Esquerdas só voltam ao poder se construírem um projeto único

Por Eduardo Guimarães, Blog da Cidadania

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Tive um debate meio longo por Whats App com uma importantíssima liderança do PSOL.  A conversa se deu por conta de comentário que fiz à minha lista naquela rede social. O texto curto gerou polêmica naquele grupo em virtude de conter críticas à esquerda em geral, culpando-a pela queda de Dilma e pela ressureição de uma direita que todos julgavam morta.

Porém, o que tenho a dizer sobre esse debate ficará para o fim do texto. Antes, vale fazermos algumas reflexões primordiais para o entendimento do que está acontecendo.

Partamos da premissa de que, em política, decretar morte, derrota, vitória ou até hegemonia de alguém ou algum partido é um erro fatal. Eu, como muitos da esquerda, cometi esse erro em relação ao PSDB e ao DEM. Achei que os partidos estavam acabados e, agora, vejo a direita cometer o mesmo erro decretando a morte do PT e da esquerda em geral antes da hora.

Em política, porém, tudo é conjuntural. Não há bem que sempre dure ou mal que nunca acabe. Entretanto, os operadores da política sempre sonham com a “vitória final” ou têm pesadelos com a derrota eterna.

Desde que chegou ao poder central em 1994, o PSDB elegeu quase cem deputados federais na mesma legislatura e viu esse número cair a menos de cinquenta nas legislaturas seguintes. Em 2012, o ex-governador José Serra não conseguiu se eleger prefeito da capital paulista e quase chegou em terceiro lugar no primeiro turno.

O PSDB parecia liquidado.

Quatro anos depois, o partido ressurge como a grande força política nacional. Fez barba, cabelo e bigode na eleição municipal.

Porém, o PSDB não ganhou mais eleitores, o PT é que perdeu muitos. A esquerda em geral perdeu muitos eleitores. E não perdeu para a direita ou para o centro, perdeu para o doutor voto nulo ou para a doutora abstenção.

Daí que dizer que o PT ou a esquerda estão mortos também é, no mínimo, cometer o mesmo erro de setores da esquerda ao acharem que a direitona estava inviabilizada, e que após mais de uma década de ascensão social o povão jamais iria querer de volta políticas de direita que reduzem direitos e acabam com programas sociais.

Como se vê, o povo pode mudar rápida e radicalmente de ideia.

O problema da direita é que ela acha que vai conseguir governar para sempre pisoteando o povo, e isso não rola. A crise cambial de 1999 afundou o PSDB e este passou todo o segundo mandato de FHC chafurdando nas políticas neoliberais que venderam patrimônio público a preço de banana e não cuidaram do social ou dos interesses dos trabalhadores.

E após o desastre com Fernando Collor, que afundou o país, e com FHC, que se pensou que o reergueria mas manteve a vida do povo piorando, esse mesmo povo decidiu fazer o impensável, dar uma chance ao demonizado Lula, aquele que Collor dizia que iria tomar as casas das pessoas para colocar várias famílias dentro.

O PT conseguiu um dos governos mais longos da história brasileira graças ao mal causado pelo PSDB entre 1995 e 2002. Nos mesmos oito anos, Lula fez tudo diferente. Fez a vida do povo melhorar. Dilma conseguiu manter o welfare state verde-amarelo pelo primeiro mandato inteiro, mas na metade do segundo mandato foi sabotada pela oposição de esquerda, que conseguiu fazer manifestações gigantescas aceitando ao seu lado todo o lixo da sociedade que estivesse disposto a ir à rua.

Neonazistas e toda sorte de extremistas de direita viram ali a possibilidade de darem um golpe mortal na esquerda e acabarem com aquela história de dar dinheiro público para pobre.

Em 2013, sob uma desculpa qualquer (no caso, aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus em São Paulo), o PSOL, o PSTU, a Rede, um grupo de professores e alunos da USP e alguns movimentos sociais e setores da esquerda mais radical do PT conseguiram derrubar a popularidade de Dilma de mais de 60% para 30% em três incríveis semanas.

