SÃO PAULO e RIO – O Bradesco saiu na frente de Santander e Itaú-Unibanco na disputa pela operação do HSBC no Brasil, ao apresentar a melhor proposta pela subsidiária local do banco britânico. De acordo com uma fonte próxima do processo, a proposta do Bradesco teria ficado em torno de US$ 3,4 bilhões (R$ 10,5 bilhões), valor dentro da faixa de avaliação feita por analistas de mercado para a operação brasileira do HSBC, algo entre US$ 3,2 bilhões (R$ 9,9 bilhões) e US$ 4,6 bilhões (R$ 14,26 bilhões).

Além de incorporar R$ 167,7 bilhões em ativos do HSBC Brasil, elevando seus ativos totais para R$ 1,199 trilhão e se aproximando do R$ 1,208 trilhão do Itaú Unibanco, o Bradesco teria especial interesse na carteira de clientes de alta renda e na financeira Losango, que atua com empresas como a CVC, Hering, Colombo e Ricardo Eletro.

Há quatro anos o HSBC tenta vender a Losango. O Bradesco já esteve perto de arrematá-la, mas não houve acordo sobre o preço. Apesar da melhor oferta e de ter cogitado a disposição de pagar em dinheiro, sem as usuais trocas de ações, o Bradesco avança com os dois concorrentes para a segundo etapa da negociação, coordenada pelo banco Goldman Sachs.

REUNIÃO COM SINDICATOS

O HSBC vai deixar o Brasil e a Turquia. Nestes dois países, o banco vai cortar de seus quadros 25 mil funcionários, mas, no mundo, serão 50 mil. Há rumores de que o banco se desfaria de sua sede em Londres. Isso faz parte da estratégia para elevar a rentabilidade, um processo iniciado em 2011, pouco após Stuart Gulliver assumir a presidência do banco. A instituição reduziu sua presença de 87 para 73 países.

— O Brasil não passou no teste de Gulliver — resumiu um ex-executivo do banco.

O HSBC nunca alcançou uma escala confortável no Brasil e oscila entre o sexto e o sétimo lugares no ranking dos maiores bancos do país, a depender do critério. No ano passado, registrou prejuízo de R$ 549 milhões.

Na corrida pela filial brasileira do HSBC, que tem cerca de 840 agências e 370 mil clientes, o Santander continua no páreo, pois tem caixa e praticamente já encerrou o processo de incorporação do banco Real, comprado em 2007 do ABN Amro.

A confirmação da saída do HSBC do país provocou preocupação entre os seus mais de 21 mil empregados. No Centro do Rio, quatro agências foram fechadas por sindicalistas: só os caixas eletrônicos funcionaram. Em Curitiba, onde ficam quatro centro administrativos, os funcionários bloquearam as entradas em protesto contra o silêncio do banco — só quebrado à tarde, quando a direção do HSBC procurou o Sindicato dos Bancários em Curitiba e São Paulo, convocando uma reunião para hoje, às 17h30m, na capital paulista.

— De forma geral, o sentimento entre os bancários é de apreensão e desânimo, porque sabem que o que está em jogo são os seus empregos — diz Elias Jordão, presidente do Sindicato dos Bancários de Curitiba. — Se o comprador for o Bradesco, que não precisaria da estrutura de Curitiba, para nós seria o caos.

A capital paranaense abriga 8 mil funcionários do HSBC, sendo que quase 6 mil trabalham nos centros administrativos.

CONCENTRAÇÃO BANCÁRIA

Procurados, Bradesco e Santander não quiseram se pronunciar. O Itaú-Unibanco disse que sempre avalia oportunidades de crescimento.

Já o HSBC divulgou nota afirmando que “está em processo de venda, e não de encerramento de suas operações no país”.

Analistas esperam prejuízo para os clientes, pelo menos em um primeiro momento, já que haverá menos opções para tomar crédito, por exemplo.

— Infelizmente, esse mundo ideal da concorrência entre bancos não tem acontecido — afirma Luis Miguel Santacreu, analista da Austin Rating.

Já o economista da consultoria Lopes Filho & Associados João Augusto Salles pondera que pode haver ganho de eficiência:

— Num primeiro momento a concentração bancária será nociva, mas conforme o banco absorver completamente o HSBC, ele ganhará eficiência e poderá repassar isso.

NADA MUDA PARA CORRENTISTAS

Em uma agência do HSBC em Copacabana, o gerente de pessoas físicas Diego Lima diz que os pedidos de informação começaram há cerca de 20 dias, quando surgiram rumores sobre a venda. Mas ele diz que o ritmo continua normal e que não há ninguém encerrando conta.

Segundo órgãos de defesa do consumidor, nada muda para quem já tem conta no banco. A Associação de Consumidores Proteste afirma que não há motivo para pânico. Durante a transição, clientes continuarão a utilizar os diferentes canais de atendimento, cartões e demais produtos e serviços.

Mas o militar da reserva Gilmar Nunes, 49 anos, já fala em mudar de banco:

— Fiquei sabendo que ia acabar aqui no Brasil e em algum outro lugar. Vou ser sincero, pretendo tirar minha conta daqui — disse ele em uma agência no Centro do Rio.

por João Sorima Neto / Ronaldo D’Ercole / Lino Rodrigues / Fábio Teixeira – O Globo

Anúncios