São Paulo – Consagrada vitoriosa numa das eleições mais tensas da história recente do país, a Dilma Rousseff que comandará o país entre 2015 e 2018 não é a mesma que subiu a rampa do Palácio do Planalto em 1º de janeiro de 2011. Não foi só o país que mudou ao longo dos últimos quatro anos: a ex-militante contra a ditadura, seguidora das ideias de Leonel Brizola e ministra da Casa Civil de Luiz Inácio Lula da Silva se deparou com situações inéditas e passou quatro anos entre novas e velhas dificuldades até chegar ao triunfo contra Aécio Neves. Primeira mulher a comandar o Executivo brasileiro, a petista é, agora, a primeira reeleita da história nacional.

Dilma Vana Rousseff nasceu em 14 de dezembro de 1947, na capital de Minas Gerais, Belo Horizonte. Filha de imigrante búlgaro (Pedro Rousseff, nome aportuguesado do original Pétar Russév) e de uma professora brasileira (Dilma Jane da Silva), iniciou sua militância política em 1964, enquanto estudava no Colégio Estadual Central, na capital mineira.

No mesmo ano, marcado pelo golpe contra João Goulart que traria uma ditadura que ficou no poder até 1985, Dilma começou a militar na organização de esquerda Política Operária (Polop), onde também era ativista seu namorado Cláudio Galeno, com quem se casou no civil em 1967. Já no curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais, passou a atuar em outra organização que combatia o regime, o Comando de Libertação Nacional (Colina).

Após ingressar em outra organização, a marxista-leninista VAR-Palmares, fusão dos grupos Colina e Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), foi presa no início de 1970 em São Paulo. Na prisão, foi torturada. Saiu do Presídio Tiradentes no final de 1972.

Em Porto Alegre, para onde se mudou em 1973, Dilma Rousseff voltou à vida política junto ao então companheiro, Carlos Araújo. Com ele, ajudou Leonel Brizola a fundar o Partido Democrático Trabalhista, em 1979. Foi secretária municipal da Fazenda de Porto Alegre (1985-1988) na gestão do pedetista Alceu Collares, e por duas vezes secretária de Minas, Energia e Comunicações do Rio Grande do Sul: 1993-1994 (no governo do mesmo Collares) e 1999-2002 (Olívio Dutra).

Com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva presidente da República, Dilma foi nomeada ministra de Minas e Energia. Com o desenvolvimento do chamado “escândalo do mensalão”, sua exploração midiática e a saída de cena do então ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, ela ocupou espaços e, para surpresa de muitos, foi indicada candidata à presidência da República e eleita a primeira mulher a ocupar o cargo no país. Teve 55,7 milhões de votos, 56,05% do eleitorado.

Governo

O governo de Dilma Rousseff foi marcado pela continuidade e ampliação dos programas sociais e obras de infraestrutura desenvolvidos a partir do governo Lula, como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o plano habitacional Minha Casa, Minha Vida e o Bolsa Família.

Uma das marcas mais importantes do governo Dilma foi o programa Mais Médicos, apresentado como uma das respostas às insatisfações trazidas à tona pelas manifestações de junho e julho de 2013. O principal argumento foi a falta de profissionais nas regiões mais pobres do Brasil – o país tinha 1,8 médico por mil habitantes, contra 3,2 da Argentina, 4 de Espanha e Portugal e 2,7 da Inglaterra, 2,7.

A relação do governo com o Congresso Nacional foi marcada por problemas com o maior partido da base, o PMDB. Sob o comando do líder da bancada na Câmara, o deputado Eduardo Cunha (RJ), uma ala rebelde do partido impôs problemas a Dilma e dificuldades na aprovação de projetos de interesse do Palácio do Planalto, em especial no início de 2014. As insatisfações foram atribuídas à eterna sede do PMDB por cargos, e ao mesmo tempo à dificuldade da presidenta na relação com políticos e partidos, no Legislativo, e mesmo com movimentos sociais.

Nesta intrincada relação, duas de suas principais vitórias foram a aprovação da Lei dos Royalties, sancionada em setembro de 2013, que destina 75% dos royalties do petróleo da camada pré-sal para a educação e 25% para a saúde, e o Marco Civil da Internet, sancionado em abril de 2014, considerado a Constituição da internet brasileira.

Após as manifestações de junho de 2013, a presidenta propôs um plebiscito por uma reforma política a ser feita por uma Assembleia Constituinte exclusiva, mas a ideia não prosperou no Parlamento. A popularidade de Dilma e de seu governo caiu e só voltou a se recuperar, segundo pesquisas, nas últimas semanas da campanha eleitoral.

A presidenta enfrenta uma crise financeira internacional ainda não superada. Os efeitos dos problemas econômicos globais, vividos dos Estados Unidos à Europa e China, foram explorados sistematicamente pela oposição e pelos veículos de imprensa tradicionais, que atribuíram à petista descontrole sobre a inflação e dificuldade em garantir o crescimento econômico do país.

As expectativas do segundo mandato da primeira mulher a presidir o país são de que as dificuldades impostas ao governo pela mídia, as manifestações de junho de 2013 e o apoio, à candidata petista, de amplos setores à esquerda e dos movimentos sociais no segundo turno da eleição de 2014, contra o tucano Aécio Neves, a levem a fazer uma gestão com mais diálogo e mais ousada quanto a reivindicações de entidades de representação da sociedade. No entanto, problemas com o Congresso Nacional, ainda mais conservador do que na legislatura que chega ao fim, vão continuar.

(Rede Brasil Atual)

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