Com a maior cidade do país convulsionada por atos gigantescos de protesto, a ideia que sobressaiu à cabeça das pessoas era a de que se tanta gente estava na rua reclamando o país teria que estar ruim, e se o país estava ruim a culpa era de quem governava esse país, ou seja, Dilma!

No ano seguinte, Dilma já havia recuperado um pouco de popularidade, mas essa mesma esquerda teve a ideia de gênio de atacá-la de novo acusando-a de usar dinheiro da saúde e da educação para fazer a Copa do Mundo. Manifestações imensas todo dia martelavam na cabeça das pessoas que Dilma e Lula eram dois déspotas que com o povo morrendo nos corredores dos hospitais decidiram gastar dinheiro em estádios de futebol.

Claro que o dinheiro investido na Copa foi pago pela realização da Copa. Não completamente porque setores da esquerda e a direita em peso fizeram campanhas para aconselharem os turistas a não virem para o Brasil porque haveria uma guerra civil aqui.

Vídeos bem produzidos e em inglês ajudaram e diminuir o número de turistas e o lucro que o país teria com a Copa.

No fim de 2014, Dilma, após ter sido reeleita com grande dificuldade devido a ataques da direita e da esquerda na campanha e no ano anterior, nomeia Katia Abreu como ministra da Agricultura…

O mundo caiu. Katia promoveria um genocídio no campo, apesar de que o ministério da Agricultura não cuida da questão fundiária.

Ao fim, Katia Abreu não cometeu um único ato que justificasse a celeuma da esquerda e ainda foi a mais fiel aliada de Dilma até o último segundo. Isso afora o fato de que lavou a nossa alma ao atirar uma taça de champanha na cara de José Serra.

Aí chegamos a 2015. Janeiro. Dilma toma medidas básicas na economia. Uma delas foi em relação ao seguro desemprego. Como os pedidos de seguro estavam aumentando apesar de o desemprego até então vir caindo, ela baixou medida para acabar com as fraudes restringindo um pouco o acesso ao benefício.

Antes de poder explicar o ajuste fiscal, que poderia ter sido feito em seis meses e com baixo custo, a esquerda brilhante faz abaixo-assinado de “intelectuais” que ao pedir que Dilma cumprisse o programa com que ganhou a eleição, na prática a acusou de estelionato eleitoral.

Enfim, a direita jamais teria conseguido reduzir tanto a popularidade de Dilma sem ajuda da esquerda. A direita estava desacreditada, em crise, seus partidos diminuindo a cada eleição. O PFL mudou o nome para DEM e mesmo assim continuava minguando.

A esquerda que depois que a vaca tinha ido pro brejo foi à rua “contra o golpe” é a mesma esquerda que meses antes acusava Dilma de “estelionato eleitoral” e que afirmava que PT, PSDB e PMDB eram todos “a mesma coisa”, afirmação que a PEC 241, a reforma trabalhista e a terceirização que Temer está pondo em prática mostram que é uma afirmação imbecil.

Naquele debate que citei lá no primeiro parágrafo, debate que tive com uma liderança importante do PSOL, pude confirmar meu maior temor, o de que a esquerda vá demorar muito para entender o erro que cometeu. E isso porque uma parte considerável da esquerda brasileira perdeu o rumo, perdeu a relação com a realidade. Não aceita nenhuma crítica por tudo que fez de 2013 até a recente eleição municipal, quando se dividiu de forma burra e, assim, viu a direita crescer como nunca antes na história deste país.

Porém, não foram muitos argumentos para mostrar àquela pessoa que seus conceitos sobre o PT e sobre como se deve governar, quando se chega ao poder, estão fora da realidade. Após minha última resposta, a pessoa não escreveu mais nada. Porque não haveria argumentos. E se houver, que alguém por favor me dê a resposta que o psolista em questão não deu.

Ai vai o trecho do debate anunciado no primeiro parágrafo.

