FOTO MERAMENTE ILUSTRATIVA

* Por Wolney Batista

Itaitinga conserva o clima de cidade pequena, mesmo localizada tão próxima de Fortaleza. A rotina pacata e a aparência interiorana começou a ser transformada no final da década de 1970, com a construção dos primeiros prédios penitenciários, às margens da BR- 116. Hoje, 46 anos depois, o complexo de segurança é formado por seis unidades, com 6.446 internos, de acordo com a Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado do Ceará (Sejus).

O número se torna ainda mais expressivo se comparado a população total do município, que é de 37.705, segundo o levantamento de 2013 do anuário estatístico do Ceará, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Estratégica Econômica do Ceará (Ipece). Os presos correspondem a um sexto de todos os moradores do local.

A aposentada Lucy Ramos mora no Riachão, mesmo bairro onde estão localizados os presídios. A distância entre a casa que vive com o marido e o muro do complexo é menor que 1 quilômetro. “Medo faz, mas a gente não pode tirar a casa para ir para outro lugar”, responde ela com um sorriso tímido.

Moradora da localidade desde o nascimento, ela viu sua família povoar as casas vizinhas. Os filhos deixaram a residência dos pais e construiram seus lares próximo. Mesmo destino tiveram seus irmãos nas décadas anteriores. “Se alguém quiser invadir aqui, dou só um grito que todo mundo chega”, brinca com a convivência de fugas dos presídios.

Dona Lucy cita o tempo passado, sem o grande complexo, com saudosismo. “Antes era bom demais. A gente dormia de janela aberta e sem grade”. Ela já se acostumou a dividir o bairro com os prédios da segurança pública. O medo não inquieta mais. O incômodo que sobrou está ligado à má fama que Itaitinga ganhou, segundo ela. “Nossa cidade devia ter um ponto de referência melhor. Sempre falo que moro depois do presídio”, confessa, enquanto deixa transparecer o carinho pela cidade.

BR-116 é a rota

A algumas ruas da casa de Dona Lucy, o homem que preferiu se identificar apenas como Adésio construiu uma pequena mercearia ao lado de sua residência, onde mora só. “Quando alguém bate aqui, já venho olhar meio desconfiado”, confessa. O medo, segundo ele, não tem ligação com o presídio, mas com os assaltantes locais. “Morar perto de banco, de loja, é perigoso do mesmo jeito”, argumenta.

Adésio chegou à cidade dois anos antes do complexo penitenciário, e explica com propriedade o destino dos internos após as fugas. “Quando eles fogem, não ficam por aqui, não. Eles sabem que se ficarem por perto vão ser presos logo. Eles vão logo para a BR para tomar um carro, ou moto”. O movimento de viaturas da Polícia no entorno é o motivo que afasta os fugitivos, completa ele.

A rota de fuga parece já ser conhecida da vizinhança. Um grupo de homens que jogava conversa fora em frente um templo religioso narra histórias parecidas. Eles informam nunca ter ouvido relato de invasão de casas no bairro. “Aqui é sossegado”, define o morador. Alem disso, em Itaitinga há apenas uma delegacia, sem nenhum preso atualmente, conforme a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Estado do Ceará (SSPDS).

Escolha por Itaitinga

A primeira das construções na cidade ocorreu em 1968. Foram inaugurados, na mesma data – 12 de setembro -, o Hospital Geral e o Instituto Psiquiátrico. Isso desencadeou a construção das outras unidades, segundo a Sejus. O complexo é formado pelo Instituto Presídio Professor Olavo Oliveira II (IPPOO II), com capacidade para 492 internos; Unidade Prisional Agente Luciano Andrade Lima (antiga CPPL I), que comporta 900; CPPLs II e III, que suportam 952 pessoas cada; e a maior delas, a CPPL IV, com instalações para 936.

(Tribuna do Ceará)

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