SOBRE COPAS PERDIDAS E DESASTRES AÉREOS

Pessoas que conhecem aviação têm uma máxima em que acredito totalmente: “normalmente um desastre aéreo é causado por vários fatores, e não por um apenas”

Antes de falar do desastre que foi essa copa para o futebol brasileiro, quero lembrar de algumas copas perdidas, na minha opinião, por erros dos nossos técnicos e/ou da liderança do nosso futebol, na figura da famigerada CBF, há décadas nas mãos de gente suspeita de negócios desonestos, corrupção, e atitudes no mínimo exóticas, como a escalação de Dunga como técnico em 2010. Analisemos alguns desses erros, após a nossa conquista mais gloriosa, a conquista do tri-campeonato em 70, no México.

1 – 1974 – Zagalo não levou a maior estrela do futebol brasileiro na época, Zico, que já despontava como um dos nossos maiores craques de todos os tempos.

2 – 1978 – Coutinho – Deixou Falcão no Brasil, seguramente o melhor cabeça de área daquela geração.

3 – 1982 – Por “problemas extra-campo” (não eram “bons moços”), Telê Santana deixa no Brasil, Reinaldo, um gênio na área, e Mário Sérgio, jogador de rara habilidade e na época, o melhor ponta esquerda do Brasil.

4 – 1986 – Telê exclui Renato Gaúcho, por indisciplina, e perde Leandro, dois craquaços de bola que nos fizeram muita falta.

5 – 2010 – Dunga deixa Neymar e Ganso no Brasil, simplesmente os maiores jogadores brasileiros, apesar da juventude.

6 – Em 1994, e 2002, ganhamos APESAR do péssimo trabalho dos técnicos, e não por causa deles. Em 94, uma seleção apenas mediana, muito defensiva, e não fosse o talento excepcional de Romário e Bebeto, não teríamos ganho, e em 2002, sejamos francos, qualquer treinador que tivesse no mesmo time Rivaldo, Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho, teria sido campeão. Essas duas vitórias apenas ofuscaram os graves problemas do futebol em nosso país, essa é a tese que defendo aqui.

Agora sim, entro no campo específico da comparação desse desastre de hoje, esse acachapante 7 X 1 com um desastre aéreo.

Por mais de vinte anos Ricardo Teixeira, um aventureiro que nada sabia de futebol, comandou a CBF, depois de um acordo com a Rede Globo de Televisão, que em troca de benefícios exclusivos, parou de denunciar o cartola, blindando-o na verdade de quaisquer acusações sobre as negociatas de que era suspeito, inclusive de corrupção, desvio de verba e enriquecimento ilícito, com uma multiplicação de patrimônio inexplicável até hoje.

Ao bancar Ricardo Teixeira no comando do futebol brasileiro, a Rede Globo se tornou o patrono de uma série de desmandos no nosso futebol de 1994 para cá: técnicos fracos, escolhidos por um homem que não é definitivamente afeito ao esporte, só estava interessado no poder e suas benesses, e com isso, toda essa série de escolhas infelizes, que impediram o Brasil de se modernizar na parte técnica!

Percebamos que em 1994, foram Zagalo e Parreira, em 98, Zagalo, totalmente ultrapassado, era uma seleção com alguns craques, mas desarrumada em campo, em 2002, Felipão, um técnico medíocre, conhecido pela violência com que conquistou seus títulos, e que acabou consagrado pelo título do penta. Em 2006, quem volta? Parreira!!! Um técnico fraco, de poucas vitórias nos clubes, e nenhuma inovação tática, lembro do horror que tínhamos àquela seleção, com Robinho e outros jovens no banco de reservas, enquanto as estrelas de 2002 jogavam abaixo de qualquer expectativa. Em 2010, a invenção de Dunga, e logo depois, a invenção de outro técnico fraco, que em mais de dois anos nada fez pela seleção, Mano Menezes.