—–

 

[30/10 10:22] Eduardo Guimarães:

O suicídio da esquerda começou com as jornadas de junho, quando a própria esquerda tirou a ultradireita do armário e fez a popularidade de Dilma cair de 65% para 30% em 3 semanas. Depois, o “não vai ter Copa”, com a esquerda acusando Dilma de tirar dinheiro da Saúde e da Educação pra gastar com a FIFA. Depois, a esquerda fez uma celeuma em dezembro de 14 por conta da nomeação de Katia Abreu, e, em janeiro de 15, fez um manifesto de “intelectuais” acusando Dilma de estelionato eleitoral. Boulos chegou a dizer à Folha em entrevista há uns meses atrás, que o governo Dilma era “indefensável”. Exangue por autoflagelação, a esquerda se dividiu na eleição deste ano (sobretudo em Sampa e Rio) e, debilitada, foi enfrentar uma direita vitaminada. É a esquerda que a direita ama

[30/10 13:17] PSOLISTA:

Ah, Eduardo me poupe. Parece garoto de DCE. Fique aí com seu autoengano. Continue acreditando em sua narrativa particular e ressentida. Enquanto isso, os golpistas que o PT e o PC do B carregaram no ventre todos esses anos, alimentando-os com muito dinheiro, triunfam. Acorda, Alice! É muita “ingenuidade” (pra não dizer burrice nem irresponsabilidade) ceder cargos e orçamentos para direita mais caricata e achar que isso não traria nenhuma consequência em termos de melhora da capacidade de mobilização deles. Acorda, Alice! E pior do que ter escolhido aliados ruins, foi terem ficado tão parecidos com esses aliados na maioria das vezes.

[30/10 13:28] Eduardo Guimarães:

Como governa sem aliança?  Eu que sou Alice?  Ensine-me como o Freixo governaria sem aliança?

[30/10 13:32] PSOLISTA:

Aliança (em torno de um programa claro de governo; em que os mentores do programa se tornam como um maestro de uma orquestra que deve executar bem uma determinada partitura, pondo pra fora o instrumentista que desafina por incompetência ou má fé ou corrupção) é uma coisa; loteamento de funções públicas de distribuição de cargos em troca de horário de tevê nas eleições e de currais eleitorais é outra! O PT e o PC do B optaram pelo modus operandi de sempre. Nós queremos e vamos ser um maestro de uma orquestra! Entendeu a diferença? Espero que sim!

[30/10 13:35] Eduardo Guimarães:

Você então está me dizendo que se o PSOL vencer no Rio conseguirá governar com partidos impuros como o PMDB mas este não exigirá cargos para apoiar o prefeito?  O PT só precisava ter pedido aos seus aliados impuros pra não exigirem cargos pra votar matérias de interesse do governo? É isso?

[30/10 13:44] PSOLISTA:

Não governaremos com o PMDB. Governaremos com os movimentos sociais e a sociedade civil decente organizada. É assim que o PMDB na Câmara terá que fazer um aposição ao nosso governo vigiada por esse setores que nos apoiam.

[30/10 13:47] Eduardo Guimarães:

Há um projeto ou uma medida do governo para ser votados. O prefeito, governador ou presidente precisam de maioria no Legislativo. Os movimentos sociais e a sociedade civil não votam, quem vota são os vereadores, deputados e senadores. Porém,  o PSOL só terá uma minoria ínfima dos votos no Legislativo se não fizer aliança. Com quem será essa aliança?

[30/10 13:54] PSOLISTA:

Sociedade civil e movimentos sociais não votam, mas pressionam os que votam.

[30/10 13:58] Eduardo Guimarães:

PMDB, PSDB, PTB, PP, PR, PSD, DEM,  PPS,  PSB eram imensa maioria do Congresso durante os governos Lula e Dilma. Esses partidos estariam preocupados com as pressões dos atingidos por barragens ou dos sem-teto ou da CUT ou do MST? Sem ter um exército para tomar o poder e governar sem o Legislativo, sem ter maioria no Legislativo e sem ter montanhas de dinheiro para vencer campanhas eleitorais de parlamentares, só resta à esquerda fazer alianças e ceder cargos se eleger algum chefe de Executivo que, sem aliados e sem exército,  pode ser facilmente derrubado no presidencialismo à brasileira

Via http://www.blogdacidadania.com.br

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