É impressionante, mas trinta anos depois da redemocratização do país a resiliência antidemocrática continua a demonstrar forças. Em diversas áreas da Ecologia é costumaz observarmos que mesmo depois de longos períodos um sistema perturbado continua a guardar semelhança com a situação anterior.

Os fatos que se sucedem na atual conjuntura revelam traços dramáticos de desilusão que vai muito além da classe política. Certa vez escrevi que a medida que o tempo passa as forças retrógradas tendem a ficar mais intensas por saberem que a mudança para um novo patamar está próxima.

Esse novo patamar, no meu entendimento, seria a consolidação da Democracia por meio do respeito ao seu signo maior: as urnas. Contudo, as narrativas raivosas e o aval de brasileiros a abertura de processo de impedimento de Dilma Roussef mostra que minhas previsões, confesso muitas vezes contaminada por natural otimismo, estavam erradas.

Claro como o céu depois de intensa chuva, os atores artífices do golpe branco atuam com a complacência de quem os atura por representarem o cavalheiro destinado à matar o dragão, o inimigo a ser derrubado, representado pelas figuras de Dilma, Lula e o PT.

Não haverá qualquer sentimento de vitória caso as pretensões golpistas concretizem-se. O que haverá é a natural euforia característica da ainda grande desprezo e mau entendimento do povo brasileiro sobre o que é Democracia. Esse desprezo que guarda relação com outro tipo de desprezo característica tupiniquim: se não fui o primeiro, então não presta!

Como continuar acreditando no povo brasileiro sendo que este tem desprezo pela Democracia? Se ele, o povo, quando não contente, acha que é simplesmente trocar o comando técnico do time? O relógio democrático citado por Dilma em sua entrevista à Folha deveria estar no pulso de todos nós depois destes 30 anos, mas o que se vê é que tal relógio não faz sucesso entre muitos de nós: não gosto e pronto!

Há quem avalize qualquer tipo de coisa desde que isso represente derrota de Dilma. Esse brasileiro, esse médio brasileiro, é a triste percepção que a Democracia não é feita apenas das badaladas “instituições sólidas”.

A Democracia é feita por um povo que reconheça o valor de eleger seus representantes sem se descuidar da minoria. É reconhecer que um presidente, seja de esquerda, de direita ou que governa com os “bons”, terá a obrigação de ofício de buscar governar para todos sabendo que é impossível agradar a todos os gregos e a todos os troianos.

Dilma cometeu diversos erros como muitos outros ex-presidentes cometeram. E por isso merece o impedimento? Quer dizer que na ocasião de não agradar a todos qualquer presidente deverá ser destituído? É possível acreditar no descontentamento brasileiro para além do curto prazo? Afinal, sabemos que nossa natureza xiliquenta nos faz susceptíveis à variações de humor que tornam qualquer previsão catastrófica, até mesmo as mais respeitadas como as do Nassif, simplesmente FURADAS.

Basta que estaleiros voltem contratar e as construtoras voltem às suas atividades regulares para atender a nossa imensa demanda por infraestrutura que o brasileiro mudará seu humor, a ponto de se tornar tamponado àquelas pregações diárias que confirmam as palavras de Obama como potencial global: não é mesmo, Sardenberg e sua tese sobre influência de Lula sobre a crise grega?  Enfim, o Brasil é infelizmente refém do seu povo e do seu passado, que o torna muito difícil à experimentações democráticas  simples, como o respeitar do sufrágio universal.

Via http://jornalggn.com.br/blog/francy-lisboa/brasil-refem-do-seu-povo-e-do-seu-passado

Anúncios