A Fortaleza da opulência e da miséria

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Fortaleza e seus contrastes – fotos de Fabiane de Paula

Com o título “Fortaleza: opulência e miséria”, eis artigo de José Borzacchiello, professor e geógrafo. Ele fala um pouco da evolução de uma cidade com muitos contrastes. Confira:

Fortaleza é uma cidade de contrastes e suas imagens produzem visões contraditórias entre seu potencial paisagístico e os retratos e narrativas da riqueza e da miséria reveladores da desigualdade e da injustiça social.

Fortaleza cresceu devastando tudo – dunas, rios, riachos, lagoas, mata original. Nas áreas desprezadas pela expansão urbana da cidade oficial, os pobres construíram seus nichos de abrigo precário com ausência total de infraestrutura.

No período áureo do cultivo do algodão no interior, no século XIX, a Cidade expandiu a malha urbana, reformou seu porto e implantou uma ferrovia, que avançava sertão adentro. A Capital exportadora do algodão ganhou serviços públicos modernos, alinhamento de ruas, praças ajardinadas, comércio variado. A ferrovia transformou a estrutura da Cidade, fragmentando-a. Da Estação João Felipe, o trem seguia pela avenida Carapinima alcançando a Parangaba em direção ao Interior. Num segundo momento, os trilhos foram transferidos e seu traçado ficou paralelo ao muro do Cemitério São João Batista e seguia pela antiga avenida José Bastos.

O fim do período áureo do algodão foi drástico para a economia e a forma da Cidade. As secas prolongadas provocaram o deslocamento de levas e levas de imigrantes pobres sem condições de se instalarem na cidade formal. As áreas localizadas além dos trilhos foram ocupadas dando origem aos bairros mais pobres e miseráveis. No período compreendido entre 1920 a 1940, houve forte incremento demográfico, com acentuado crescimento da pobreza urbana.

Abandonados na cidade e sem políticas públicas de acolhimento, dunas e várzeas alagáveis foram os locais possíveis de fixação para os fugitivos da seca, compreendendo a Barra do Ceará, passando pelo Pirambu, Arraial Moura Brasil, alcançando o Mucuripe e o Lagamar.

Consolidam-se os primeiros aglomerados de habitação precária da Capital. A palha abundante era usada nas paredes e cobertura. Aos poucos, toda a extensão da atual Beira Mar estava ocupada.

Os traços da Fortaleza contemporânea se configuram a partir da Segunda Guerra Mundial, quando a Cidade conhece várias melhorias. Enquanto a cidade formal crescia, os pobres afastados da planta oficial pouco incomodavam. Fortaleza estava longe de atender as demandas dos direitos sociais básicos. A democracia estava muito distante. À medida que a cidade migra para a Aldeota e Meireles, a malha urbana esgarçada barra com os pobres no caminho. Vistos como estorvos, as favelas são removidas, destruindo histórias de vida, laços de vizinhança, memórias. Há registros de comunidades que foram transferidas mais de uma vez.

Fortaleza descobre as amenidades do litoral, surgem os hotéis e edifícios de luxo. O comércio de qualidade elege a Aldeota. Nesse processo, os pobres se organizam, resistem e engrossam cada vez mais o enorme cordão periférico carente de atrativos e de infraestrutura. E assim caminha a cidade acirrando seus contrastes
e suas contradições.

*José Borzacchiello da Silva

borza@secrel.com.br
Geógrafo e professor emérito da UFC.

(Blog do Eliomar – O Povo Online)

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