Por Luiz Egypto em 23/09/2014 na edição 817

Quem já foi rei nunca perde a majestade. O clichê serve como uma luva (não se perca um segundo lugar-comum) para o megaempresário – falido, mas ainda na ativa – Eike Batista, que até o ano retrasado era tido pela revista Forbes como dono da oitava maior fortuna individual do mundo, algo como a bagatela de 34,5 bilhões de dólares.

Toda essa dinheirama desmilinguiu-se na esteira variados negócios tão pomposos como improdutivos, mas que fizeram a festa das editorias de Economia dos jornais brasileiros, sobretudo a partir do primeiro governo Lula, quando o “espírito animal” do empreendedor Eike revelou-se em toda a sua plenitude, vitaminado por uma cobertura sempre simpática da imprensa e por generosos créditos oficiais do BNDES e também da banca e de investidores privados.

A debacle consumou-se depois que a joia da coroa (novo chavão) do grupo liderado pela holding EBX, a empresa petrolífera OGX, não entregou o petróleo que havia prometido extrair de sua área de concessão na Bacia de Campos. As ações da petroleira foram para o ralo e o desastre provocou uma crise de credibilidade no mercado que levou de roldão as demais companhias do grupo, além de suscitar processos judiciais que imputaram ao empresário a acusação de manipular preços de ações negociadas em bolsa com base em informações privilegiadas (insider trading).

Em meados de 2012 a situação já era periclitante; no início de 2013, a vaca foi para o brejo. E malgrado a nova frase feita, o que em nada se confunde com qualquer clichê miserável é a proverbial capacidade de Eike Batista pautar a imprensa. Este é um atributo que ele mantém afiado, nos trinques, como nos bons e velhos tempos.

Olhar dos advogados

Depois de um ano e meio sem falar à imprensa (a exceção foi uma entrevista ao Wall Street Journal, em abril deste ano, tão logo começou a ser investigado pela Polícia Federal), Eike deu nova prova de seus talentos de pauteiro ao mobilizar, num mesmo dia (quarta-feira, 17/9), os quatro principais diários do país – O Globo, Folha de S.Paulo,Estado de S.Paulo e Valor Econômico – e a revista Veja para entrevistas em separado, em seu escritório na Praia do Flamengo, no Rio, e que foram publicadas com destaque nas edições do dia seguinte (Veja publicou seu relato no domingo, 21/9, na edição online). A sacada foi singela e eficiente: em vez de uma entrevista coletiva, conversas “customizadas” com cada um dos veículos. E deu certo.

O Globo destacou duas repórteres para cumprir a pauta. Como resultado, anunciou a entrevista com discrição em um quadro na primeira página (“Eike pós-arresto: De volta à classe média”) e sete linhas de chamada para o grande destaque de abertura do caderno de Economia. Chapéu: “No vermelho”. Título principal: “Recursos retidos”. Título da entrevista: “Eike Batista: ‘Botei do bolso. Levaram todo o meu patrimônio’” (ver aqui). No abre da matéria, as autoras anotaram que sua fonte “dispôs-se a 20 minutos de entrevista, com breve exposição prévia sobre seu otimismo e a ressalva dos advogados de que não ‘saberia responder muito bem’ às questões técnicas sobre a Justiça”. (Os advogados Sérgio Bermudes e Marcelo Carpenter acompanharam o périplo de seu cliente com os enviados das maiores publicações do país.) As repórteres do Globo também informaram que Eike…

“Não permitiu ser fotografado. Com mais cabelos brancos, continua exibindo vaidade com os negócios, apesar de ter inserido mea culpa no seu vocabulário. Na conversa que teve antes da entrevista, repetia frases de um roteiro entregue às repórteres com sua defesa. Entre as frases: ‘Nunca tive a intenção de ludibriar nenhum investidor’.”

Ao Globo, o empresário disse que “minha situação líquida de patrimônio hoje é de menos US$ 1 bilhão (US$ 1 bilhão negativo)” mas, ainda assim, reiterou sua profunda fé nos negócios ao afirmar que “esses projetos [os que ele concebeu] vão beneficiar o Brasil nos próximos 200 anos”. É pagar para ver.

