Por Drawlio Joca – fotógrafo

Tenho estado particularmente perplexo com tudo que venho assistindo no atual cenário político brasileiro, bem como ao correspondente espetáculo midiático e suas graves consequências. Situarei ao longo desta reflexão, a quem se dará ao exercício da leitura, claramente qual é o meu posicionamento perante a nossa conjuntura. Neste sentido, digo de antemão aos possíveis discordantes que são bem-vindos, posto que não creio que nenhum posicionamento, meu ou vosso, principalmente quando relativo à questão tão cara a todos nós, por envolver o destino do nosso país, deva ser imutável, notadamente perante argumentações possivelmente válidas. Mas a quem não estiver disposto à reflexão crítica ou não tiver verdadeira preocupação com a dignidade do seu voto e com o país, então não perca seu precioso tempo. Portanto, quem vir ao debate é bem-vindo, mas venha fundamentado.

Primeiro, devo dizer que não fui, nem sou filiado a nenhum partido. Não devo nada a quaisquer políticos ou agremiações partidárias, nunca dei “tapinhas nas costas” de seu ninguém, nem nada que tenho veio às custas de qualquer troca espúria ou bajulação. Entendo partido como meio, não como fim. Guardo, inclusive, certa antipatia a quem faz de partido, religião, ao ponto de ser incapaz de qualquer reflexão.

Tenho a honra de afirmar, que todos os votos que dei e alguns trabalhos voluntários políticos que fiz ao longo da vida, foram movidos não por escolhas que me favoreceriam individualmente, profissionalmente, nem mesmo àquelas possivelmente mais oportunas à minha classe social. Sempre pautei minhas opções principalmente por uma preocupação que tive e tenho com os que considero menos favorecidos em um Brasil historicamente socialmente injusto e pelo que refleti serem as melhores possibilidades à coletividade e ao país. Nesse sentido, votei habitualmente em partidos da dita esquerda brasileira. Alguns destes partidos, em alguns momentos estiveram ou estão aliados a forças com as quais guardo discordância, o que fez meu voto oscilar entre algumas siglas, em busca daquela que considerei, a cada conjuntura, ser a melhor opção. Especificamente sobre isso, vale ressaltar que muito temos a refletir sobre a estrutura política e eleitoral brasileira que, não à toa, favorece à necessidade da formação de alianças demasiadamente heterogêneas e que cerca os pretensamente éticos com a ameaça perene da ingovernabilidade. Esta estrutura está firmemente e nada ingenuamente voltada a manutenção do status quo, esteja quem estiver no Poder Executivo. O poder, vale lembrar, é multifacetado e muito de sua estrutura é oculta e passa desapercebida a olhares menos avisados.

Mas, vamos ao cenário contemporâneo, que é o que agora importa. Impressiona-me muitíssimo que alguém com o mínimo de discernimento e senso crítico consiga crer que haja alguma decência nas palavras, atitudes e notadamente na trajetória de Aécio Neves. Neste ponto específico, não me refiro – ainda – a quaisquer méritos ideológicos, políticos ou partidários. Situo-me na anterioridade, na substância. Falo do mais essencial, da questão simplesmente humana. Pelo menos a mim, me basta olhar nos olhos, ouvir e sentir o tal indivíduo para bem sabê-lo.

Neste cenário de eleitores pró Aécio, há quem se situe, em suas escolhas, numa confusão ideológica relativamente compreensiva, resultante, em muitos casos, da grave crise ética que vivemos. É válido pensar que a chamada esquerda brasileira tem considerável parcela de responsabilidade nessa crise moral, notadamente por ter levantado bandeiras éticas que não foram cumpridas. Entretanto, nesse jogo de culpas e responsabilidades, muitos esquecem que todos nós também somos responsáveis pelo desmanche moral, em nossas atitudes cotidianas nada éticas, nada cidadãs, bem como nas escolhas políticas que fazemos, quando muitos de nós acabamos por dar sustentabilidade à estúpida estrutura política e eleitoral brasileira a que me referi.

Aos que pensam em destinar seus votos ao peessedebista por terem verdadeira preocupação ética e por estarem desencantados com os tão propagandeados escândalos próximos ao Governo, envolvendo parte dos quadros do Partido dos Trabalhadores e partidos aliados, eu pergunto: se vossa preocupação é realmente ética, o outro lado é por acaso ético, moral e digno? Para mim, estes são infinitamente piores neste aspecto e extremamente mais profissionais nos malfazejos, com o agravante que suas corrupções não permanecem na mídia, nem são objetos da devida Justiça, posto que toda a estrutura dominante sempre os favoreceu e os favorece. A estrutura de poder, que os manteve e mantém, permaneceu suficientemente sólida e atuante em governos a e b. O poder lava a mão do poder e sua teia é consideravelmente complexa e subterrânea.

Então devemos perdoar uma corrupção em outra e deixar tudo como está? Obviamente que não, mas não é retrocedendo ao pior dos mundos que iremos de fato avançar nesse sentido, mas exercendo todo um conjunto de reflexões, pressões e práticas políticas que podem verdadeiramente inferir em nossa podre estrutura.

Mas, voltando aos perfis dos sufragistas aecianos. Há aqueles que movem seus votos e seus discursos por puro revanchismo, ressentimentos, questões pessoais, ódios particulares, dores de cotovelo partidárias, conflitos ideológicos e outras pequenezas que são das mais lamentáveis e profundamente danosas aos processos que ora se encaminham. Digo apenas a estes, que os posicionamentos, por exemplo, de Marina Silva, carregados da mais profunda confusão e contradição ideológica, falam por si sobre o que é sua “nova política”. Quem conhece a trajetória dela, sabe o quão gravemente ela rasgou definitivamente sua própria história. Acho que a religião não fez bem a cabeça dessa senhora. Ou seja lá qual for o problema dela, ao resolver se alinhar àqueles que são, sem dúvida, os maiores corruptos desse país, além de suas ideologias que, em essência, historicamente privilegiam tão somente às suas próprias classes, em contraposição e dano à coletividade; e mais: sua lastimável e intrínseca lógica do acumular em excesso, do ter, em detrimento ao ser.

