Tita Tavares foto: BM/ehlas.com.br

Maria das Graças Tavares vem da da mãe que perdeu aos quatro anos de idade. O Brito Filha, que completa o nome, são por parte do pai, pescador da área do Titanzinho. Maria das Graças Tavares Brito Filha, ou Tita Tavares, é uma lenda no surf cearense e brasileiro, mesmo afastada da prática do esporte desde 2008. Surf, que entrou na sua vida aos 4 anos, para esquecer o trauma da morte da mãe ainda no período de resguardo de uma filha de seis meses. O início de forma precoce lhe deu fama no esporte e quase um título mundial nunca antes conquistado pelo Brasil. Hoje, parada, recuperando-se de problema físico, Tita enfrenta dificuldades, mas quis o destino que, mesmo fora das disputas, seja referência no Titanzinho, onde para os mais novos é a mãezona do suf.

 

O POVO – Como começou a sua relação com o surf?

Tita Tavares – Nasci e me criei no Titanzinho. Comecei a surfar aos cinco anos. Tinha uma escolinha aqui, próxima à praia, e quando batia o recreio eu corria para aquela pedra (aponta para o local onde há um enrocamento) ai ficava vendo a galera pegando as ondas. Era o Odalto de Castro, Picolé, e vários outros. Dai foi batendo uma vontade. Era o único esporte que existia por aqui naquele tempo.

OP – Havia mulheres praticando o surf à época?

Tita – Tinha aqui a primeira menina do Ceará. Aliás, ela não era do Titanzinho, era de Messejana, a Joinedile do Vale. Essa foi uma das primeiras surfistas do Ceará e que me incentivou. Ela e o meu irmão (João Carlos). Com seis anos tive a minha primeira tábua, que era de madeira. A gente ia nessas construções velhas, conseguia as janelas que não prestavam, as madeirites, e montava as tábuas para surfar.

OP – Você é de uma família com quantos irmãos?

Tita – Três homens e três mulheres. Perdi minha mãe com quatro anos, bateu uma ansiedade e tive que arranjar alguma coisa para esquecer. Meu pai era pescador, tinha que sair para o mar, deixava nós todos pequenos em casa. A gente não sabia nem fazer comida direito quando ele saia para o mar. Eu era a quinta dos filhos. Então tínhamos que nos virar. O dinheiro que deixava era muito pouco e eu e o meu irmão éramos mais de praia, de pescar lagosta, polvo, mariscos. Pescava e levava para casa para todo mundo comer até dar tempo do pai voltar do mar.

OP – Sua mãe morreu de quê?

Tita – Morreu de resguardo quebrado da minha irmã caçula. Sofreu uma queda, acho que foi trocar uma luz. Estaca operada, ficou adoentada e faleceu. A minha irmã caçula era de mama quando isso aconteceu. Ela tinha seis meses de nascida. E o meu pai teve que arranjar uma pessoa para cuidar dela, uma ama de leite, e teve que dar para minha tia. A gente se manteve com a força de Deus. O pai tendo que ir sempre para o mar. E o surf foi um meio que encontrei para enfrentar isso.

OP – Então sua entrada no surf foi meio que prematura.

Tita – Foi. Com quatro anos de idade eu perdi minha mãe. Com cinco iniciei. Meu irmão começou a me incentivar, a Joinedile (Hoje mora com um australiano no Havia e tem dois filhos) me levar para os campeonatozinhos, e antes de ir embora ele me disse: ‘Tita, eu estou indo morar no Havai, mas tu vai ter um futuro incrível’ e sempre apostou em mim. Não é a toa que quando fui bicampeã mundial ela estava lá e me ajudou muito.

OP – Você iniciou com cinco anos, mas a partir de quando começou a vislumbrar a possibilidade de seguir carreira no surf?

Tita – Eu fui participando das competições por aqui e aos 10 anos competi na primeira competição fora do Estado, no Rio de Janeiro.

OP – Como foi esse processo?

Tita – A Joinedile foi desde cedo quase uma mãe para mim no esporte, logo depois que perdi minha mãe biológica. Ela que me orientava, me pegava em casa, levava para os campeonatos, e fui conhecendo outros lugares por aqui. Para o Rio de Janeiro fui com a cara e a coragem, de ônibus, seis dias de viagem. Tinha um patrocínio, eles pagavam a estadia, mas sempre fui assim despachada. É para ir, eu vou. Cheguei no Rio de Janeiro naquela rodoviária, eu e Deus, não sabia nem para que lado eu ia. Eu e mais dois competidores cearenses. Cheguei doente, porque era muito apegada com meu pai. Depois da minha mãe só tinha ele mesmo, e não tinha o costume de sair de casa, chorava demais na viagem. Então foi uma etapa difícil da minha vida porque era muito apegada a meu pai. Fui chorando a viagem toda. E lá acabei ficando em segundo lugar. Dali foram surgindo as possibilidades de disputar novas etapas e dois anos depois estava disputando o mundial amador.

OP – Com 12 anos já estava disputando campeonatos internacionais?

