Andreato. Este fascículo é dedicado a Catulo e a Cândido das Neves, seu contemporâneo. Ouvi e fiquei com esta ideia na cabeça, mais pelo lado afetivo”. Este lado afetivo seria pelas composições que se fixaram na memória do brasileiro, feito Lua do sertão”, que já foi tida como o “hino da alma nacional”.

DISCO

A paixão segundo Catulo tem 15 faixas, com os clássicos do compositor, quase todas são dos primeiros anos do século passado, belas melodias em que o poeta encaixou suas letras repletas de preciosismos: “Ele foi basicamente um artista popular autodidata, falava rebuscado, usava imagens em excesso, porém, sem dúvida, é inegável que ele não tem um erro de prosódia no que letrou dos chorões. Tem que se contextualizar, aquilo era a época. Rosa, de Pixinguinha (o letrista foi um certo Otávio de Souza), é totalmente catuliana”, comenta Mário Séve.

Em uma entrevista de Catulo da Paixão Cearense, na revista carioca Kosmos, em1908, o poeta comenta a dificuldade de letrar uma melodia: “Vós me pedis, suponde, que eu faça poesia para certa música. Credes que eu, imediatamente, empunhe a pluma e a vaze no papel. Não. Há alguma destas músicas que me fazem levar horas inteiras a interpretar-lhes os sentimentos, os queixumes, as mágoas que sofrem os seus autores”.

“Sestrosa, dengosa, derriçosa, odorosa flor”, verso que Sertaneja, melodia de Ernesto Nazareth, com quem ele compôs Sertanejo enamorado e Você não me dá, esta última um dos maiores sucessos da primeira década do século 20. O show de A Paixão Segundo Catulo deve rodar pelo País, com menor número de interpretes e com a banda base do disco, Mario Séve (flautas), Adriano Souza (piano), Luiz Otávio Braga (violão de seis e sete cordas), e Dininho (baixolão).

Link: http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/musica/noticia/2018/03/11/catulo-da-paixao-cearense-tem-parte-do-cancioneiro-resgatado-330910.php
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