Não perder o “espírito francês”. Esse é a ordem do governo da França para tentar acalmar os ânimos e levantar a moral de uma sociedade assustada com o ataque terrorista sofrido pela revista Charlie Hebdo, nesta quarta-feira (7), em Paris. No atentado, 12 pessoas foram assassinadas, incluindo dois policiais. Na ocasião, a revista Charlie Hebdo foi atacada por dois homens vestidos com roupas prestas, encapuzados e armados com fuzis. Os terroristas gritavam “Allahu Akbar!” [Alá é o maior] e se vangloriavam por “vingar o profeta”. Cearenses que moram na capital francesa relatam o clima de medo que se instalou na cidade.

A cearense Mônica Gondim, que mora em Paris há oito meses, conta que estava em casa, estudando, quando soube do atentado por uma amiga, no Brasil. “Minha amiga me mandou uma mensagem perguntando se eu tava bem. Aí foi que eu soube. Não ouvi nada, porque eu moro longe”. Ela relata que o clima de medo pairou pela cidade. “Está todo mundo muito nervoso aqui, dá para escutar sirenes de policiais passando o tempo todo”, afirmou.

O estudante cearense Ítalo Neves buscou tranquilizar a família após o atentado em Paris (FOTO: Reprodução/Facebook)

Ítalo Neves, que também é cearense, comenta que a tensão é constante e as pessoas estão com medo de retaliações. “Como moro mais no centro não sinto muito tudo, mas nos banlieus [subúrbio] o negócio está mais tenso”. A irmã e a mãe entraram em contato com Ítalo após saberem da notícia. O jovem tentou manter os familiares tranquilos, sem medo de um atentado de maiores proporções.

Os dois contam que receberam instruções das autoridades sobre como agir. Ítalo recebeu uma mensagem da prefeitura de Paris, no celular, informando que estava proibido estacionar perto de escolas e prédios públicos. Na tentativa de se proteger, escolas estão verificando todas as pessoas que entram, checando identidades e abrindo bolsas.

Mônica afirmou que mesmo com o ataque terrorista, ainda se sente mais segura morando na França do que no Brasil. “Um ataque assim é muito assustador, mas se for parar pra pensar, 12 mortes é um dia ‘normal’ em Fortaleza. Então acho que mesmo com o medo, ainda me sinto mais segura aqui”, explica.

Todos sentimos pelo acontecido. Na verdade isso é algo que você sabe que existe mas pensa que nunca vai acontecer”. – Ítalo Neves

As autoridades tentam acalmar os franceses, mas afirmam que o atentado foi um ataque à liberdade francesa. “O que estão tentando passar para gente é cautela, mas estão tentando não acalmar o espírito francês. Eles ficam repetindo que foi um ataque à moral francesa de liberdade. Dizem para não baixar a cabeça”, conta Mônica.

A comunidade islã na França

A maior comunidade islâmica da Europa fica na França. De um total de 65 milhões de habitantes, cerca de cinco milhões são muçulmanos. O país proibiu recentemente o uso de véus que cobrem os rostos em público, usados pelas mulheres que seguem o islã.

Mônica relata que a comunidade muçulmana vem sofrendo pressão depois do atentado. “Minha vizinha passou ontem no meu quarto pedindo boinas e cachecóis emprestados para ela poder cobrir os cabelos sem parecer muçulmana e não sofrer nada por parte da sociedade que acaba culpando toda a comunidade islâmica”, afirmou.

O marroquino Ismail, que morou em Fortaleza há pouco menos de um ano, contou que também morou na França, mas que sofria muito preconceito e que, apesar da insegurança da capital cearense, preferia morar no Brasil do que na Europa. “Lá [na França], em todos os lugares que eu ía, as pessoas olhavam estranho, tinham medo de eu explodir alguma coisa. Aqui não, as pessoas me tratam normal”, relata.

Em uma edição de 2011, Charlie Hebdo trazia, na capa, sátira com profeta Maomé (FOTO: AFP)

Charlie Hebdo

Fundada em 1970, a revista Charlie Hebdo fez história no jornalismo francês. Suas críticas marcadas pelo sarcasmo não poupavam políticos da ultra-direita, policiais, banqueiros, celebridades e instituições religiosas. Neste último ponto, a revista se voltava a provocar principalmente o islamismo, com publicações que ridicularizavam Maomé, profeta islâmico.

Não foi a primeira vez que a revista sofreu ataques. Em novembro de 2011, uma bomba incendiária foi jogada na sede da empresa, mas sem nenhuma vítima. O ataque aconteceu horas antes de uma edição da revista que trazia uma charge de Maomé chegasse às bancas. Na publicação, o profeta aparecia com um balão que dizia “100 chicotadas se você não morrer de rir”.

(Tribuna do Ceará)