O concreto avança sobre o verde por todas as regiões de Fortaleza através de empreendimentos imobiliários e obras de infraestrutura. As leis apontam para a necessidade de que tal perda seja compensada. No entanto, a velocidade da supressão de árvores e o fato de o plantio ser investimento a médio e longo prazo faz com que tais ações não condigam mitigar a perda do verde a altura. 

Em 2014, 62,5% do plantio de árvores previsto no Plano de Arborização de Fortaleza foi feito somente por um empreendimento como compensação ambiental. O Plano foi lançado em junho de 2014 e previa o plantio de oito mil árvores até o fim do ano. No entanto, só quatro mil foram plantadas, informou a titular da Secretaria de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma),Águeda Muniz.

Desse total, 2,5 mil faziam parte da compensatória ambiental da construção do shopping Riomar, no Papicu. Segundo Águeda, os plantios da gestão municipal deixaram de ocorrer a partir de setembro e seriam retomados neste início de ano. O motivo apontado para a interrupção foi a umidade do ar, que ficou abaixo do esperado para esses meses, o que impactaria na adaptação das plantas e, provavelmente, na necessidade de refazer o trabalho de plantio.

O principal impacto ambiental dos empreendimentos realizados atualmente em Fortaleza é a supressão de vegetação. Ações recentes que implicaram em compensatórias foram a implantação do binário da Aldeota, a construção do viaduto da Antônio Sales, a retirada de árvores de bosque do Exército pela Cagece e o shopping Riomar. Também está na lista o desmate de área do Cocó para a construção de conjunto habitacional no Dendê, mostrada pelo O POVO na semana passada. A compensação será com o plantio de 1,9 mil árvores.

Segundo Águeda, as compensatórias passaram a ser mais rigorosas a partir de 2014. Portaria da Seuma apontou que o número de árvores a serem plantadas por cada uma suprimida pode chegar a 15, a depender de especificidades como espécie e tamanho. Antes, eram duas plantadas para cada suprimida, informa.

A secretária também reitera que há exigência na compensatória de que as árvores plantadas sejam semiadultas e a manutenção seja realizada pelos empreendimentos. A Seuma, nesses casos, acompanha o plantio e o cuidado por meio de relatórios e visitas mensais. Caso alguma planta não se adapte e morra – como muitos relatam em avenidas da cidade como a Aldy Mentor – o empreendimento responsável é obrigado a plantar uma nova. 

Longo prazo

Segundo o engenheiro agrônomo Alexandre Krause, secretário da Regional Nordeste da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana, a compensação da retirada da vegetação só tem resultados a médio e longo prazo. 

“De cada 100 árvores plantadas em áreas públicas, 20 a 30 chegam à fase adulta”, ressaltou Alexandre, lembrando a experiência em Recife, onde atua. Segundo ele, a depredação da população e a falta de manutenção adequada (que inclui a carência de técnicos) são obstáculos.

Ações de conscientização, manutenção adequada das árvores plantadas, planejamento maior das obras, cumprimento real das leis que versam sobre proteção e compensações são imprescindíveis para que o verde não seja cada vez mais raro nas áreas urbanas já descaracterizadas.

(Samaisa dos Anjos, O Povo)

Anúncios