Fortaleza, eleições 2016

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A propaganda política anda morna sem capacidade de apaixonar e mobilizar os eleitores. Bons tempos aqueles dos comícios concorridos quando as principais linhas dos programas de governo eram discutidas e os candidatos apresentavam suas concepções de cidade abrindo um amplo espectro. E as carreatas saem às ruas sem emoção, sem envolvimento.

A atual campanha só aparece nos meios de comunicação numa proporção desigual com candidatos que mal conseguem falar o seu nome e o tempo disponível já está encerrado. Pior é a chatice dos depoimentos de pessoas que esbanjam elogios sem nenhuma paixão. Nas ruas, os que ganham uns trocados para ostentar bandeiras de candidatos parecem sempre desmotivados.

Realizam uma encomenda sem envolvimento pessoal. O interessante é o ideal de cidade apresentado por cada candidatura. Do que se vê e se escuta, fica aquela sensação de que a cidade encontrará o rumo certo e pode-se afirmar que, se tudo que está sendo prometido for implementado, os problemas de Fortaleza acabarão e o cidadão terá uma cidade perfeita. As propostas parecem sair das ‘Organizações Tabajara’, a famosa empresa dos bons tempos do humor do Casseta & Planeta, que tudo solucionava.

Em suas propagandas, os candidatos apresentam propostas de soluções que já foram veiculadas em campanhas anteriores. Dos vereadores, alguns têm falas incompreensíveis. Diante da campanha insossa, lembro-me das lições de Cristiana Storelli, arquiteta autora de um artigo intitulado “O decálogo da cidade perfeita”, em que ela enumera dez princípios e as consequências da aplicação deles no processo de construção, produção e gestão da cidade. Ela estabelece relação direta entre os princípios e as consequências, de forma que, no caso, o princípio da política liga-se à democracia, o da igualdade ao equilíbrio, o da participação a uma nova avaliação da cidade, e assim por diante. Ela vai discutindo itens como o urbanismo, os conhecimentos, o planejamento, a utopia e a ideia.

A cidade decorrente da adoção dos princípios cria oportunidades que conduzem a uma nova concepção e organização, em que a solidariedade e a tolerância são fundamentais. Não é uma lista solta desconectada do real. Ela vincula a abertura democrática dos gestores ao engajamento político, social e econômico dos cidadãos. Discute a sustentabilidade sob a ótica do compromisso e respeito com a história urbana, comprovando que a sociedade pode construir uma nova imagem pautada na harmonia.

Para isso, é fundamental a satisfação das necessidades de cada cidadão e da sociedade como um todo em busca da perfeição e da realização enquanto questão de vontade política.

A apresentação de uma Fortaleza perfeita é excelente e tem acontecido com frequência nas campanhas eleitorais. A decepção é grande. Há enorme distância entre a cidade das propagandas e a cidade real. O povo clama por participação. O fortalezense tem propostas para a cidade. Por que não tentar uma cidade melhor, real, não reduzida apenas a imagens e discursos?

José Borzacchiello da Silva – borza@secrel.com.br

Geógrafo, professor emérito da UFC

(O Povo Online)

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