Tita – Dois anos depois já ganhei o panamericano na Venezuela, em 94. Na sequência, fui vice-campeã mundial amadora, em Recife, e por aí fui até me tornar profissional.

OP – Naquela época era difícil conseguir patrocínio?

Tita – Quando entrei para o mundial tinha patrocínio. Naquela época as coisas eram bem mais fáceis, as portas eram abertas nas empresas daqui, do Ceará. Fiquei bastante nas marcas e depois passei uns cinco anos sem apoio. Ainda viajei só com o dinheiro das competições e agora estou há sete anos sem patrocínio e fora do circuito mundial.

OP – Você esteve perto de se tornar campeã mundial profissional, o que faltou para concretizar esse intento?

Tita – Eu bati na trave no WCT, mas me tiraram essa chance. Estava competindo na França, mas acabaram trocando minha bateria no dia da final e perdi. Ainda tinha uma disputa no Havai, mas naquela época praticamente deram o título para uma australiana e acabei ficando em quinto. Quer dizer, sem patrocínio, competindo com as melhores do mundo, o bicho acabou pegando nessa hora.

OP – O Brasil está prestes a ter um campeão mundial profissional, Gabriel Medida. Você acha que poderia ter chegado mais longe?

Tita – Eu acho que faltou para mim foi mais suporte, estrutura de apoio, na parte de preparação física, um nutricionista, um psicólogo. Em toda a minha carreira nunca tive quem resolvesse nada para mim. Eu pegava a passagem, o dinheiro, e me mandava. Eu fazia tudo só. O Medina, eu acompanhei, começaram a trabalhar com ele aos nove anos de idade. Se eu tivesse tido estrutura como a dele, com certeza estava brigando pelo mundial ou já tinha ganho, porque surf nunca faltou. Você imagine: eu sem estrutura, sem suporte, só com a cara e a coragem, ainda trazia os títulos. O Medina está com os resultados agora porque trabalharam com ele cedo. Merece o que está alcançando agora. Pelo esforço, pela equipe que está com ele.

OP – Você acha que se morasse no sul do país as coisas teriam sido mais fáceis?

Tita – Eu acho que sim. Estariam mais preocupados comigo, com a minha carreira, alimentação, tudo, enfim. Aqui nunca tive esse suporte profissional. Você vê que até hoje estou sem patrocínio e agora que estou fazendo um trabalho com um funcional trainer. Se hoje eu estou me sentindo bem melhor, imagine há alguns anos atrás.

OP – Mas não faltou profissionalismo também da sua parte?

Tita – Não. Faltou o que eu estou lhe dizendo. Esse lado do físico, do emocional, que deveria ter tido desde o começo, que nunca tive.

OP – Você deu uma parada também devido a um problema físico.

Tita – Eu já vinha sentido esse problema há uns 10 anos, porque tireóide é assim. Parece que ficou esperando acumular tudo para estourar de vez. Ai teve a perda do mundial, fiquei sem patrocínio, sem apoio. E tudo influenciou. Estive competindo todo esse tempo e tinha constantes febres, dores de garganta, mas tudo bem, bicho do mato, nunca tinha ido a médico.

OP – O que era o problema?

Tita – Tireóide. Comecei a perder resistência física, peso, não dormia direito, não comia. Tomava remédio por conta própria e competia até com febre. No último ano do super-surf, em 2008, passei mal na bateria, na Barra da Tijuca, e não entrei na água. Vim embora para Fortaleza e vi que tinha um caroço no pescoço. O meu irmão me disse para ir a um médico, fiz uns exames e acusou o problema. Desde então estou só me recuperando.

OP – Você está parada então desde 2008?

Tita – Parada. Sem ganhar dinheiro. A única coisa que ainda faço é dar aulas de surf, sem renda fixa.

OP – Você chegou a ganhar dinheiro quando estava no auge?

Tita – Ganhei, mas ajudei muita gente. Mas não foi tanto. Naquela época não tinha essa premiação toda que tem hoje. Na minha época o primeiro lugar no feminino era U$ 5 mil. Não pagava uma viagem para a Austrália. Então não ganhei esse dinheirão todo. O que ganhei eu gastei comigo mesmo nas competições. E o pouco que eu ganhava eu ajudei muita gente. Meu pai. Consegui comprar minha casa aqui no Titan, tenho meus dois terrenos na Taíba. Meu patrimônio é isso. Mas se você comparar a premiação de antigamente com o que é hoje, era uma micharia. Hoje o surf é muito mais valorizado.

OP – E como está se mantendo?

Tita – Tenho as aulas de surf que eu dou, as pessoas que eu ajudei, hoje me ajudam (surfistas e ex-surfistas).

OP – Pretende voltar a competir?

Tita – Pretendo. Ainda estou tendo acompanhamento médico. Mas a minha rotina não mudou em nada. E estou esperando que surjam apoios e patrocínios para que volte a competir.

OP – Mas tem buscado esses patrocínios?

