Livre e confortável. É assim que Belchior Sousa, de 20 anos, estudante de Biblioteconomia, sente-se ao falar de sua conquista. Transexual, ele passou a usar o nome social – e não o de registro – na Universidade Federal do Ceará (UFC). O nome escolhido consta na lista de presença, sendo obrigado a ser utilizado por professores e estudantes na instituição.

“Eu só adotei o nome em 2014. Não sabia como proceder, então fui atrás de me informar. Sempre acompanho o portal da UFC e soube [da possibilidade de alteração]. Sei que poucas pessoas solicitaram, mas eu preenchi somente um termo e em uma semana já foi alterado. Foi bem rápido”, relata.

Mas Belchior ainda encara obstáculos. O nome de registro está em alguns locais da universidade, como biblioteca e restaurante universitário. Além disso, a carteirinha de estudante também chegou com o nome dado pelos pais.

Mesmo assim, Belchior considera que a mudança foi bem aceita, mesmo tendo causado estranheza. “Aqui, os alunos já me chamavam pelo sobrenome, então foi bem receptivo. Com os professores causou esse impacto, mas eles também souberam receber bem”, conta.
Acostumada com os preconceitos diários, Brunna considera que utilizar o nome é algo natural, já que é uma demanda necessária. “Fico horrorizado de pensar em que outras faculdades isso não aconteça. Há pouca procura, mas é porque o público é pequeno. Onde estão os transexuais? Eles não estão na faculdade. Muitos não terminam o ensino médio, nem o fundamental”, enfatiza.Brunna Queiroz, 25 anos, também solicitou o uso do nome social. Estudante do mesmo curso, ela já era acostumada a ser chamada dessa forma, porém fez questão de formalizar o nome desejado. Entretanto, algumas vezes ainda precisa corrigir a última letra do nome, para não ser confundido com Bruno. “Com professores e a galera foi bem natural. Mas ainda há alguns servidores que não entendem. Falta informação”, explica.

“Fico horrorizado de pensar em que outras faculdades isso não aconteça”. (Brunna Queiroz)

Ainda enfrentando preconceitos, eles consideram que nomes sociais foram bem aceitos entre colegas e professores (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)


Repercussão

Professor do curso de Biblioteconomia, Tadeu Feitosa é professor de Belchior e Brunna. Para ele, toda mudança é lenda e gradual, porém é preciso que acontece conforme tempo e situações.
Ele explica que alguns colegas docentes são mais “caretas” e “ortodoxos”. “Mas é uma questão de tempo”.

“Eu acho a coisa mais natural do mundo. A gente é o que constrói para si. Somos frutos da vontade e das nossas representações e o mundo tem que acompanhar. A universidade está de parabéns em permitir e oficializar que esse desejo seja explícito”, reflete.

O estudante de Cinema e Audiovisual Gustavo Mineiro é amigo de Brunna e acompanhou o processo de mudança. Para ele, não houve resistência de amigos e colegas, mas apenas uma adaptação ao fato de usar o nome social.

Entretanto não é o que acontece com quem trabalha na UFC. “A instituição, mesmo adotando o uso do nome social, não tem regulamentada uma comissão permanente de direitos humanos com trabalhos eficazes para questões diversas, como a questão da pessoa trans. Não trabalha de forma que as pessoas que estão nela tenham aceitação e compreensão do que isso de fato representa na vida das pessoas. Acontecem problemas por falta de conhecimento. A instituição não faz campanha conscientizadora. Só nome social não basta, precisa de um processo de conscientização e mudança de pensamento dentro da universidade”, pontua.

Nome social

Há mais de um ano, a UFC realizou uma reunião do Conselho Universitário (Consuni) sobre o tema. Foi decidido que, em 2013, travestis e transexuais podiam incluir nome social em registros funcionais e acadêmicos da universidade. A decisão persiste e ganha mais adeptos com o passar do tempo. O Tribuna do Ceará não conseguiu apurar com a assessoria de imprensa da UFC quantos estudantes estão se utilizando desse direito. Entretanto, no Jornal da UFC, constava em uma matéria que pelo menos seis estudantes solicitaram o uso do nome social.

O nome social é aquele pelo qual transgêneros se identificam e desejam ser reconhecidos e denominados pela sociedade. A resolução permite que esses cidadãos tenham o nome social registrado em documentos da UFC, exceto diplomas, declarações, certificados e atas de colação de grau de discentes, que deverão conter apenas o nome civil para o reconhecimento. Nas cerimônias de colação de grau, no entanto, a outorga será realizada considerando o nome social.

(Tribuna do Ceará)