Fortaleza, o Centro pede socorro

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Praça do Ferreira, manhã do Dia de Finados, aguardamos a chegada de alunos para iniciarmos mais um trabalho de campo. O ambiente parecia hostil. Num quadrante da Praça, um grupo fazia trabalho social. Pedintes perambulavam em várias direções à espera de esmolas entre os poucos passantes. Em plena luz do dia, um clima de temor e desconfiança, um exagerado medo do outro, uma alteridade às avessas, fim da tranquilidade e da possibilidade de fruição de um lugar urbano emblemático. A paisagem desoladora da Praça comprova a situação de frangalho do Centro da Cidade.

Dos trechos percorridos, somente a Praça General Tibúrcio, mais conhecida como Praça dos Leões, mantinha bom aspecto. A situação do Centro em sua totalidade remete à letra de Chico Buarque em “Quem te viu quem te vê”, pois o Centro famoso por suas praças, monumentos, edifícios de prestígio e lugar referencial da memória coletiva cearense, está irreconhecível. É lastimável. A Praça do Ferreira, famosa como logradouro inclusivo e acolhedor, foi cenário da inesperada vaia ao sol, fato ocorrido numa manhã de 1942, quando, após dois dias bem nublados, período castigado por severa seca e nada de chuva. Em plena expectativa de uma chuva torrencial, alvissareira, o sol desposado com a loura aparece reluzente.

A reação foi imediata – uma enorme e uníssona vaia. Isso é o Ceará Moleque, é o Centro de Fortaleza onde o Bode Ioiô tornou-se figura carimbada perambulando pelas ruas da Cidade, fazendo o percurso da praia até a Praça do Ferreira. É por isso também, e por muito mais, que o Centro de Fortaleza merece mais cuidado. Nada de revitalização e outros re alguma coisa. Só se revitaliza o que está morto e, com certeza, não é o caso do Centro.

Impossível retomar os tempos de outrora. O Centro do presente continua muito interessante e atraente e permanece tão pujante mesmo com a perda de algumas funções. Seu vigor é evidente na dinâmica de suas ruas estreitas apinhadas de gente num vai e vem

constante. O setor de saúde adquiriu um perfil próprio que se produziu no Centro e se multiplica nas proximidades da Santa Casa de Misericórdia.

São muitas as clínicas populares com forte poder de atração sobre usuários de Fortaleza, da região metropolitana e mesmo de municípios mais distantes. Vale a pena conferir o burburinho que perdura, principalmente, pelas manhãs. Nas imediações da avenida Duque de Caxias várias faculdades garantem a animação daquela parte da Cidade o que se estende noite adentro. Um novo público garante dinamismo de diferentes segmentos comerciais e de serviços da área central. O Theatro José de Alencar merecia uma praça cuidada à altura de sua imponência. Pedras soltas em vários pontos do calçamento comprometem os pedestres.

São muitos os que dormem sob as marquises. O calçamento das ruas Guilherme Rocha e Liberato Barroso está em situação lastimável. O Centro não merece esse desprezo e abandono em que se encontra. Espera-se que, neste segundo mandato, o prefeito Roberto Cláudio inclua o Centro entre as áreas de intervenção urgente.

José Borzacchiello da Silva

borza@secrel.com.br

Geógrafo e professor emérito da UFC

(O Povo Online)

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