Jacques Klein, cearense de Aracati com fama internacional

Nascido em Aracati, Jacques Klein é considerado um dos maiores pianistas do século XX

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Fortaleza. “Có-có-có-có-có-có-ró, có-có-có-có-có-có-ró/ O galo tem saudade da galinha carijó”. A jovem Jacqueline levou um tremendo susto quando ouviu a famosa marchinha de Lamartine Babo vinda da sala. Ao chegar, surpreendeu-se mais ainda ao ver que quem estava no piano era seu irmão, então com cinco anos e que mal alcançava os pedais do instrumento. Ele havia “pegado de ouvido” a marchinha que a irmã havia tocado pouco antes.

Pois o menino de olhos azuis, calças curtas e cachinhos louros, nascido na bucólica cidade de Aracati, se tornaria um dos maiores pianistas do século XX, digno de homenagens como o Troféu Sereia de Ouro, concedido pelo Sistema Verdes Mares, em 1981. No dia em que completa 80 anos do seu nascimento, nada mais justo do que descrever a trajetória e as marcas deixadas pelo pianista cearense Jacques Klein (1910-1982).

Lembranças

Aluno do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno (fundado pelo pai de Jacques Klein em 1938), Germano Lima do Vale lembra de uma das muitas visitas do pianista ao Ceará, quando veio fazer um recital no Theatro José de Alencar. “Nós, alunos, tínhamos aquela atitude de reverência em relação ao grande mestre e estávamos ansiosos pela apresentação. Até por isso a gente esperava que ele fosse tocar um peça bem difícil de Beethoven, que era sua especialidade. Ficamos um pouco desapontados quando ele tocou Villa-Lobos e umas valsas de Chopin”, recorda-se.
Apesar do pouco contato que teve com Jacques, que depois do recital foi tocar no Conservatório, Germano conta que a lembrança que ficou foi a de um homem atencioso, que procurava ouvir e tirar dúvidas dos estudantes. “Ele me pareceu uma pessoa muito serena, alegre. Apesar de ter saído do Ceará muito cedo e não ter dado aulas aqui, ele era uma grande referência para nós e certamente uma referência para o mundo”.

História

Jacques Klein nasceu em Aracati no dia 10 de julho de 1930. Segundo o livro “Jacques Klein”, de Agamenon Bezerra, apesar de ter se mudado da cidade ainda criança, o pianista sempre se apresentava nas entrevistas mundo afora como “Jacques Klein, from Aracati (de Aracati)”. Descendente de uma família de judeus da Alsácia, o avô, de quem herdou o nome, se estabeleceu em Aracati por volta de 1870, atuando no comércio de algodão.

O pai, Alberto Klein, era um admirador da música erudita e ajudou a fundar, em Fortaleza, o Cultura Artística e o já referido Conservatório. Depois do episódio da marchinha, o pai iniciou-o no piano com a professora Julieta Araripe. Em 1936, a família Klein se muda para Fortaleza e, três anos depois, para o Rio de Janeiro. Foi no Rio que o pianista desinteressou-se da música erudita e formou uma banda de jazz. Chegou a cogitar a carreira de diplomata e passou no vestibular de Direito da PUC do Rio de Janeiro. Mas, um dia, o rapaz ficou encantado com a trilha sonora do filme “Desencanto”. Resolveu estudar a música do filme, que não lhe saía da cabeça, e selou o seu destino: jogou fora toda a papelada do concurso para diplomata num ataque de fúria, dizendo para a mãe: “Quero ser pianista!”.

Depois de reiniciar os estudos nos Estados Unidos, seguiu para a Áustria, onde teve aulas com o professor Bruno Seidhoffer, na Academia de Música de Viena. Em 1953, inscreveu-se no Concurso Internacional de Execução Musical, o mais importante e difícil da época, a ponto de não conceder o primeiro lugar a ninguém desde 1948. O jejum foi quebrado exatamente por Jacques Klein, que conquistou o título por unanimidade.

Importantes orquestras

Trabalhou em algumas das mais importantes orquestras de seu tempo. Apesar da opção profissional pela música erudita, nunca deixou de lado seu amor pela música popular, gravando ao piano composições de nomes como Ary Barroso, Dorival Caymmi e Zequinha de Abreu.

De volta ao Brasil, dirigiu a Sala Cecília Meireles de 1971 até sua morte por câncer, em 1982. Recebeu, em vida, diversas homenagens de sua terra natal. A Universidade Federal do Ceará (UFC) concedeu-lhe o título de doutor “honoris causa”. Assim como José de Alencar, Jacques Klein foi um filho ausente, mas que nunca esqueceu sua terra natal.

Lembrança

“Apesar de não ter dado aulas aqui, era uma grande referência para os estudantes cearenses”
Germano Lima do Vale
Pianista

Karoline Viana
Repórter

(Diário do Nordeste)

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