O Valor Econômico enviou três repórteres para a conversa pautada pela fonte e foi o único entre os cinco veículos que optou por uma entrevista principal de texto corrido em vez do tradicional pingue-pongue. O jornal aproveitou o gancho da dívida bilionária (quem é rei…) e cravou na capa a manchete (a segunda em importância, naquela edição) “Eike tem ‘fortuna negativa’ de US$ 1 bi”, em três colunas, e 32 linhas de chamada para a reportagem de abertura do caderno Empresas (pág. B1), em matéria de página inteira: “Acuado pela Justiça, Eike se defende e diz que seus ativos são de credores”, com a sub-retranca “Tenho chance de recuperar patrimônio” (ver aqui). O trio de jornalistas informa, no lide, que “em pouco mais de meia hora de conversa em seu escritório, na zona sul do Rio, Eike fez sua autodefesa”; e não deixou de mencionar, no terceiro parágrafo do texto, uma bombástica afirmação do entrevistado: “Ouso dizer que essa [da EBX] vem a ser a maior reestruturação do mundo de um grupo de empresas. Não tem nada igual”. Nada a estranhar vindo de alguém tão audaz (que o digam os credores) quanto loquaz (com a amplificação sempre generosa da mídia). Anotaram os repórteres:

“A sala de Eike tem vista para a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar, mas desta vez ele não quis fotos. Vestido de camiseta azul escura, camisa social rosa e terno cinza com listras, com aspecto cansado e mais grisalho, admitiu que a crise afetou ‘muito’ o lado pessoal. ‘Mas sou um cara que sempre construí minhas coisas do zero’, frisou. […] No começo da entrevista, acompanhado pelo advogado Sérgio Bermudes, Eike leu nove tópicos alinhados em duas folhas sob o título: ‘Fatos’.”

Perguntas incômodas

O Estado de S.Paulo mandou duas repórteres para conversar com Eike. Na edição em que publicou o resultado do esforço de apuração produziu um destaque de primeira página em uma coluna, acima da dobra, com título em três linhas (“‘Lá fora sou admirado’, diz Eike Batista”) e dez linhas de chamada. Uma foto de Eike (de arquivo), com o título “Desabafo do ex-milionário”, encimava a capa do caderno Economia & Negócios, que na página B11 trombeteava um título de alto de página, em duas linhas: “Eike Batista, empresário – ‘Olha que tristeza: no Brasil tenho apanhado muito; lá fora sou admirado’” (ver aqui).

No lide, as duas jornalistas optaram por não mencionar quanto tempo dispuseram para conversar com sua fonte, e escreveram: “Em uma rápida entrevista em seu escritório no Flamengo, zona sul do Rio, Eike reclamou de só ter seus projetos de infraestrutura reconhecidos no exterior e admitiu que, se pudesse voltar ao passado, não tocaria tantas empresas ao mesmo tempo”. Embora tenha repetido o mantra do “1 bilhão de dólares em patrimônio negativo”, que as repórteres diligentemente anotaram, diferentemente da concorrência a dupla do Estadão tirou de Eike a informação de que o fundo soberano Mubadala, de Abu Dhabi, que colocou 2 bilhões de dólares na holding EBX, quando esta ainda respirava, é quem atualmente paga o “salário” do empresário em dificuldades. “Tenho acordo em que o Mubadala paga minha estrutura, para pagar minhas contas, e espero em cinco anos fazer acontecer a criação de valor [dos projetos] e voltar a ficar positivo”, disse o sempre otimista Eike, até para não perder a majestade. “Mas cumpri minhas obrigações e [é] isso que importa. Tenho orgulho de ter construído isso porque serve o Brasil.” Viva.