Outros votantes azuis, por sua vez, até ditos intelectuais, cultos e bem instruídos, ou perderam mesmo a capacidade de discernir, ou são vítimas ou partícipes, dos ingênuos àqueles nada inocentes, inteligentes, supostamente críticos e bem informados, do circo de mentiras que está – interessantemente para alguns e lamentavelmente para muitos – posto na atual conjuntura brasileira. Circo este constituído nos bastidores econômicos e políticos e multiplicado em um espetáculo midiático profundamente maniqueísta e astutamente travestido de jornalismo e informação supostamente isenta e idônea.

Se de um lado, até os tão inteligentes são cidadãos e eleitores surpreendentemente manipuláveis e suscetíveis à orquestração política e ao circo midiático. Se por outro, não lhes é possível, ao ouvir e olhar um ser humano, minimamente sabê-lo. Se suas intuições e vastos conhecimentos pouco ou nada lhes falam, talvez devessem revisitar então, atenta e consideravelmente, um conhecimento impressionantemente esquecido – e em momento tão crítico! – na imensa maioria das falas e debates extremamente rasos expostos: uma tal de história! Revê-la ou, para alguns, conhecê-la, quem sabe os fizesse melhor compreender estruturalmente o Brasil, bem como a conjuntura contemporânea.

Vê-se ainda, dentre os eleitores aecianos, os que são claramente defensores do neoliberalismo, que creem nos mercados livres, nacional e internacional, como gestores suficientes e dignos às questões humanas e que atuam em defesa unicamente dos interesses de suas classes historicamente dominantes. Há os que pensam seu voto como seu próprio umbigo. Há ainda os preconceituosos de toda espécie. Dizer o que a estes?

Particularmente declaro o meu voto a Dilma, mesmo com todas as corrupções circundantes, com todos os percalços e poréns, com toda a estrutura podre e viciada da política brasileira que ultrapassa partidos e ideologias, com todos os políticos sujos que infelizmente também a cercam na via da sustentação da governabilidade. Particularmente acredito na honestidade pessoal da Presidente e creio firmemente que, mesmo dentro da contradição, há aqui – e não acolá – uma verdadeira preocupação e políticas voltadas aos excluídos, além da considerável diferença ideológica e dos méritos e significativos avanços alcançados nos últimos anos, desde as políticas públicas até a política internacional, antes extremamente subserviente e dependente. E digo mais, aqui usando a coloquialidade da força e identidade nordestinas, também vitimadas no atual cenário pelos maiores absurdos e mais horrendos preconceitos: este caba, tal de Aécio, é um senvergoin! E seu agrupamento político e seus partícipes, de éticos e virtuosos não têm absolutamente nada! E é a este e a seu segmento que muitos de vós pretendem entregar o país! Vós! Muitos cultos, representantes da intelligentsia local e nacional, estudados nas melhores Universidades Públicas brasileiras com o nosso dinheirinho público, o mesmíssimo do bolsa família e de outros programas sociais que a muitos de vós tanto incomoda.

“Ensinem a pescar, mas não deem o peixe”. Sei bem como é. Mas quando o peixinho público veio e vem fritinho às vossas mesas e fomentou, por exemplo, vossos conhecimentos e formação acadêmica, aí é digno! Mas para corrigir distorções históricas, não! (Opa! A tal história!) Em vosso favor, em proveito próprio e favorecimento de suas classes, o l’argent público foi e é muitíssimo bem-vindo hein senhores doutores?

Mas, o que em tudo mais me impressiona, é que muitos de vós, tão inteligentes, artistas, profissionais respeitados, jornalistas, formadores de opinião, doutores, sejam capazes de trair até mesmo, em muitos casos, às suas próprias trajetórias e ideais, ao apoiar uma candidatura que representa claramente o mais estruturado e egoísta poder econômico e político desse país, que desde sua origem e em toda sua história, formou e fomentou estruturas de dominação, de exploração e interessada manutenção da miséria, de constantes posturas históricas voltadas contra os direitos dos trabalhadores e minorias, de mentalidade, desde sua gênese, arraigadamente escravocrata. Uma candidatura e uma proposta de país tão espúria, atrelada a um segmento que historicamente fez por 500 anos e novamente fará, se vitorioso, qualquer escândalo contemporâneo parecer brincadeira de criança. E mais! Como anteriormente brevemente citei, com o agravante que para essa turma, ninguém se dá mal! Vamos lá! Todos sabemos muitíssimo bem como é que funciona. Fulanos políticos são amigos de sicranos juízes e desembargadores, que tomam escocês com beltranos detentores dos meios de comunicação, que dão abraços calorosos nos abastados empreiteiros, que cheiram pó com outros tantos fulanos políticos e assim segue o ciclo. E o circo! Creio que nessa fala, não descobri a roda. E todos protegem todos. E todos ocultam a podridão de todos. E ninguém vai preso não. Nem dá ou se dá, não permanece nos meios de comunicação. É aquela máxima antiga: aos inimigos a lei! E acrescento: a mídia!

O circo está inteligentemente armado e o espetáculo devidamente direcionado às astutas e ingênuas plateias! Façam suas apostas.

Eu estou com Dilma! Sem dúvida. E com orgulho.

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