Iluminação a gás carbônico no Passeio Público, em foto do engenheiro britânico Francis Reginald Hull, o Mister Hull – REPRODUÇÃO: A HISTÓRIA DA ENERGIA NO CEARÁ

Durante a Belle Époque, duas companhias inglesas travaram batalhas publicitárias e judiciais pelo controle das luzes de Fortaleza. De um lado, a Ceará Gas Company, que fornecia iluminação a gás carbônico para casas, comércios e ruas da Cidade. Do outro, a Ceará Tramway Light and Power, que desde 1914 explorava o serviço de bondes e oferecia eletricidade para iluminação residencial. Há exatos 80 anos, a segunda venceu a “guerra” e as ruas de Fortaleza conheceram a luz elétrica.

 

Naquele tempo, o entorno do Passeio Público era uma espécie de cartão postal do Ceará, com equipamentos que indicavam o “progresso urbano”: estação ferroviária, cadeia pública e santa casa, por trás da qual ficava a usina da Ceará Gas, que reinava absoluta desde 1867. Mas, quando chegou a Fortaleza a energia elétrica doméstica da Ceará Light, que instalou sede no terceiro nível do Passeio Público, o sossego da concorrente acabou.

 

Duelo na Belle Époque

O jornalista Blanchard Girão escreve no prefácio do livro A História da Energia no Ceará que a competição entre as duas empresas é “marco inicial da publicidade em terra cearense”. Autor do livro, o pesquisador Ary Leite recolheu anúncios de jornais de 1915 que mostram que, enquanto a Ceará Gas atacava com: “Luz boa e barata é o gás incandescente, mais suave à vista e 50% mais economica que a luz eléctrica”, a Light respondia: “A melhor e mais economica luz é a eléctrica, e a única que lhe faz competência é a do sol”, conforme grafia da época.

 

Os anúncios eram direcionados ao consumidor residencial, pois contrato garantia à Ceará Gas explorar a iluminação pública até 1958. “Mas o golpe de 1930 mudou tudo. As diretrizes do governo de Getúlio Vargas ordenavam revisão de todos os contratos dos serviços públicos”, conta o pesquisador. A iluminação a gás já vinha sendo questionada. O contrato da Ceará Gas previa que a empresa implantasse inovações tecnológicas para a melhoria do serviço.

 

Porém, para instalar a energia elétrica nas ruas, a infraestrutura da Ceará Gas, baseada em tubos e combustores, precisaria ser completamente substituída, o que tornava inviável o cumprimento do contrato. Os adversários se valeram da cláusula, do novo governo e venceram. Em 30 de junho de 1934, decreto federal pôs fim à batalha e rescindiu o contrato da Ceará Gas. Em 8 de dezembro daquele ano, 80 anos atrás, Fortaleza passou a ter as ruas iluminadas pela energia da Ceará Light.

 

Com poucos clientes residenciais, a Ceará Gas encerrou as atividades em 1935. Mas os ingleses da Light só iluminaram as ruas fortalezenses por mais 12 anos. Depois da Segunda Guerra Mundial, a empresa enfrentou dificuldades operacionais e foi estatizada. Virou Serviluz, depois Conefor. Em 1971, juntou-se a outras três companhias cearenses originando a Coelce, que hoje não controla mais a iluminação pública, apenas fornece a energia.

 

Futuro de Led

Recentemente, empresas também brigaram pela iluminação pública de Fortaleza. Licitação lançada em 2011 foi objeto de disputas judiciais até este ano, quando novo processo foi concluído. Pelo contrato, a FM Rodrigues, empresa vencedora, controlará 186 mil pontos de luz e, em 3,6 mil deles, compromete-se a usar novas tecnologias como luminárias de led e telegestão (controle dos pontos de luz à distância).

Saiba mais:

Em edição de 2 de julho de 1934, O POVO publicou na íntegra o decreto federal que apagou a luz da Ceará Gas e abriu caminho para a luz elétrica nas ruas de Fortaleza. Veja fac-símile.

 

Para ler

– A história da Energia no Ceará. Ary Bezerra Leite. Ed. Demócrito Rocha, 1996;
– Coisas que o Tempo Levou. Raimundo de Menezes. Ed. Demócrito Rocha, 2006;
– Fortaleza Velha. João Nogueira. Ed. UFC, 1981.

(Vicente Neto, O Povo)

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