A Folha de S.Paulo foi mais econômica: mandou apenas uma repórter para conversar com a augusta fonte. Na edição em que publicou a reportagem, o jornal deu uma chamada na primeira página em três linhas, à esquerda, abaixo da dobra: “Para Eike, ‘voltar à classe média é um baque gigantesco’”. O destaque maior veio na página B3 do caderno Mercado: com direito a foto em cinco colunas (uma imagem de abril de 2012), o chapéu e o titulão “Entrevista / Eike Batista – Voltar à classe média é um baque gigantesco”, secundados da linha-fina “Empresário afirma que ainda deve US$ 1 bilhão, mas que suas empresas vão gerar valor e ajudá-lo a recuperar recursos” (ver aqui).

“Depois de mais um ano sem dar entrevistas, Eike, que parecia mais magro –porém sem sinais de abatimento e estava sorridente e amável, decidiu falar, 24 horas depois de a Justiça ter decretado o bloqueio de suas contas, nas quais havia R$ 117 milhões”, informou a repórter. “Como tenho dívida negociada com os credores no prazo de dez anos, estou trabalhando para que se crie mais valor e, se Deus quiser, em cinco ou dez anos, sobrará algo pra mim.” Façam suas apostas.

Fiel ao estilo Folha, uma pergunta direta a Eike: “O senhor tem medo de ser julgado e eventualmente preso?” Mas quem respondeu foi o advogado Sérgio Bermudes: “Isso foge do tema. Não há possibilidade de prisão no caso”. Registre-se que a repórter de Veja foi a que menos deu moleza para o entrevistado, sapecando-o de perguntas incômodas, mas necessárias, que provocaram mais de uma intervenção dos advogados (ver aqui).

Jantarzinho fofo

Não há informações sobre a ordem em ocorreram as entrevistas ao longo do dia. Também não se pôde determinar se os jornais e seus repórteres tinham ciência de que a fonte não estaria dando exclusividade para ninguém. A repórter de Veja, ao contrário dos seus colegas, informou sobre o combinado aos seus leitores. De toda forma, e a julgar pela perspicácia dos editores, é muito provável que todos soubessem do arranjo patrocinado pelo empresário e por seus advogados; caso contrário, teriam caído como patinhos em uma manobra de relações-públicas. Todos, especialmente os editores de Economia, sabem muito bem que o fenômeno da “profissionalização das fontes” é um dado de realidade, consolidado há pelo menos 40 anos. Faz parte do métier.

O que vale registrar é a aceitação da mesmice como parte do dia a dia da cobertura econômica, como se fosse a coisa mais natural do mundo – neste episódio a exceção, reitere-se, foi de Veja, que abriu o jogo. Com isso, outra vez os jornais demonstram que pouco se esforçam para se diferenciar uns dos outros e, assim, marcar pontos junto a seus leitores e obrigar a concorrência a buscar padrões mais elevados de qualidade jornalística. Se assim fosse, todos ganhariam: os veículos e o distinto público.

A operação de relações-públicas urdida no que sobrou do “Império X”, Eike Batista & advogados à frente, deu-se após o empresário ter virado réu na Justiça Federal como resultado de uma investigação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre a utilização de informações privilegiadas no mercado de ações. A ação de RP perpetrada na semana passada deve ter servido bem à sua estratégia de defesa.

Atrair os principais jornais e a maior revista do país para ouvir o que o empresário teria a dizer não deve ter sido tarefa tão difícil para a sua assessoria. No início novembro de 2013, quando o estado de quebradeira de seu império já era conhecido, Eike Batista também conseguiu mobilizar o melhor da imprensa brasileira para registrar um jantar que ele e sua namorada ofereciam a amigos no Mr. Lam, restaurante de sua propriedade, um templo da melhor cozinha chinesa localizado na Lagoa, no Rio. Ali não houve entrevista – “Não é o momento de falar”, desculpou-se na ocasião –, mas deixou-se fotografar à vontade. A imprensa aceitou o jogo, registrou o convescote, publicou as imagens, escreveu textos anódinos e vida continuou. Na mesmice de sempre.

(Observatório da Imprensa)

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