Da OperaMundi

Por Bruno Arpaia e Alberto Prunetti 

Geração de escritoras e escritores narra anos de violência e repressão através de seus pontos de vista

Era o dia dois de setembro de 2003 quando Néstor Kirchner, então há pouco eleito presidente da Argentina, promulgou a norma que anulava as leis do Punto Final e da Obediencia Debida, que garantiam impunidade aos militares golpistas e torturadores. Em março do ano seguinte, inaugurando o Museu da Memória que ele idealizou no edifício que abrigava a Esma, a Escola de Mecânica da Armada, onde milhares de pessoas argentinas foram torturadas e mortas, Kirchner declarou: “Como Presidente da Nação Argentina, venho pedir perdão por parte do Estado nacional pela vergonha de ter silenciado sobre tantas atrocidades durante vinte anos de democracia. Falemos claramente: não é rancor nem ódio a nos guiar e a me guiar, apenas a justiça e a luta contra a impunidade. Os responsáveis por esses eventos tenebrosos e macabros, por tantos campos de concentração como a Esma, têm só um nome: são assassinos repudiados pelo povo argentino.”

A partir daquele momento, sem mais ser obrigada a lutar para “existir”, uma geração de escritoras e escritores que tinha visto pessoas de suas famílias morrerem sob os golpes da repressão ou desaparecer no oceano Atlântico pôde começar a narrar os anos da violência e da ditadura através de seus pontos de vista. Militantes sobreviventes já tinham produzido ótimos livros, entre os quais obras-primas como “Recuerdo de la morte” (“Lembrança da morte”, em tradução livre), de Miguel Bonasso. Agora o testemunho da narrativa passava às pessoas que tinham vivido aqueles eventos não como protagonistas adultos, mas como crianças, como espectadores e vítimas, frequentemente inconscientes, da aniquilação de suas próprias famílias.

Aquela geração se pôs a acertar as contas com a memória através da literatura. A memória, pessoal e/ou coletiva, é um dos instrumentos principais de pessoas que narram em suas abordagens da realidade. Parece simples: minhas recordações são (deveriam ser) minha “verdadeira realidade”. No entanto, não é nada simples. Os mais recentes estudos sobre o funcionamento do cérebro humano confirmam esse fato, mas para romancistas a falibilidade da memória não é uma descoberta nova. Muitas já tinham descoberto há tempos que a memória não é um armário ou uma geladeira de que se retiram as recordações à medida que se precisa delas. A memória é complexa: não somente acumula, registra, estoca, arquiva… Ela elimina, reduz, corta, infla, estica, adiciona, agiganta, mistura, confunde. A memória fabula, narra. A memória inventa.

E isso é verdade também para a história pessoal recente. Assim confirmaram em outubro de 2013, em Buenos Aires, escritoras e escritores reunidos em um seminário organizado pelo Departamento Lectura Mundi da Universidade Nacional de San Martin, intitulado “Narrativas do real: histórias e memórias”. Laura Alcoba, Félix Bruzzone, Julián López, Mariana Eva Pérez, Raquel Robles, Ernesto Semán e Ángela Urondo contaram como, a partir de 2003, se sentiram livres para encarar as histórias de suas famílias sem mais constrangimentos e como, cada um a seu modo, a partir de suas próprias lembranças ou dos fiapos de memórias, elaboraram histórias que, mesmo quando parecem relatos pessoais ou autobiografia pura, conservam as características da ficção.

“Pequeños combatientes”, de Raquel Robles, por exemplo, é a história, contada em primeira pessoa, com uma voz fresca e adolescente, de uma garota de doze anos e seu irmão de oito, crescidos na clandestinidade e que vivem com os avós. Os irmãos estão convencidos de que os pais estão ainda a combater aquela “guerra” na qual também eles se sentem envolvidos: são, de fato, “pequenos combatentes”, que pouco a pouco se dão conta do desaparecimento dos próprios pais. O romance parece a simples narrativa da história real de Raquel Robles, que é engajada na luta de organizações pelos direitos humanos e é filha de desaparecidos da ditadura. A autora, no entanto, explicou que partiu de um grumo confuso e indistinto de lembranças da infância que depois desenvolveu de acordo com as regras da ficção, buscando a “voz” do romance na filha, que tem a mesma idade da protagonista.

