Em 24/7 – capitalismo tardio e os fins do sono, o teórico da arte moderna Jonathan Crary descreve um mundo apocalíptico em que o capital alargou-se de tal modo que a escala de tempo se flexibilizou e o espaço fragmentou-se. Segundo Crary, esse mundo é agora. Nele, vive-se o presente contínuo assombrado pelo imperativo de conexão e consumo irrefreáveis. O homem só encontra uma salvaguarda no sono, desacordado e destituído de funcionalidade para o sistema. Daí as investidas do capitalismo contra o sono, seja com fármacos e inibidores, seja estimulando modos de vida hiperprodutivos, seja apostando em novas tecnologias, como a que pretende criar o soldado perfeito (não dorme, não sente medo nem fome). O último bastião está ameaçado, diz Crary.

O avesso do niilismo: cartografias do esgotamento, do filósofo húngaro radicado no Brasil Peter Pál Pelbart, 58, dialoga indiretamente com as ideias de 24/7 (expressão que designa a adaptação das rotinas à ação dos mercados: 24 horas por dia e sete dias por semana). No próximo sábado, 1°/11, em Fortaleza, o também professor e tradutor profere conferência e lança a obra, a partir das 10 horas, no auditório do Centro Cultural do Banco do Nordeste.

 

Se em 24/7 o diagnóstico sobre a penetração do capital na esfera privada é sombrio, em O avesso do niilismo Pelbart mapeia pontos de inflexão, como as manifestações de junho de 2013, de modo a identificar, ali, o germe de uma mudança possível. Ou, nas próprias palavras do filósofo, “a capacidade de virar do avesso, de sacudir o consenso empoeirado, de encontrar as contrapotências, os contragolpes, os novos estratagemas e também as novas desordens que a suposta ordem totalizada encobria”.

 

Para quem vem exigindo das manifestações uma resposta imediata e atribuiu a eleição de um Congresso mais conservador aos insurgentes do ano passado, Pelbart pergunta: “Como traduzir em propostas as novas maneiras de exercer a potência, de fazer valer o desejo, de expressar a libido coletiva, de driblar as hierarquias, de redesenhar a lógica da cidade e sua segmentação, de fazer ruptura, dissenso?”

 

Cartografar o esgotamento, nomeando as injunções mais dramáticas e pontuando saídas, é, assim, uma medida urgente. Só a partir dela é que se identificam as potencialidades e se descortina uma “outra política da percepção” num tempo que inventou “modalidades de servidão inauditas”, como o hiperconsumo. É nesse ponto que a conversa entre Pelbart e Crary se estreita. Face mais visível do capital, o consumo se conecta com o que Pelbart chama de “teologia da prosperidade”, mantra segundo o qual todo homem e mulher orienta-se por aspirações que, caso atendidas, levam inevitavelmente ao esgotamento (dos recursos naturais, principalmente, mas também da política). As manifestações de junho de 2013 foram tanto uma resposta a essa teologia quanto ao esgotamento das formas de representação política.

 

Em artigo enviado ao O POVO (leia no portal O POVO Online), Pelbart escreve, referindo-se ao tema que funciona como gatilho do novo livro: “A pergunta que cabe, cada vez mais visceral, é: o que será que se esgotou? Talvez estejamos num momento assim, em que até mesmo um papa renuncia porque está esgotado, porque não tem mais forças, e o papa seguinte percebe que algo caducou na sua Igreja, que há coisas que não pegam mais, não colam, não se sustentam, se exauriram. Parece que a Igreja subitamente vai mais rápido que nosso Congresso.”

 

SERVIÇO

 

O avesso do niilismo: cartografias do esgotamento, de Peter Pál Pelbart (N-1 Edições)

Quando: próximo sábado, 1º/11, a partir das 10 horas, no auditório do Centro Cultural do Banco do Nordeste

Endereço: Rua Conde D’Eu, nº 560.

Multimídia

Leia artigo do filósofo, tradutor e professor Peter Pál Pelbart em http://www.opovo.com.br

Leia também entrevista com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro sobre o esgotamento do modelo neodesenvolvimentista, tema ao qual o livro de Peter Pál Pelbart se relaciona.

 

Acesse: http://migre.me/myF9v

 

(O Povo)

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