Fui dormir febril e muito gripado. Até a meia-noite de ontem, um burburinho infernal sobre a saída de Paulo Barros da Mocidade. Irritado pelo incômodo da gripe, saí fora da rede social deixando um certo desaforo pra quem acha que comentarista de Carnaval é Sherlock Holmes.

Acordo 5:30 pra beber água (gripe requer hidratação!) e confirmo o impossível: Paulo Barros é, agora, o novo carnavalesco da Portela! Delírio?! Surto febril?! Não: verdade!

Não quero falar de Portela nem de carnavalesco sem começar por Alexandre Louzada. Um autêntico portelense, um gênio dessa arte, um caprichoso por excelência. Visitei o barracão da Portela este ano e vi esse amigo querido meio sem a alegria de trabalhar que sempre o caracterizou. Antes que saiam besteiras por aí, não era desentendimento nem destrato: ele não tinha o que reclamar da Portela. Entre conversas pessoais e confissões, saí de lá ciente (por mim mesmo, não por palavras dele) de que Louzada não faria Portela 2016.

E veio Paulo Barros.

E quem é Paulo Barros, afinal?

Já escrevi sobre isso há um ano e volto a escrever agora!

Paulo Barros é o único carnavalesco, desde Joãosinho Trinta e Fernando Pinto, que provoca, incomoda, fustiga, cruza fronteiras, faz instalação artística na Avenida, funde pop art com folclore brasileiro, arquitetura com design funcional, Steven Spielberg com Ismael Silva, NASA com LIESA, Disneylândia com Praça da Apoteose. Dizem que ele faz Circo de Soleil…falem baixo…ou o Circo nos tira esse gênio e enfraquece o nosso Carnaval! A verdade é uma só: todo ano o Carnaval só começa quando sai a notícia de qual será a escola de Paulo Barros. A partir dele, sabe-se o resto. Ele é o “carnavalesco da invejinha”: quem não o tem, desdenha de quem o tem! Sabe-se bem o porquê disso. Difícil admitir quando um gênio é genial!

Levamos tantos anos pra sair da mesmice, da caretice, do Carnaval marcial e regrado… até que nos veio Paulo Barros. Ele evoluiu muito em sua plástica, mas seu forte mesmo sempre foi conceber um Carnaval ousado e sem métricas.

“Quem ousa, vence!” – diz Marcos Falcon, vice-presidente e figura icônica dessa Portela fênix ressurreta das cinzas. E agora… Portela vem de Paulo Barros!

Não me surpreende que, após o belo e pouco entendido trabalho realizado na Mocidade, Paulo tenha sido contratado pela Portela. A escola precisa mesmo subverter suas ligas e amarras, firmar sua vocação desde Antonio Caetano para impor-se pela plástica original e inovadora.

Ano passado, eu escrevia um texto sobre o que achava de Paulo Barros na Mocidade. Cá estou eu falando sobre ele, em 2016, na Portela. Digo o de sempre: genial, ousado, inovador. Lá em Portela vai bater de frente com setores conservadores da escola, porque é um artista autoral que intervém em todos os setores para consolidar sua proposta de Carnaval. Talvez a Portela precise mesmo desse “sacode” pra ser campeã 22 vezes.

A chegada de Paulo Barros à Portela vem afirmar, ainda, uma outra verdade incontestável. A de que essa escola, hoje, resgatou o respeito e impôs-se como uma instituição com estrutura, organização e produtividade. Pense você: quem imaginaria um carnavalesco como Paulo Barros numa Portela de três anos atrás? Impossível. Sinal real de que os tempos são outros com Serginho Procópio e Marcos Falcon no comando.

Que veremos, pois? Velha Guarda enfileirada batendo palma em carro, Águia voando de verdade na avenida, baianas com retrofoguete nas saias, comissão de frente com armadura do Homem de Ferro. Sem essa de “medinho”, minha gente: Carnaval é isso aí!

E segue seu grande desafio: fazer, em outra escola, o que só na Tijuca conseguiu. Vejo ambos – Portela e Paulo Barros – cientes e preparados para esse desafio.

No mais, as coincidências históricas. Portela é uma escola de “Paulos”! Historicamente isso tem dado muito certo…

Facebook Helio Ricardo Rainho, via Sidney Rezende

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