Conforme a Prefeitura, são 12 pessoas vivendo na praça – Foto: Deyvison Teixeira

Entre mudas de plantas, uma flor azul de plástico sorri no jardim improvisado da casa. O endereço é a praça José de Alencar, quase vizinha a outras três ou quatro – porque depende do dia – residências de paredes de madeira. Joyce Bezerra vive lá há “um mês ou dois”, saída da casa de parentes onde tinha de “aguentar muita coisa”, até espancamentos. Costureira, artesã, diarista, catadora (a profissão que convier para garantir o sustento), ela é uma das 12 pessoas, de acordo com contagem do Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop), em situação de rua no local. O número, porém, não é exato, já que há uma variação diária.

 

Cláudio Narciso já conta uma década morando nas ruas. A tranquilidade da praça em frente ao principal teatro da Capital foi o que atraiu, conta. Ele abandonou a vida antiga, no Conjunto Esperança, quando se separou da mulher, e lá deixou dois filhos, com quem não tem mais contato. “Hoje eu não tenho dinheiro para comprar uma casa”, diz ele, que vive do que apura com as tatuagens de henna que faz. E, se for para pagar aluguel, “eu não quero”, resiste. O fogão de quatro bocas, sem uso, é um dos itens da casa agregados nesse tempo e trazidos aos poucos para o endereço.

 

Nem sempre, entretanto, os abrigos funcionam como residência, pontua Elias Figueiredo, coordenador da Unidade Central do Centro Pop. Muitas vezes, ele explica, os barracos montados servem como local “seguro” das vistas de quem passa pela praça para a utilização de drogas, especialmente o crack. É este, inclusive, um dos principais motivadores para que as pessoas escolham a rua, segundo ele. Além da dependência, há também o desemprego e a fragilidade nos vínculos familiares no somatório. “E, lá, eles vão se agrupando e se fortalecendo, porque encontraram pessoas do mesmo contexto”.

 

Felicidade

Vez por outra, dá para ser feliz, mesmo na rua. É o que Joyce garante. “A gente fica feliz por causa de um relacionamento amoroso ou de um presente que ganha. Fica feliz até por causa de um alimento que alguém fornece”, enumera. São esses momentos de felicidade que dão força para seguir, ela diz. Nesses tempos de chuva é que fica mais complicado, ela lamenta. Ou protege os pertences, ou se abriga. “Mas, a cada dia, a gente vai descobrindo uma forma de viver melhor”. O importante, ela diz, é dormir “escondidinha”.

 

Por mais que seja um bom endereço, a praça não dá as estruturas de que mais se precisa, vê Carlos. A casa serve para guardar o que ele recolheu na vida e também para dar ajuda aos amigos que precisam. Para dormir, tomar banho, ele vai a um motel na rua 24 de maio. Enquanto isso, fica tudo guardado com cadeado, por precaução. De lá, ele não quer sair. “Se eu for retirado, vou para outro terreno fazer outra casa”.

 

Serviço

Centro Pop

Endereços: rua Antônio Pompeu, 134, Centro

Avenida da Universidade, 3215, Benfica

Funcionamento: das 8h às 17 horas

 

Multimídia

Veja vídeo que mostra a situação da praça José de Alencar no link:

http://www.opovo.com.br/videos

(Mariana Freire, O Povo)