Emblemático também o caso de Ángela Urondo. Em junho de 1976, Ángela tinha apenas onze meses quando o automóvel em que viajava com os pais, ambos militantes montoneros, foi parado e cravejado de balas por militares nos arredores de Mendoza. O pai, o escritor Paco Urondo, morreu no local. Alicia Raboy, a mãe, jornalista, correu com o bebê nos braços tentando se salvar, mas não conseguiu. Acabou na Esma e depois desaparecida. Ángela foi sequestrada pelos militares, entregue em um orfanato e depois à avó materna, que prometeu criá-la em comum acordo com a família Urondo. Porém, sem avisar à outra avó, decidiu dá-la em adoção à sobrinha, que a partir de então cortou os laços entre os Urondo e a menina. A pequena Ángela sabia que seus pais biológicos estavam mortos, mas acreditava que tinham falecido em um acidente de carro. A família adotiva não lhe disse nem ao menos que tinha um irmão e uma irmã, essa última também desaparecida. Ángela descobriu de fato quem é somente quando, aos dezenove anos, o irmão veio “resgatá-la”. Começou então a lutar para recuperar sua própria identidade, seu sobrenome, e iniciou uma causa de “desadoção” (seu próprio neologismo). “Era uma causa civil contra meus pais adotivos, com a qual solicitava à justiça a anulação da adoção. Geralmente, adoções são irreversíveis. Fiz algo fora da norma, mas era um direito meu.” Esse direito lhe foi reconhecido cerca de dois anos depois, quando ela finalmente pôde se chamar Ángela Urondo Raboy. No meio tempo, começou a escrever para contar sobre seu doloroso percurso de reconstrução da própria história pessoal, para tornar público um drama que não era só privado. “¿Quién te creés que sos?” (“Quem você pensa que eu sou?”) é o livro que resultou de todo o processo. Um livro não linear, construído como um quebra-cabeças, em que adquirem sentido até os sonhos recorrentes da autora adulta que, como ela vem a descobrir somente mais tarde, resgatam as cenas terríveis que ela viveu quando bebê.

Também dramático é o caso narrado por Victoria Donda em “Mi nombre es Victoria” (“Meu nome é Victoria”). A obra é menos literária, com um recorte memorialístico e autobiográfico. É a história da reapropriação do nome e da identidade de uma dos tantos hijos de desaparecidos. O elemento interessante é que ela permanece suspensa em uma terra de ninguém, entre duas famílias: não há o final feliz do retorno à família originária, com o acolhimento regado a lágrimas. Pelo contrário: na família de sangue ela encontra também o responsável pela denúncia e pelo desaparecimento dos próprios pais. A família, longe de ser um recanto de paz, é um lugar de conflitos políticos irreconciliáveis. E dramática também é a permanência na família de adoção: o tio da família de sangue era um repressor amigo do pai de adoção. Uma descoberta inquietante: “trata-se de uma pessoa que eu chamava de ‘tio’, que me foi apresentada como meu padrinho de batismo (…). Meu pseudo padrinho, Héctor Febrés, responsável pelo “setor quadro” da Esma, o setor das mulheres grávidas. O homem que me tirou dos braços de minha mãe. Meu sequestrador”, narra Victoria no livro.

O amor de Victoria pelos pais montoneros se desfaz frente à figura do tio Adolfo, irmão e traidor do pai de sangue, conhecido como “Geronimo” pelas pessoas que torturava. Victoria passa então a descrever o relacionamento conflituoso e angustiante dos avós paternos com o filho torturador, o senso de culpa… A família se quebra, como se quebra a sociedade argentina, mas de maneira talvez mais dramática. No fim, Victoria consegue recuperar um contato distante com os avós postiços e mantém um relacionamento com os pais adotivos, que respeitaram a escolha de sua militância política à esquerda, maturada antes de conhecer sua verdadeira história e identidade (quando ainda não era Victoria, mas Analía). Ela não sente necessidade de excluí-los da rede familiar, e sua relação com a irmã adotiva é melhor do que com a irmã de sangue, também criada em uma família conservadora, mas que não tem interesse em iluminar seu próprio passado.

Para Victoria, por fim, família é acima de tudo o grupo de militantes que permaneceu ao seu lado: os jovens dos Hijos, as Avós da Praça de Maio, e as figuras mais maduras no movimento, a quem atribui um papel paterno – aqueles que sente mais próximos ao percurso de luta dos pais desaparecidos. A militância é um modo para “aumentar a amplitude do termo ‘família’”, como escreve Victoria, além dos vínculos de sangue e de adoção.

E ao fim, uma surpresa: quase todas e todos esses escritores e escritoras reivindicam o “direito ao esquecimento”. Escrevem, talvez, para poder esquecer. Atenção: passar uma borracha sobre o que aconteceu está bem distante de suas intenções. Pelo contrário: só se pode esquecer algo que conhecemos e tornamos profundamente nosso. Agora as “últimas vítimas diretas da ditadura”, como algumas dessas pessoas se definem, não precisam mais dar seu testemunho. Agora, talvez, para essas pessoas seja finalmente hora de viver.