Reportagem no O POVO de ontem assinada pelo jornalista Rômulo Costa reapresenta um velho problema de Fortaleza: centenas de monturos de lixo que se acumulam em ruas e calçadas da Capital. Talvez seja a mais persistente e antiga praga urbana da cidade. Uma praga que há décadas perpassa incólume seguidas gestões de diferentes gestores. Uma praga símbolo da incapacidade política, administrativa e social de resolver um problema simples.

Uma cidade que se preza não aceita conviver com lixões em suas calçadas. Um povo que se preza não admite tamanho absurdo. Deveria ser intolerável. Não é. Os monturos, assim como a violência, já fazem parte de nossa “paisagem” urbana. Se tornaram “naturais”. Tanto que a cidade passou por uma dura campanha para prefeito há apenas dois anos e o tema nem sequer passou pelo discurso dos candidatos. Tanto que o tema não mobiliza os políticos.

Os monturos não são recolhidos? Claro que são. Praticamente todos os dias. Renascem logo após recolhidos. Custa os olhos da cara do contribuinte. Vejam o que disse o servidor público da Prefeitura responsável pelo setor e ouvido pela reportagem: “Essa limpeza fez foi mal acostumar as pessoas e, esse vício, cria um impacto financeiro”. A seguir, afirma o texto que essa coleta custou R$ 69,2 milhões em 2013.

Sim, os monturos estão, digamos, institucionalizados em Fortaleza. Os monturos são pontos conhecidos de descarte do lixo cotidiano, de podas, de restos de obras. São alimentados, em grande parte, por carroceiros. O sujeito resolve fazer uma reforma em casa. Em vez de contratar uma empresa credenciada para recolher os restos, paga R$ 20,00 a um carroceiro. Crescido o monturo, a empresa contratada pela Prefeitura vai lá e recolhe. É uma espécie de coleta domiciliar sem ser no domicílio. Na rua.

Mas, é simples acabar com isso? Sim, é. Em bairros pobres, ricos e remediados, os monturos nascem em calçadas destruídas e terrenos baldios. Solução: identificar os proprietários dos terrenos, obrigá-los a cercá-los corretamente e a construir uma calçada no padrão certo. Há lei para isso, mas é preciso endurecer as regras com multas altas para os insistentes e desobedientes.

Aumentar o IPTU e outros impostos dos terrenos urbanos desocupados e localizados em áreas adensadas é outra medida bem vinda. Isso faz com que seja contraproducente manter esses terrenos intactos como mero meio de especulação. Sendo caro mantê-los, a saída é a venda ou a execução de projetos imobiliários. Assim, a dinâmica da economia leva à boa urbanização, que não convive com monturos.

Todo técnico da área sabe de cor e salteado: as áreas sem calçada ou em que estão destruídas, geralmente em terrenos e imóveis mal cuidados, são as que recebem os monturos. Em paralelo, cabe fiscalizar com rigor a ação dos carroceiros cujo trabalho é vender serviços de descarte irregular. Cabe ainda o trabalho de identificação do cidadão ou empresa que produziu o lixo descartado de forma clandestina para as devidas aplicações de multas.

A Prefeitura sabe onde estão os monturos. Boa parte deles tem uma singela placa do município alertando para a infração configurada pelo descarte irregular. Ninguém liga. É clássico: a impunidade faz o crime proliferar. Sem castigo, o crime prossegue.

(Fábio Campos, O Povo)

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