Por Luiz Claudio Tonchis

Atualmente, cada vez mais, temos que conviver e interagir com pessoas intolerantes, muitas vezes, intransigentes, com visões de mundo recortadas, parciais e ingênuas, construídas a partir de certa doutrinação. Refiro-me à negação da aquisição de conhecimento, a qual reduz o pensar e agir do indivíduo a uma cegueira ideológica, que atualmente afirma-se de forma estarrecedora, principalmente através das tecnologias digitais.

A cegueira ideológica significa a incapacidade do sujeito de organizar suas ideias, princípios e valores que reflitam uma determinada visão de mundo, visão esta que seja capaz de orientar suas condutas. Assim, a pessoa torna-se condicionada e limitada intelectualmente, comprometendo a qualidade de suas ideias, nas mais diversas formas e possibilidades de expressão.

Para que o diálogo se estabeleça é necessário o que chamamos de abertura ao pensamento do outro, sobretudo com respeito e alteridade. Tudo o que é dito exige uma conduta ética. O diálogo em si significa aceitar o risco de que seu ponto de vista não prevaleça, em relação ao que é essencial. Ao se relevar os conflitos de interesses e opiniões contrárias, sempre é possível chegarmos a um consenso, capaz de superar as particularidades individuais ou passionais, as idiossincrasias, e encontrarmos uma possível universalidade – um caminho para a verdade objetiva.

As pessoas “difíceis” são aquelas que têm seus pensamentos e ideais como verdades absolutas. Tais pessoas desconhecem a troca que ocorre no verdadeiro diálogo; nunca aceitam a ideia do outro. A sua interação é vertical, imposta, e quando o interlocutor faz qualquer argumentação ou manifestação contrária a pessoa se irrita com facilidade. É teimosa, inflexível e reacionária. Seu discurso é repetitivo e pobre. Por exemplo, uma pessoa que se atém a certos preceitos, mas nunca os questiona, e assim torna-se uma pessoa dura, não consegue enxergar o todo e as relações de forças que determinam uma determinada situação. Por isso, sua argumentação é sempre infeliz e só resta a ela impor-se pela força bruta.

Nos dias de hoje as redes sociais tornaram-se o principal palco das manifestações de intolerância. É muito fácil identificar esse tipo de conduta nas redes. Há muitas. As suas postagens são repetitivas, sempre postam o mesmo assunto de forma obsessiva. Esses indivíduos possuem uma atitude passional de sectarismo, de intolerância e de agressividade relativamente às pessoas que não comungam da mesma fé religiosa, da mesma convicção (ou ideologia) política ou que não defendem os mesmos valores. Por exemplo, no campo político, são muitas as manifestações de ódio e de intolerância, sempre permeadas de uma contundente e incisiva atitude depreciativa para com seus adversários.

É oportuno lembrar o pensamento do pensador iluminista Voltaire (1694-1778), que disse: “Posso não concordar com uma palavra que você disser, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las”. Isto, na realidade, tornou-se uma distante utopia. As manifestações, principalmente no campo político, são desrespeitosas, intolerantes, embasadas em um fanatismo político inaceitável. A crise política em voga não justifica tal tipo de comportamento estúpido.

Outro exemplo, que dou somente para ilustrar como se dá o fanatismo ideológico, entre muitos outros exemplos (e já adianto: não sou machista!), é o das pessoas que se dizem “feministas” (ou que defendem qualquer outro “-ismo”), mas que não têm nenhuma base intelectual sobre a ideologia feminista sequer, e preferem seguir um clichê pobre de androfobia, uma pura e simples aversão ou medo ao caráter do macho, aversão à figura paterna, o patriarca. Tiburi (2015), afirma que o feminismo “não é uma ideologia no sentido positivo – e a-crítico – de conjunto de ideias, muito menos é uma ideologia no sentido negativo de ‘falsa consciência’ que serviria para acobertar a disputa de poder entre homens e mulheres, quando buscar-se-ia uma supremacia de gênero – no caso o feminino contra o masculino – e uma mera inversão de jogo no sistema da dominação masculina. O feminismo não é uma inversão ideológica. Não é uma inversão do poder. Uma inversão pressuporia sua manutenção. Em outras palavras, o feminismo não é uma manutenção do poder patriarcal com roupagem nova ou invertida que se alcança por uma ideologia de puro oposicionismo”. 1

Ou seja, uma ideologia de afirmação, não pressupõe a negação, a oposição pura e simples. Ser feminista, então, não seria se opor ao homem, à figura do macho. Nada disso.

