As aulas foram suspensas por um dia na Escola Municipal Novo Mundo Pioneiro II, no Parque São José, após Claudenilson Delanier, 22, ser morto em frente à unidade. Era fim de 2012 e ele fora atingido por três disparos. Um dos últimos óbitos de um ano que, quando comparado com 2002, apresentou aumento de 195% na taxa de homicídios juvenis em Fortaleza. Os dados constam no “Mapa da Violência 2014”, elaborado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos.

Em 2002, a capital cearense contabilizou 395 assassinatos de jovens. À época, isso representou uma taxa de homicídios de 59,9 para a faixa etária compreendida entre 15 e 29 anos. Onze anos depois, em 2012, as vítimas foram 1.294 (uma taxa de 176,6). A taxa é calculada considerando a proporção entre as mortes e a população daquele ano.

Pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV/UFC), o sociólogo Luiz Fábio Silva Paiva descarta a possibilidade de a razão do elevado índice de homicídios no Ceará ser o advento do crack. A droga é apontada pelo poder público como entrave para a contenção das mortes violentas. “Precisamos abandonar as respostas fáceis. Colocar a culpa nas drogas se tornou desculpa confortável que parece acomodar e oferecer uma resposta simplificadora de um problema que, no fundo, eles não demonstram competência para enfrentar.”

Para ele, o mundo atual colabora para os jovens acreditarem que a vidas não tem valor. “Milhares de jovens não encontram boas razões para estabelecer uma convivialidade não violenta. Precisamos reverter isso e atuar na educação moral não apenas com belas palavras, mas com ações que mudem de maneira significativa a vida de jovens que veem no crime e na resolução dos seus conflitos.”

As políticas devem ter metas de curto, médio e longo prazo. “Reverter a impunidade é um desafio importante e não enfrentado com a seriedade que merece pelos governos”, pontua Paiva.

Procurada pelo O POVO, a Secretaria Estadual da Segurança Pública e Defesa Social comentou o caso em nota oficial. A pasta cita “fatores múltiplos” como contribuintes para esse crescimento. São eles: “acesso à educação, trabalho, geração de renda, legislação protetiva, utilização de menores em crimes, desestrutura familiar, crescimento do consumo de drogas e a falta de conhecimento e experiência dos jovens.”

Para a SSPDS, o cenário só será revertido quando medidas igualmente múltiplas forem adotadas. “Envolvem, além das ações de policiamento preventivo e ostensivo, diversas áreas e atores, como investimentos na melhoria da educação oferecida, capacitação dos jovens, geração de emprego e renda, saneamento básico, iluminação, entre outros”. 

Saiba mais

O SIM, sistema de onde o Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos retirou as estatísticas para compor o “Mapa da Violência”, foi criado pelo Ministério da Saúde para regular os dados sobre mortalidade no Brasil. Ele reúne informações quantitativas e qualitativas sobre óbitos. É o SIM quem subsidia as diversas esferas de gestão da saúde do País. 

Pela Organização Mundial da Saúde, o SIM é tido como “de qualidade intermediária” – mesma avaliação da entidade às ferramentas da França, Itália, Bélgica, Alemanha, Dinamarca, Rússia, Holanda e Suíça.

(Bruno de Castro, O Povo)

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