O poeta Mário Gomes que conheci por intermédio do dramaturgo Guaracy Rodrigues não tem nada a ver com o Mário Gomes que vivia nas ruas de Fortaleza e faleceu no dia 31 de dezembro de 2014. Não adianta camuflar seu sofrimento como poeta andarilho, pois nessa última fase não escrevia mais nenhum verso. Apenas resmungava palavras a esmo. Há uma espécie de glamourização no discurso que afirma que ele optou pelas ruas, que sua poesia era reflexo do sofrimento dos sem-teto e que era pedestre e não pedinte. Tudo balela. O poeta foi mais uma vítima da falta de estrutura dos órgãos públicos no sentido de entender e acolher loucos, mendigos e artistas esquecidos. Ele era ferida viva pela indiferença de todos. 

O poeta Mário Gomes, que conheci pelos bares da Praia de Iracema e do Centro, era artista cheio de ideias fervilhantes, mas seus projetos não encontravam apoio dos órgãos de cultura do Estado. Era artista angustiado, desamparado, esquecido e levado na conta de folclore, quando não, na troça e na chacota.

O Mário Gomes, no tempo em que era poeta, vestia paletó de linho branco, calça branca e sapato preto. Destaque para a camisa do Flamengo, que vestia por baixo, os óculos Ray Ban e o inseparável charuto cubano. Esse era o poeta Mário Gomes, boêmio e cheio de charme, que deixava as moçoilas e as coroas apaixonadas. Adorava a praça do Ferreira, o bar do Clube dos Advogados, cerveja gelada, bom papo e versos declamados de Castro Alves, Álvaro de Azevedo, entre outros.

O poeta tinha passadas largas, firme e elegante. Era amigo dos poetas livres da praça da Ferreira e sonhava com a publicação de antologia de poetas marginais de Fortaleza. Sua memória era prodigiosa, seus causos sensuais, pornográficos e jocosos. Sua loucura eram as mulheres lindas e inacessíveis. E, atentem: como Mário Gomes, há muito artista na bela Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção vivendo às penúrias e a dois passos de ser jogado nas ruas.

Saraiva Júnior – Auditor fiscal do Trabalho

(O Povo)