Cuidado com os “bots”

Por Tom Trewinnard em 15/03/2016 na edição 894
Publicado originalmente no site First Draft News, 12/2/2016 sob o título “Source Verification: Beware of the Bots“. Tradução de Jo Amado

As pessoas interessadas em distorcer informações para favorecer objetivos pessoais ou institucionais estão usando recursos cada vez mais sofisticadas, o que obriga os jornalistas a serem também mais sofisticados na identificação da manipulação de notícias.

Checar suas fontes é fundamental para qualquer investigação online. Quando você encontra vídeos ou imagens irresistíveis, chegar ao “quem” as fez ou de “onde” vieram é essencial. E os Guias de Checagem Visual do First Draft News fornecem uma excelente visão de conjunto dos itens que devem ser levados em consideração quando se pretende checar uma fonte. Há guias especiais para checagem de fotos e para vídeos.

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Reprodução de uma página do guia de verificação de fotos suspeitas

O cenário ideal, evidentemente, é poder falar diretamente com uma fonte, se possível, pelo telefone ou pessoalmente. Mesmo assim, podem ocorrer erros, principalmente quando a fonte está fingindo ser alguma coisa ou alguém que não é. Muitas vezes, essas pessoas são apenas farsantes, mas há uma tendência crescente de casos de pessoas que usam identidade falsa para fins fraudulentos [sockpuppets]: identidades falsas online criadas para atrapalhar determinadas pautas políticas ou sociais.

No entanto, as fontes podem não responder quando você tenta falar com elas. Talvez estejam ocupadas, ou talvez não queiram falar com jornalistas. Outro motivo poderia ser que a sua fonte que a sua fonte não seja uma pessoa coisa nenhuma: muitos casos que acontecem em redes sociais são bots [softwares concebidos para simular ações humanas repetidas vezes de maneira padrão, da mesma forma que o faria um robô].

Sockpuppets e bots colocam alguns desafios interessantes para checagem, principalmente em regiões do mundo onde governos os usam para manipular redes sociais (e isso significa uma parte do mundo maior do que você poderia imaginar) e sabendo como localizá-los pode poupar tempo e esforços.

Localizando um bot

Expor um caso de um bot pode ser de uma facilidade trivial ou ilusoriamente difícil. Veja, por exemplo, estas duas contas do Twitter:

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No entanto, a segunda conta, cujo último tweet fala de um preso paquistanês que fugiu de uma prisão em Gidá, na Arábia Saudita, é um desafio mais importante. Um número razoavel de seguidores (embora poucos) , uma boa amostragem de tweets, uma foto da pessoa real no perfil, nomes de usuário e de visualização aparentemente corretos e um conjunto de conteúdos (incluindo foto e vídeo) numa linguagem que poderíamos esperar. Precisamos trabalhar um pouco mais.

Primeiramente, vamos checar a foto do perfil. Trata-se de uma imagem original? Tentemos fazer uma busca reversa das imagens :

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Uma bandeira vermelha que surge imediatamente sugere que a foto do perfil seja, na verdade, de um homem chamado Khalaf Al-Ali, um diplomata saudita assassinado em Bangladesh em 2012. Portanto, talvez este usuário tenha postado sua imagem como uma recordação do diplomata. Continuemos investigando.

O segundo passo é ver se conseguimos encontrar uma pessoa chamada Rahi Al-Msalkhe procurando no Google pelo seu nome no idioma árabe.

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Qual o objetivo dos bots?

Não há qualquer retorno senão a conta do Twitter que estamos investigando e outra bandeira vermelha. Talvez esta pessoa tenha posto um nome falso na conta? Não é tão incomum.

Como terceiro passo, examinemos com mais cuidado os tweets da conta. Parecem ser, em sua maioria, compartilhamento de links no idioma árabe com dois ou três tweets em inglês. Nada de extraordinário. Após uma breve busca, este tweet parece o mais pessoal e possivelmente dá uma localização:

 

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Tradução: “Qual é a melhor loja de chocolate em Gidá?????”

