Quem ganha com uma coligação partidária que contempla duas dezenas de partidos? Com certeza, o Ceará e seu povo não ganham absolutamente nada com isso. Pelo contrário. Perdem. Sai caro. Custa muito dinheiro satisfazer a sanha por cargos e verbas da turba. Dinheiro esse que sai diretamente do bolso dos cidadãos que trabalham e produzem.

É enfadonho ler no noticiário que o novo governador do Ceará tem usado boa parte de seu tempo para conversar com a montanha de partidos que o apoiou nos dois turnos da disputa eleitoral. Dizem que Camilo Santana (PT) é um político que gosta de conversar. No que diz respeito a esse ponto, excesso de conversa não rende bons frutos.

Leio que os ministros Cid Gomes (Educação) e Gilberto Kassab (Cidades) se articulam para criar um novo partido. Sob as bênçãos de Dilma Rousseff. Nesse caso, o objetivo é político e estratégico: enfraquecer o PMDB atraindo deputados desse partido para a nova sigla, que se chamaria Partido Liberal. De quebra, atrair mandatos de outros partidos de oposição, enfraquecendo-a. A mesma artimanha funcionou muito bem quando o surgimento do PSD, criado por Kassab, cumpriu a meta de esvaziar ainda mais o DEM.

O mandato dos parlamentares pertence aos partidos, mas um parlamentar não perde o mandato se sair de um partido para assinar a criação de outro. Portanto, a regra que deveria servir para diminuir a bagunça está sendo usada para fazer mais bagunça. Portanto, mais um partido vem por aí.

Certamente, essa arquitetura política, que tem a cara do nosso Brasil brasileiro, provocará fortes desdobramentos no Ceará. Caso prossiga e se concretize, a articulação vai gerar em breve o novo maior partido do Ceará: o Partido Liberal. Sob o comando do grupo político de Cid e Ciro Gomes, será este o caminho de muitos. Não excluam da lista o prefeito Roberto Cláudio, o presidente da Câmara, Salmito Filho, deputados federais e prefeitos.

A articulação tem apoio da presidente Dilma. Certamente terá no Ceará o apoio de Camilo Santana. Caso a coisa assim se configure, até poderia haver um esforço local dos governistas para empurrar para dentro do novo PL uma boa parte dos mandatos destes partidecos da boquinha (grande). Pelo menos o governador teria a chance de, dali por diante, perder menos tempo com as conversas infrutíferas. Menos partidos com deputados, menos conversa. Não deixaria de ser um bom efeito colateral.

É óbvio e ululante que a força política do ex-governador Cid Gomes não ficará no tal do Pros. Esse partido só elegeu 11 deputados federais. Com isso, os candidatos a cargos majoritários da sigla mal teriam tempo para dizer seus nomes na propaganda eleitoral. Um novo partido, com um bom número de deputados federais e força política junto ao Planalto, é questão de sobrevivência para o cidismo. Ou cirismo, como queiram.

Leio o seguinte no O Globo: “Não foi à toa que Kassab e Cid ganharam dois dos mais influentes ministérios, cobiçados pelos partidos. A Educação, entregue a Cid, tem um dos maiores orçamentos da Esplanada e grande capilaridade pelo país… As Cidades, sob o comando de Kassab, têm relação direta com governos estaduais e mais de cinco mil prefeituras”. Fica fácil de entender, não?

A política é assim? É, mas as coisas poderiam ser mais edificantes e dignificantes. Nossos políticos costumam confundir esperteza com inteligência.

(Fábio Campos, O Povo)