Estou glosando artigo de Luís Nassif publicado no ABCD Maior algumas semanas atrás. Dizia ele que a situação do primeiro turno lembrava a de um matrimônio prolongado: a ou o consorte a gente conhece. É o caso de Dilma: a gente sabe as qualidades e os problemas. Mas, dizia ele, há quem fique sonhando com os namorados ou namoradas de antanho. Eles são sonho, não roncam, não têm manias mais etc. Dizia então: Marina (naquele momento),  é assim: um sonho a verificar. E a escolha seria então entre apostar no que se conhece ou na hipótese do sonho.

Bom, o sonho desandou. Marina tanto pulou de um lado para o outro que acabou pulando fora da disputa. Querendo agradar gregos e troianos, Malafaias e banqueiros, perdeu para Aécio, o galardão do antipetismo, que lhe tomara de início, depois da tragédia da morte de Eduardo Campos. Os votos que dele migraram para ela voltaram ao aprisco original, diante da possibilidade de que ela não mais vencesse Dilma no segundo turno.

Restou a realidade de Dilma: um projeto de longo prazo para o país, apoiado num papel pró-ativo do Estado e propulsor de políticas includentes, em todos os setores.

Problemas? Sim, problemas. Impulsionar, como já vem sendo feito, a reindustrialização do país, comprometida pela política de total “abertura dos portos” empreendida pelo PSDB nos anos FHC. Redimensionar políticas como a da reforma agrária, diante de um Congresso que lhe será mais hostil do que era. Redimensionar a iniciativa dos ministérios, dando-lhes mais autonomia. Equacionar a proposta de uma reforma política progressista, não regressiva, como querem os conservadores. E a reforma tributária? O debate será terrível, sem falar no campo das comunicações… E outros e outros.

Entretanto, em meio às dúvidas que a hipótese Dilma nos apresenta, podemos ter certeza quando às certezas que o pesadelo Aécio nos anuncia. O primeiro debate foi eloquente: entre as evasivas vieram as confirmações do pesadelo. Salário mínimo muito alto é um problema, bancos públicos devem se retrair, inclusive na manutenção das políticas sociais, o mercado deve ser a prima dona de tudo, do câmbio aos juros, da política financeira ao emprego ou desemprego. Cortes nos investimentos públicos à vista: onde? Nas políticas sociais, ora. Onde mais há para cortar?

O interessante é que este pesadelo está em curso aqui na Europa, de onde escrevo. Chama-se “política de austeridade”. Está prostrando há anos a capacidade de recuperação das economias europeias, depois da crise financeira de 2007/2008, que delapidou vários erários públicos no continente. Depois de muito tempo, como não poderia deixar de ser, a política recessiva trouxe a inundaçào às portas da fortaleza alemã.

Como a Europa ainda é a principal parceira econômica da Alemanha, a perda do poder aquisitivo (que é o que os magos do PSDB querem reimpor ao Brasil) individual e coletivo começou a manietar a indústria germânica. Menos pedidos, menos produção é igual a crescimento zero nos últimos meses. PIB em queda, de 1,7% (coisa que a mídia conservadora no Brasil qualificaria de “pífia”, se se tratasse do Brasil), para 1,2 ou 1,3% em 2014. Para a Zona do Euro, 0,8%, se tanto. E se a economia alemã de fato entrar em recessão, o resto do continente vai para a depressão.

Em suma, este é o pesadelo que Aécio, Armínio e companhia ilimitada querem importar de volta para o Brasil.

(Flávio Aguiar, Rede Brasil Atual)

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