CEO da TAP visa concessão do metrô de Fortaleza

Humberto Pedrosa, com 20 mil funcionários, é considerado um dos maiores empregadores de Portugal

Por Nelia Fontenele e Irna cavalvante, O Povo

Um empresário que não tem medo de desafios. Este é o perfil de Humberto Pedrosa, que desde os 20 anos está na linha de frente do grupo Barraqueiro, hoje, o maior grupo de transporte de passageiros da Península Ibérica. Há dois meses, juntou ao leque de atuação, que inclui empresas de transporte rodoviário, metroviário e ferroviário, também a aviação. Junto com David Neeleman, adquiriu, em junho de 2015, a TAP – empresa portuguesa que reunia à época dívidas de mais de um bilhão de euros. Mas continua de olho em novas empreitadas. E o mercado brasileiro está neste raio de ação. O empresário está de olho em tudo que possa aparecer em concessões nas áreas ferroviária e metroviária, inclusive o metrô de Fortaleza.

Isso porque, mesmo considerando que o Brasil vive um momento difícil para novos investimentos, ele vem prospectando novos negócios na área de transporte. Além de Manaus, onde já possui uma empresa de ônibus urbano, está acompanhando de perto as movimentações em torno de possíveis concessão e licitações na área de transporte.

 

Para entrar no mercado brasileiro, Pedrosa optou por buscar um parceiro com quem já tenha uma boa relação. O escolhido foi o empresário e ex-deputado Chiquinho Feitosa, cuja parceria já dura cinco anos.

 

Em entrevista ao O POVO, ele fala sobre os desafios de investir no setor do transporte e também sobre a TAP. O CEO da companhia afirma que a prioridade agora é renovar a frota, mas a expansão de rotas continua nos planos.

O POVO – A sociedade que o senhor tem no Brasil é basicamente em Manaus?

Humberto Pedrosa – A empresa que temos em Manaus é de linhas urbanas. É uma empresa com cem ônibus, mas a nossa intenção na criação da sociedade com Francisco Feitosa é para investimentos feitos no Brasil dentro da área de transportes. Nós temos experiência em trem. Somos a única empresa ibérica privada, que faz operação de trens e metrô. Somos os operadores de metrô do Porto, do metrô no sul de Lisboa, e de uma linha suburbana de trem, que se chama Fertagus.

OP – Em Fortaleza, o interesse seria nesta linha de trens?

Humberto – Fortaleza, e no Brasil, tudo que o que possa aparecer de concessões na área ferroviária e na metroviária, temos interesse porque temos experiência neste setor.

OP – Mas já tem alguma coisa mais concreta?

Humberto – Estamos esperando que saiam licitações para poder concorrer.

OP – E por que Fortaleza?

Humberto – O mercado de Fortaleza é interessante porque é a rota mais perto de Lisboa, em termos de transporte. Hoje Fortaleza-Lisboa são 6h30min de voo, isso é interessante. E, por outro lado, não queríamos estar sozinhos. Não conhecemos bem o País, as regras, a legislação e etc. Então, conheci o senhor Francisco Feitosa e achei que seria um bom parceiro. Estamos muito satisfeitos. Agora estamos aguardando oportunidades de licitações. Estamos esperando pelo metrô aqui de Fortaleza, se houver licitação e que possa ser operado por uma operadora privada.

OP – O senhor já viu alguma sinalização do Governo disso?

Humberto – Não. O governador anterior (Cid Gomes) visitou há dois ou três anos as operações de trem e metrô em Lisboa. Ele gostou muito e disse que estaria interessado em fazer esta licitação. Ou seja: que a operação fosse feita pelo setor privado. Mas depois não tivemos mais nenhuma indicação de interesse da parte do governador do Ceará. Passadas as eleições, o governador é outro. Eu vou me colocar à disposição do governador, se quiserem visitar as operações que nós fazemos em Portugal. Pode ser interessante.

OP – E a parte de transporte urbano, de ônibus, vocês também têm interesse em expandir?

Humberto – Tenho. Tudo na área de transporte nós temos interesse.

OP – Como avalia o mercado hoje para este tipo de investimento? O senhor considera o Brasil um país de risco ou um país interessante?

Humberto – Acho que no mercado brasileiro o investimento não está fácil. A rentabilidade baixou muito. É preciso confiança para investir. Por outro lado, a área do transporte, principalmente, no transporte urbano, tem sido muito difícil, porque é uma tarifa que pertence à Prefeitura definir. É uma tarifa política. Os custos sobem todo ano: salário, combustível, inflação, etc. E, muitas vezes, passa o ano e não há aumento tarifário e as empresas estão sofrendo. Eu acho que o Governo e as prefeituras têm que ter muita atenção. Não quero dizer que eu esteja desmotivado para investir. Estou motivado porque o transporte público é um bem necessário, é o que dá mobilidade às pessoas. O período é muito difícil, as empresas não estão tendo capacidade para investimento. Isto é ruim, mas será passageiro.

OP – Como o senhor vê Fortaleza em relação a Manaus?

Humberto – Eu vejo Fortaleza um pouco melhor. Houve agora um aumento tarifário e melhorou um pouco, mas a rentabilidade das empresas também é muito baixa.

OP – Qual a média de rentabilidade das empresas hoje?

Humberto – A rentabilidade das empresas, no ano passado, rondava uns 15%. Mas uma empresa de transporte é uma empresa de investimentos anuais intensivos. Tem que renovar a frota todos os anos e se não libertar fundos para fazer investimentos, a frota vai envelhecendo, os custos de manutenção aumentam e aí chega a um ponto que não dá para continuar.