Tita – Olhe, todo mundo sabe que estou sem patrocínio. Eu nem falo mais. Mas estou me preparando para voltar em 2015.

OP – Tita, você viajou o mundo e teve seu nome propagado no surf internacional. Mas aqui no Titanzinho, onde nasceu e sempre morou, como acha que as pessoas te veem?

Tita – As pessoas me tratam aqui como uma rainha. Tem a rainha Tita Tavares, o rei Fabinho Silva, e não mudou nada. Eles têm um grande respeito por mim.

OP – Que erros acha que cometeu na tua carreira?

Tita – Não acho que cometi erros, não. Ajudei muito as pessoas próximas a mim, elevei o nome do Estado lá fora. Só não tive foi uma base e um suporte para ser a melhor do mundo. Aqui no Titanzinho, por exemplo, tem muito surfista, e eles se espelham na gente, em mim, no Fabinho. E fomos nós que abrimos as portas. Agora eles têm que começar a se trabalhar cedo, para não chegar no estágio em que cheguei, hoje, por exemplo, sem patrocínio e praticamente esquecida pelas autoridades do esporte. Porque o problema que eu tive da tireóide não me atrapalha em nada.

OP – Você disse que após essas dificuldades mudou como pessoa. Mudou em que sentido?

Tita – Amadureci mais, vi que nem todo mundo que a gente quer a gente pode ajudar. Eu sempre ajudei a todos que procuravam, e quando eu mais precisei… Vejo que poderia ter feito bem mais pelo meu lado físico. Hoje estou ciente disso.

OP – Você entrou para o surf para lidar com o trauma da morte de sua mãe. Hoje você acha que superou esse trauma por meio do esporte?

Tita – Acho que consegui. Eu não tenho milhões na minha conta, mas sou feliz por ter conhecido parte do mundo, aprendido outras culturas. Eu nunca estudei inglês, francês, mas falo inglês e sei me virar com o que aprendi por aí. E tudo aprendi só, graças ao surf.

OP – A área do Titanzinho é considerada muito violenta. Você vive aqui e sabe disso. Em que sentido o surf poderia ser instrumento para resgatar esses jovens dessa vulnerabilidade?

Tita – Por isso que tem que ter esse estrutura que lhe falei. Mais projetos sociais, já existem alguns, mas o poder público precisa chegar mais perto para tirar os jovens da pedra maldita, o crack, que está dizimando as famílias. Eu sei o que é isso. Projetos sociais com incentivo a escolinhas de surf, de skate, poderiam ajudar no enfrentamento desse problema. Botar a cabeça desses jovens para funcionar. Virar a cabeça deles para o lado do esporte, envolvendo a família, os professores, os agentes sociais, que sabem o que acontece na favela. Do meio do ano para cá, eu já vou contando 12 mortes de jovens metidos com droga. Você tá em casa, de repente é o pa, pa, pa, e mais um jovem perde a vida. Nós estamos perdendo nossos jovens, as mães estão enlouquecendo.

OP – Os jovens daqui te procuram, mesmo os que não estão envolvidos com o esporte?

Tita – Procuram, procuram. Até os que estão envolvivos com droga, às vezes me pedem: ‘Tita, me dá um R$ 1”. Ai eu digo: ‘dinheiro eu não dou para droga. Mas se você quiser um biscoito, comida, uma banana, eu dou. Porque se eu lhe der dinheiro para droga eu estou lhe matando”. E eu na medida do possível tento orientar, dizendo que esse determinado lado não é o certo. Mas não posso fazer mais do que isso, porque o que eu tinha já dei.

OP – Desses 12 que morreram, você conhecia algum?

Tita – Tudinho. Foi tudo por droga. Para você ver. Vários jovens desses que estão surfando aqui deixaram as drogas, mas por falta de patrocínio vão acabar desistindo. Porque eles veem o lado da família: ‘vixe, não tem nada lá em casa hoje para comer. O meu pai está bebendo, a minha também’. Ai um jovem desse, sem nada para fazer, vai pensar o quê?

OP – Você já usou droga?

Tita – Nunca usei. Convivi e convivo com essa galera, a maioria aqui já usou, mas sempre fui uma pessoa que tive cuidado com relação a isso. Por pior situação que eu já tenha passado, sempre coloquei na cabeça que esse não era o caminho. Quando tive o problema da tireóide, as pessoas diziam que eu tava usando droga, eu fiquei muito magra. Ai tive que dizer qual era a real situação e que nem todo mundo é fraca de mente.

OP – Tita, pelo que eu vi aqui, os jovens tem certo respeito por ti. Não se acha meio mãezona desses jovens do Titanzinho?

Tita – Mas eles me chamam assim mesmo. “Oh mãe do surf, mãezona, a rainha. Chegou a mamãe do surf’. E eu aceito na boa, porque é uma maneira da gente se aproximar e eu passar um pouco da minha experiência para eles.

 

O POVO online

 

Veja trecho da entrevista

http://bit.ly/10941GD

(Luiz Henrique Campos, O Povo)

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