Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br

O blog Teoria dos Jogos — clique aqui  e acesse — levantou a bola. Pesquisa feita peloDatafolha — confira aqui  — no começo de junho apontou o Flamengo com 18% da preferência entre os torcedores brasileiros e o Corinthians com 14%. Estudo de 2012, ano das maiores conquistas da história corintiana, indicava empate mesmo, não apenas “técnico”, como é rotulado o resultado mais recente. Cada um teria 16%. Importante: a margem de erro é de dois pontos percentuais, para cima ou para baixo.

A Folha de S. Paulo, que encomenda tais pesquisas ao instituto, em 2012 deu tratamento editorial (abaixo) com ênfase no empate. Existiriam tantos corintianos quanto rubro-negros no território brasileiro. Curioso, pois, como destacamos neste blog na época — clique aqui e leia —, o mesmo Datafolha em 2009 apontava uma diferença de seis pontos pró-Flamengo: 19% a 13%. E então não havia margem de erro que os aproximasse.

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A matéria publicada pela Folha de S. Paulo em 15 de dezembro de 2012: crescimento corintiano
A matéria publicada pela Folha de S. Paulo em 15 de dezembro de 2012: “crescimento corintiano”

A pesquisa de 2012 também assustou ao apontar empate entre as torcidas de Fluminense e Portuguesa de Desportos, cada uma com 1% da preferência. Mais adiante você verá que isso também “mudou”. É difícil entender tamanha disparidade entre as duas maiores torcidas do país, afinal, pelos índices de 2009 seriam mais de 8 milhões de flamenguistas em relação aos corintianos. Como uma diferença bem maior que o dobro da população do Uruguai desapareceria em cerca de mil dias?

Flamenguistas se manifestaram nas redes sociais diante da “pesquisa secreta” que a versão impressa da Folha não destacou. Hoje, 1º de agosto, quase dois meses depois de serem ouvidas as pessoas entrevistadas, o site do Datafolha publicou algo a respeito — leia aqui . Em seguida a versão eletrônica do jornal fez o mesmo às 16h46 — clique aqui para ler. Os dois times, juntos, teriam um terço da torcida, foi o enfoque. O argumento é o de sempre, empate técnico devido à margem de erro.

REPRODUÇÃO

Página da pesquisa Datafolha com resumo de todos os estudos do Instituto de 2006 a 2014
Página da pesquisa Datafolha com resumo de todos os estudos do Instituto de 2006 a 2014

“Tecnicamente não há diferença significativa. As pesquisas têm a mesma metodologia, o mesmo questionário e a distribuição representativa do total da população brasileira. E em dezembro de 2012 os 16% para cada um refletiam a conquista da Libertadores pelo Corinthians e a então disputa do Mundial de Clubes”, disse ao blog Alessandro Janoni, diretor de opinião do Datafolha.

Ele acrescenta que a pesquisa de junho era só parte de um estudo sobre a Copa. “Geralmente analisamos tal dado para tentar entender esse cruzamento. Por exemplo, para saber se o Mano Menezes tinha aprovação é relevante entender quais os times dos torcedores que aprovavam, ou não, o trabalho do treinador”, explica Janoni. Fato é que todas essas pesquisas foram feitas com outras prioridades. A questão “qual seu time?” veio no meio de outras tantas, não era o foco central.

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As maiores torcidas segundo o Datafolha – junho/2014
Fora baianos, clubes do Nordeste não aparecem, como o Coritiba

Flamengo 18
Corinthians 14
São Paulo 8
Palmeiras 6
Vasco 5
Grêmio 4
Cruzeiro 3
Santos 3
Internacional 3
Atlético-MG 2
Fluminense 2
Botafogo 2
Bahia 1
Vitória 1
Atlético-PR 1
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Por isso, mesmo sabendo da seriedade dos institutos, não acredito totalmente, 100%, em nenhuma delas. Só teremos uma noção sobre qual o real tamanho de cada torcida se o IBGE acrescentar ao próximo Censo duas perguntas: “Você acompanha futebol, torce, de verdade, por um time?” Se a resposta for convicta e positiva, viria a segunda: “Qual o seu clube de coração?” E mesmo assim teremos distorções, claro.

Além do momento de cada clube influenciar resultados, as regiões pesquisadas mexem com o “placar final”. Digamos que o Datafolha faça a distribuição correta do ponto de vista técnico. A realidade mudará se, por exemplo, um número maior de pessoas for entrevistada em São Paulo e norte do Paraná, regiões dominadas por torcidas paulistas; ou Rio de Janeiro e parte do Sul de Minas, onde “mandam” os clubes cariocas.

O que é questionável nisso tudo? A opção editorial do jornal, com a pesquisa desfavorável para o Corinthians em relação à anterior não destacada por tanto tempo. Afinal, em 15 de dezembro de 2012 o título da matéria na página D2 do caderno de Esportes da Folha foi: “Tendência de crescimento de corintianos é mantida”. Mas se no estudo realizado em 2010 eram 14% e em 2012 os alvinegros passaram a 16% houve crescimento? Ou empate técnico pela variação de apenas dois pontos?

Afinal, o que é crescimento? Se a margem de erro for considerada, é preciso um clube abrir pelo menos cinco pontos percentuais sobre o que vem atrás para caracterizar a vantagem. Como o Flamengo em relação ao Corinthians pelo estudo do Datafolharealizado em 2009. Com os patrocínios dos clubes valendo muito, todo e qualquer resultado pesa. E a forma como são apresentados tem fundamental importância.

Reproduzo aqui trecho do post do blog Teoria dos Jogos cujo link está no primeiro parágrafo. Leia e reflita: “São Paulo e Palmeiras registraram em 2014 um ponto percentual a menos do que em 2012 (caindo, respectivamente, de 9% e 7% para 8% e 6%). Já o Fluminense marcou 2%, vendo a Portuguesa zerar“. Pela margem de erro, não podemos afirmar que existem mais são-paulinos do que palmeirenses, tampouco mais alviverdes do que vascaínos, cruzmaltinos do que gremistas, etc.

Se o resultado em junho fosse 18% alvinegros paulistas e 14% rubro-negros cariocas, o resultado já teria sido destacado na Folha de S. Paulo? Como? As duas torcidas com um terço da popularidade geral ou uma superando a outra? Faço a pergunta como assinante, leitor diário do jornal. Pois a diferença é grande entre o que lemos em 2012 e não achamos nas páginas em 2014. Provavelmente só saberemos na próxima pesquisa.

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