OP – O senhor afirmou que a rentabilidade das empresas no Brasil é de 15%. E em Portugal?

Humberto – Em Portugal a rentabilidade é de aproximadamente 25%. As empresas de transportes têm que ter esta rentabilidade para o investimento intensivo. O preço dos ônibus está muito caro e para uma empresa manter uma idade média aceitável há necessidade de investir todos os anos.

OP – Esta seria a média ideal?

Humberto – Sim, seria o mínimo necessário para manter a empresa numa idade média aceitável, renovando sua frota e dando qualidade para o transporte.

OP – Como o senhor vê a frota hoje no Brasil?

Humberto – A frota está envelhecida. Mas o que é grave é que as empresas não têm capacidade para fazer mais investimentos.

OP– O que seria necessário para manter os investimentos?

Humberto – Há muito transporte aqui no Brasil que é gratuito, mas deveria ser uma responsabilidade dos governos. Na Europa, o preço dos transportes é diferenciado. Reformado (aposentado), pensionista, crianças, estudantes, etc, só pagam 25% da tarifa, mas a diferença é subsidiada pelo Governo. Há necessidade de priorizar mais o transporte de qualidade, mas é necessário que as empresas tenham rentabilidade para melhorar a frota. Tem que haver alguma atenção do Governo em criar estas condições. Cabe ao Estado a parte social, não cabe às empresas.

OP – Qual a média de lucro das empresas?

Humberto – Nas empresas de transporte, o lucro é bastante reduzido por causa da exigência de investimento. Alguns anos atrás, as empresas foram bastante rentáveis. Hoje não, porque a tarifa não é suficiente para fazer frente aos custos.

OP– O senhor assumiu recentemente a TAP. Quais são os projetos da companhia?

Humberto – Passam, em primeiro lugar, pela renovação da frota. A TAP tem hoje uma frota bastante envelhecida. E procurarmos novas rotas, novos mercados.

OP– O senhor tem projetos para ampliar rotas daqui de Fortaleza para Portugal?

Humberto – Fortaleza já tem um voo diário para Portugal e é uma boa rota, com bom movimento.

OP– Como o senhor analisa a disputa por um hub?

Humberto – Um hub tem que ser analisado. Nós estamos na TAP somente há dois meses. Por isso, estamos, neste momento, em fase de análise profunda; ver as rotas que são mais deficitárias que outras; fazendo levantamento de mercado; queremos, em junho, renovar frota de pequeno curso e de médio curso. Estamos apenas começando.

OP – Como é uma gestão compartilhada com o Estado? Como acontece em Portugal?

Humberto – A TAP privatizou 61% da TAP. Entretanto, mudou o Governo, e este novo quer que o Estado fique com a maioria do capital. Estamos negociando com o Governo e, seguramente, vamos chegar a um entendimento para um bom futuro da TAP.

OP – A TAP desativou algumas linhas em Portugal e, inclusive, rotas para Barcelona, Bruxelas, Milão e, aqui, desativou também uma linha de Manaus para Lisboa…

Humberto – Não podemos considerar bem uma desativação o que aconteceu em algumas linhas na Europa. Foram linhas que saíam da cidade do Porto, que não tinham um movimento suficiente e, na Europa, as companhias de bandeira têm tido muita dificuldade de concorrer e fazer face à low cost (empresas de baixo custo), que apresentam tarifas reduzidas. Por isso, há algumas linhas na Europa que vamos suspender no Porto. Mas, em Lisboa, continuamos com as mesmas rotas e, em alguns casos, vamos até aumentar. Em Manaus estamos analisando se vamos fazer ligação com a Azul. Vamos fazer Lisboa-Belém e, em Belém, liga para Manaus com a Azul. Aliás, hoje Manaus é direto Lisboa-Manaus, mas não é direto Manaus-Lisboa, tem parada em Belém. Todos os voos que são triangulares têm um custo enorme. O ideal é fazer com ligação à outra companhia, o que será feito com a Azul.

OP – Tem prazo para estas mudanças ocorrerem?

Humberto – O que temos mais próximo é o levantamento das linhas que dão mais prejuízos à companhia. Não queremos fechar linhas de jeito nenhum, não vamos fechar e pode ter situações que sejam passageiras.

OP – A Azul tem um parceiro chinês que é a HNA Group com 23,7% de participação. Existe a possibilidade de se criar rotas Brasil- Portugal-China?

Humberto – Existe uma grande possibilidade. Não tem nada concreto, mas temos uma boa equipe estudando tudo que é possível de expansão para TAP. O Brasil é um grande mercado.

OP– Qual o peso do mercado do Nordeste do Brasil?

Humberto – O mercado do Nordeste é bem interessante porque tem um clima muito bom e está muito perto da Europa. Um voo para Europa é de seis horas e meia a sete horas, no máximo. Se formos para o Rio de Janeiro, vamos falar em nove horas. Aliás, uma das razões da boa ocupação dos voos é a proximidade que existe.

 

OP – Tem previsão de expansão dos voos pra cá?

Humberto – Estamos a ver onde é que conseguimos crescer. Estamos estudando com os hotéis em Lisboa para que um brasileiro que queira ir à Europa, antes de ir a Paris, por exemplo, possa passar dois dias em Lisboa a custo zero.

(O Povo)

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