Rede, de Marina Silva, vira legenda pequena e partido de banqueiros estreia discreto

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por Eduardo Maretti, da RBA

São Paulo – Dois partidos, entre os que estrearam em disputas eleitorais em 2016, tentaram angariar eleitores jovens. Mas o Partido Novo, financiado por banqueiros, que tentam ocupar espaço à direita no espectro político, construído sob uma lógica e um discurso empresarial e liberal, é diferente da Rede, de Marina Silva, legenda que disputa espaços dentro da lógica política tradicional, embora com um discurso de representar“uma nova forma de fazer política“.

“A Rede não foi o que se propunha ser, a começar do ponto de vista do espaço conquistado nas eleições. Poderia ter conquistado mais, pelo menos diante do que Marina Silva se tornou, e do que as principais lideranças afirmavam que podia ser“, diz o cientista político Humberto Dantas, coordenador do curso de pós-graduação da Fundação Escola de Sociologia e Política (Fespsp).

O resultado mais expressivo da Rede foi ter levado Clécio Luis ao segundo turno em Macapá (AP), contra Gilvam Borges (PMDB). Clécio disputa a reeleição, mas foi eleito em 2012 pelo Psol.

Para Humberto Dantas, apesar do discurso, a Rede não faz o que se pode chamar de “nova política“. “Fez alianças, acordos e coligações bastante questionáveis à luz do que se chama de uma nova política ou nova forma de fazer política. A Rede se transformou num partido pequeno, comum. Que faz alianças e parece que vai escolhendo à luz da interpretações de seus líderes“, avalia. “Em 2014, a Marina apoiou o Aécio. Definitivamente, novidade Aécio Neves não é. A Rede é diferente do que parte do partido romantiza.“

Outro problema da Rede é a centralização de todas as decisões em Marina, segundo um grupo encabeçado pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares, que, em manifesto divulgado ontem (3), anunciou a desfiliação da legenda. O caciquismo e o autoritarismo de que o grupo reclama é outra característica que afasta a legenda do que a própria Marina chama de “nova política“.

“O fato de a Rede ser politicamente dependente de Marina Silva, sua maior figura pública, se constituiu em um fenômeno que, ao invés de ter se tornado menor ao longo do processo de construção partidária, se acentuou ao longo do tempo“, diz Luiz Eduardo Soares no manifesto. “Na verdade, as decisões estratégicas que foram conformando o perfil da Rede partiram todas de Marina e apenas dela, desde a decisão de entrar no PSB até a decisão favorável ao impeachment da presidente Dilma“, afirma.

Humberto Dantas ressalva, porém, que a Rede fez algumas campanhas interessantes e que de certa maneira apontam para a “nova forma de fazer política“. Para ele, é o caso do candidato Kayo Amado, São Vicente (litoral sul de São Paulo), que, segundo Dantas, “fez uma campanha interessante do ponto de vista do discurso, em que apertou quem sempre reinou na cidade, por exemplo“.

Amato não foi ao segundo turno por pouco. A eleição foi vencida já de antemão por Pedro Gouvêa, apoiado pelo poderoso vice-governador de São Paulo, Márcio França, com 50,46%, contra 28,10% do candidato da Rede.

Novo?

Já o Partido Novo, para o qual o que não falta é dinheiro, elegeu quatro vereadores em 2016: Janaina Lima em São Paulo; Mateus Simões, em Belo Horizonte; Leandro Lyra no Rio; e Felipe Camozzato em Porto Alegre. “O Novo começa com certas reservas. Participou de eleições em poucas cidades (as quatro acima mais Curitiba), e elegeu vereadores em cidades importantes e difíceis. Em São Paulo, deu ênfase a jovens, abaixo da média de idade para candidaturas, e elegeu Janaína Lima, que não é propriamente uma empresária“, avalia o cientista político. Para ele, o Novo “cumpriu tarefa relativamente difícil, mas que não era significativamente ousada“.

A eleita pelo Novo em São Paulo é advogada, tem 32 anos, e era uma das líderes do movimento Vem pra Rua, que foi às ruas protestar contra Dilma Rousseff e pedir sua derrubada.

Pelo menos em relação ao recrutamento de seus quadros, nota Dantas, o Novo é diferente dos partidos tradicionais. “Eles arrebanham currículos, fazem entrevistas, tentam empregar uma lógica empresarial. O discurso do partido é de tentar governar com menos assessores e menos recursos públicos, não ter gabinetes assistencialistas, formar times de técnicos. Se esse discurso for praticado e bem comunicado pode crescer, não assustadoramente, mas entrar no rumo que gostaria de entrar.“

Do ponto de vista de suas ideias, o Partido Novo não tem nada de novo. A legenda é conhecida como “partido dos banqueiros“ e é ligada a movimentos direitistas como Estudantes pela Liberdade (EPL) e Movimento Brasil Livre (MBL). Seu presidente é o banqueiro João Dionísio Amoedo, que teve passagens “exitosas“ como executivo no Citibank e no Itaú BBA.

Amoedo criou o partido para, segundo ele, lutar por um Estado menor e menos intervencionista, pela participação maior dos indivíduos na sociedade, e contra direitos sociais e coletivos como os da CLT, políticas de cotas, Bolsa Família. “O governo deve privatizar as empresas estatais, devolvê-las ao mercado“, costuma dizer o presidente.

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