É uma boa pergunta, mas parece que ninguém respondeu. Vejamos se alguém mais fez a mesma pergunta no Twitter.

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Puxa vida! Parece que às 22:15 (horário da Costa Oeste dos Estados Unidos) do dia 14 de janeiro, cerca de 100 contas fizeram exatamente o mesmo tweet.

É difícil imaginar uma situação em que isso acontecesse na vida real e, se repetirmos a busca em dois outros tweets de @almsalker881, descobriremos que se trata de um padrão repetido. A esta altura, podemos dizer com segurança que, na melhor das hipóteses, esta conta está comprometida e que muito provavelmente se trata de um bot. Ao clicar em qualquer das contas que tenha feito tweets do conteúdo duplicado, obtemos resultados semelhantes.

Qual será o objetivo deste exército de bots? Desconhecendo quem está por trás dele, é difícil dizer. Mas algumas das maneiras que já vimos contas serem usadas por bots e sockpuppetsforam para mandar mensagens não desejadas pela internet e para caluniar ativistas, para apagarhashtags e criticar autoridades e para disseminar desinformação.

Consciência das possibilidades

Esses esforços por parte de Estados podem ser mais elaborados do que você imagina. Em 2015, o repórter Adrian Chen, do New York Times, publicou uma matéria fascinante com uma visão aprofundada de uma “fábrica de trolls” russa [um departamento aparentemente voltado para disseminar notícias e opiniões pró-Putin nas redes sociais]. Chen rastreia algumas campanhas de desinformação extremamente complexas que o levam de volta à fábrica de trolls. Num exemplo, autoridades e moradores de uma cidade no estado de Louisiana receberam mensagens com advertências sobre uma explosão numa fábrica química e a disseminação de vapores tóxicos. Pelo Twitter, dúzias de contas começaram a enviar mensagens sobre a explosão, citando jornalistas importantes com screengrabs [captura de tela] da CNN.com mostrando as notícias “em cima da hora”. Surgiram vídeos mostrando imagens semelhantes às do Estado Islâmico em que era reivindicada a responsabilidade pela explosão.

Rapidamente, apareceu uma página na Wikipedia descrevendo a explosão e fazendo o link entre os vídeos. Tudo isto era falso, inclusive clones que funcionavam como websites do noticiário local e divulgavam a matéria. Esse ataque de desinformação fez-se seguir por outros, também explorando medos públicos muito concretos, como o #EbolaInAtlanta and #shockingmurderinatlanta.

Embora seja improvável que encontremos campanhas de desinformação tão bem coordenadas em termos diários e constantes, é extremamente importante que os jornalistas fiquem atentos para as proporções em que a coleta de dados sociais pode ser manipulada e gozem de alguns truques e ferramentas que os ajudem a localizar os bots.

Uma ferramenta útil para localizar bots é a BotOrNot, criada pelo projeto Truthy. BotOrNot analisa uma série de características de uma conta para lhe dar uma avaliação sobre se a conta parece um bot, o que inclui a rede, o usuário, “amigos”, temporal, conteúdo e análise de sentimentos.

BotOrNot não é perfeito (acerta apenas em 31% dos casos de um bot selecionado), mas pode proporcionar percepções úteis sobre contas a que, de outra maneira, não teríamos fácil acesso.

A rede social está apenas saindo da infância e a internet, na qual ela vive, tem apenas 20 anos em termos de acesso público. Os atores políticos utilizarão todos os meios possíveis para disseminar suas mensagens e, portanto, é crucial que os jornalistas tenham consciência das possibilidades e as saibam identificar.

Verifique o site Sock puppets and spambots: How states manipulate social networks e outrasleituras e recursos sobre checagem.

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Tom Trewinnard é gerente de desenvolvimento administrativo no Meedan Labs

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