O que é pior, é que esse tipo de comportamento imbecilizado, esse “puro oposicionismo” sem base intelectual, não é uma exclusividade dos ignorantes que não frequentaram a escola ou que possuem pouca escolarização, mas de muitos ditos “cultos” e “inteligentes”.  São jornalistas, colunistas de revistas de grande tiragem, médicos, advogados, engenheiros, profissionais que, infelizmente, foram contaminados pelo fanatismo doentio e passaram a enxergar por um único viés. Por exemplo, jornalistas que incorporaram uma ideologia político-partidária irracional, infectando editoriais, blogs e outros meios de comunicação com a semente do ódio e pregando a intolerância. O indivíduo tornou-se cego e surdo. Tudo o que o seu desafeto faz, está errado. Tudo que aquele com quem ele simpatiza faz, mesmo estando errado, para o fanático, está correto. Refiro-me a homens e mulheres, sem distinção de gênero e orientação ou opção sexual, nem de idade, nem de situação socioeconômica.

É muito comum, também, encontrarmos pessoas que não sabem ouvir, amargas, negativistas, rancorosas, arrogantes e prepotentes. Para esses indivíduos, o outro não existe, pois se acham absolutos. Geralmente, esse tipo de pessoa considera-se superior aos seus semelhantes, muitas vezes movida pela ilusão de um pseudo-poder. Interagir ou conviver com pessoas com esse tipo de perfil humano é insuportável – ele aborrece e incomoda.

Para Hannah Arendt (1906-11975), “A pluralidade humana, condição básica da ação e do discurso, tem o duplo aspecto da igualdade e diferença. Se não fossem iguais, os homens seriam incapazes de compreender-se entre si e aos seus antepassados, ou de fazer planos para o futuro e prever as necessidades das gerações vindouras. Se não fossem diferentes, se cada ser humano não diferisse de todos os que existiram, existem ou virão a existir, os homens não precisariam do discurso ou da ação para se fazerem entender”. 2

Assim, a pluralidade, em um sentido ideológico ou político, corresponde à atitude de aceitação da diversidade de opiniões, atitudes ou posições diferentes e até mesmo divergentes, que no entanto se respeitam mutuamente. Agir de acordo com esses princípios é uma questão ética. Lidar com pessoas incapazes de compreender as divergências de ideais é sempre um grande desafio. São pessoas difíceis.

As pessoas difíceis estão mergulhadas na ignorância, por isso, não se reconhecem como alienadas, ficam “cegas”. Para elas, o alienado é sempre o outro. Por exemplo, se a pessoa tem uma afinidade com determinado grupo político, religioso ou crença em determinados “valores”, quem pensa diferente é considerado “burro”. Se é do PSDB, quem é do PT é considerado como limitado intelectualmente e vice-versa.

Os arrogantes podem ser pessoas extremamente irritantes, que têm o hábito de provocar e humilhar o outro, e embora possam não sentir prazer ao fazer isso, mesmo assim o fazem. Tratam quem pensa diferente como incompetente. Portanto, a melhor forma de lidar com pessoas difíceis é ignorá-las. Ignore-as, sempre que puder. Evite conversar, acessar blogs e perfis virtuais desse tipo de pessoa, para não se aborrecer. Se possível, evite tocar em assuntos polêmicos com o indivíduo, e caso insista, mude de assunto, fuja da discussão, sem medo de ser chamado de covarde.  Somente quando se sentir isolado, sem ter mais ninguém com quem possa dar vazão à sua paranoia, é que vai perceber que ele mesmo é um grande chato.

Luiz Claudio Tonchis é Educador e Gestor Escolar, trabalha na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, é bacharel e licenciado em Filosofia, com pós-graduação em Ética pela UNESP e em Gestão Escolar pela UNIARARAS. Atualmente é acadêmico em Pós-Graduação (MBA) pela Universidade Federal Fluminense. Escreve regularmente para blogs, jornais e revistas, contribuindo com artigos em que discute questões ligadas à Política, Educação e Filosofia.

Contato:  lctonchis@gmail.com

Referências

1.      Tiburi, M., “O que é feminismo?” http://revistacult.uol.com.br/home/2015/03/o-que-e-feminismo (acesso em 28/10/2015).

2.      Custódio, T.S., Oliveira J.L., “A questão da pluralidade no âmbito da aparência no pensamento político de Hannah Arendt. http://www.ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/existenciaearte/Edicoes/5_Edicao/a_questo_da_pluralidade_no_mbito_da_aparncia_no_pensamento_poltico_de_hannah_arendt_thamara_custdio.pdf (acesso em 28/10/2015).

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