Mayaro: mais um vírus transmitido pelo Aedes aegypti

zika
O Aedes aegypti tem capacidade de transmitir o vírus mayaro (Foto: Thinkstock)

De 7 a 11 de novembro, o Rio de Janeiro (RJ) sedia o evento internacional “Zika: um ano depois”, que reúne médicos e pesquisadores de diversos países. O objetivo é debater as mais recentes descobertas sobre o vírus zika que assustou o Brasil no final de 2015 e que ficou conhecido por causar microcefalia em bebês.

Curiosamente, entre tantos trabalhos que têm sido apresentados no encontro, um dos que mais chamou a atenção não é sobre o zika – e sim sobre o mayaro, um vírus que a maioria dos brasileiros desconhece. O estudo em questão foi feito pela Universidade da Flórida (EUA) e explica que os sintomas de uma pessoa infectada pelo mayaro podem ser muito parecidos com os causados pelos vírus da dengue, chikungunya e zika.

Para entender o que é o vírus mayaro, CRESCER entrevistou o médico Maurício Lacerda Nogueira, pesquisador da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto. Nogueira estuda o vírus e é membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Virologia. Confira o bate-papo:

O que é o vírus mayaro?
É um arbovírus, ou seja, um vírus transmitido por mosquitos. Podemos chamar de um “chikungunya brasileiro”, porque tem as mesmas características, mesmos sintomas, mas é originário das Américas. Foi primeiro identificado na região do Caribe nos anos 1950. Hoje, a maioria dos casos está no Brasil.

Quais são os sintomas da infecção pelo vírus mayaro?
Ele causa febre e dor nas articulações. Os sintomas duram mais tempo que os da dengue, podendo se manifestar por até 6 meses e levar a uma artrite crônica.

Onde o mayaro é encontrado no Brasil?
Ele é endêmico no centro-oeste brasileiro e na região amazônica. Sabemos de um caso em São Paulo, mas foi adquirido durante uma viagem para a região norte.

Qual mosquito transmite o vírus mayaro aos humanos?
Os mosquitos do gênero Haemagogus. Eles são silvestres, vivem na copa das árvores. É o mesmo que transmite a febre amarela. Pelas nossas pesquisas em laboratório, já sabemos que o Aedes aegypti também tem a capacidade de transmitir esse vírus.

Há um artigo seu que afirma que o mayaro é o arbovírus mais negligenciado das Américas. Por que isso acontece?
Considero o mayaro o mais negligenciado porque sempre que pesquisadores buscaram pelo vírus nos últimos 15 anos, ele foi encontrado – mas apenas as epidemias chamam a atenção do governo, como aconteceu há pouco tempo em Goiânia (GO). Mesmo assim, o Ministério da Saúde não deu a devida importância: o que aconteceu em Goiânia? Qual foi o mosquito que transmitiu o mayaro lá? Que investigação foi feita pelo governo? Eles sabem que existe e não dão importância. Há, no Brasil, mais de 30 vírus que causam doenças e a maioria da população nunca ouviu falar. Percebemos que o mayaro está indo cada vez mais para o sul e está se aproximando das regiões mais populosas do Brasil. Tanto o Ministério da Saúde como os médicos têm que estar mais alertas a esse vírus. Não é só dengue e chikungunya que causam dores nas articulações. Este ano, eu falei sobre o mayaro no Congresso Brasileiro de Reumatologia, porque é nesses profissionais que os pacientes vão chegar com dores. Vi a cara de espanto de 95% dos médicos. A maioria deles nunca tinha ouvido falar sobre o vírus e o que ele causa. Não deve ter nem cinco grupos de pesquisa no Brasil inteiro que estuda o mayaro. O restante do mundo sabe menos ainda sobre esse vírus. O mayaro chegou agora na mídia, mas não é uma coisa nova. Não existe motivo nenhum para alarme ou pânico.

Pode haver alguma relação entre o vírus mayaro e os casos de bebês que nasceram com microcefalia?
Chance zero. Creio que existem cofatores ligados ao zika que podem causar a microcefalia, mas não acredito que seja outro vírus. Talvez sejam questões imunológicas da pessoa, ou genéticas do hospedeiro. Até porque não há circulação de mayaro nas regiões onde teve maior incidência de microcefalia. Além disso, o mayaro teria sido facilmente identificado nos exames que essas mulheres e bebês fizeram durante a investigação da causa. Não teria como deixar passar.

(http://revistacrescer.globo.com)

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