É preciso compreendermos que desde 1974, com raros momentos de exceção, erros cruciais do comando da CBF ou dos treinadores, nosso futebol vem se perdendo no sentido de parar no tempo, e vivendo dos gênios que tivemos, Zico, Adílio, Júnior, Leandro, Andrade, fazendo o Flamengo brilhar por uns cinco, seis anos, o Internacional de Carpegiane e Falcão a mesma coisa, o Atlético de Reinaldo e Cerezzo, e assim sucessivamente, sempre alguns times brilhando por alguns anos, devido à presença de alguns craques decisivos, mas no comando central, e na seleção, medíocres, na maior parte do tempo, em coerência com o comandante, Ricardo Teixeira.

Registro por fim, que essa mediocridade, em parte, atingiu o colunismo esportivo do Brasil, onde, salvo as exceções, gente como Felipão e Mano Menezes, foram exaltados sem questionamentos, em títulos conquistados, prá lá de duvidosos em relação ao futebol apresentado. E poucos tiveram ou têm hoje, a coragem de botar o dedo na ferida, o empobrecimento do nosso futebol em termos táticos, as péssimas convocações de seleções por técnicos ruins, a corrupção da CBF, o poder de mando da Rede Globo, que tudo podia/pode, por conta da blindagem oferecida a Ricardo Teixeira.

Em relação à essa copa que para nós se encerra hoje (o que importa se formos terceiro lugar depois dessa derrota histórica???) de modo tão sofrível/sofrido, os mesmos erros de sempre: A Globo bancando Teixeira, apoiando Felipão, nossos cronistas se iludindo em sua maioria com a copa das Confederações, e uma mídia venal e politizada, até os primeiros dias da copa, apostando no “não vai ter copa”, por conta do mal disfarçado ódio e preconceito contra tudo o que venha “dos governos petistas”… – Assim, ninguém questionou a fundo a ausência de craques como Paulo Henrique Ganso (o maior talento, disparado, do futebol brasileiro, depois de Neymar) e a mescla, na convocação, de jogadores experientes, com os novatos!

Luís Fabiano, Kaká, Robinho, teriam vaga até de titulares nesse time tão fraco, quanto mais como “reservas de luxo”, a serem utilizados em momentos de tensão, de necessidade – até pelo respeito que impõem aos adversários. Ficamos na dependência da genialidade de Neymar.

Hoje, todas as máscaras caíram, e a fragilidade desse time explodiu, sem o verdadeiro craque da defesa – Tiago Silva – e o gênio do time – Neymar.

Hulk, coitado, sem culpa alguma, já que quem o escala é o treinador, não serve nem como reserva de uma seleção brasileira, quanto mais como titular, quem quiser, veja os jogos novamente, perceberá que em mais de 50% das vezes que foi acionado, nada fez de útil ou conclusivo. Num time capenga, fraco, um jogador tão ruim assim tecnicamente, destrói ainda mais o time. Willian teria que ser o titular, desde o primeiro jogo, para dialogar com Neymar, Fred, Oscar.

Nesse jogo de hoje, até um técnico de pelada, teria tirado Hulk do time, e reforçado o meio de campo, entrando com Paulinho, Fernando e Luiz Gustavo ou Henrique, mas três cabeças de área, e não teria havido o buraco no meio de campo, por onde a Alemanha passeou, brincou de jogar bola, porque Hulck e Oscar, Fred e Bernard, não são marcadores por excelência, ou seja, deixamos um rombo entre o meio de campo e a defesa, erro primário, tolo, que nem as inexperientes Gana e EUA cometeram, tanto que endureceram um pouco seus jogos contra essa mesma Alemanha.

Tragédia anunciada, havíamos pegado apenas seleções medianas, nenhuma sequer perto das “top de linha”, e com o time completo, e justo contra uma das mais fortes, Felipão inventa de “jogar aberto” – teve o que implorou para ter, por sua falta de inteligência tática, sua falta de capacidade de prever o totalmente previsível.

Acredito que estávamos pedindo por uma derrota assim, há tempos, poderia ter ocorrido algo parecido antes, em seleções de Parreiras, Dungas, Felipões, e sob o comando de uma CBF envolvida em negociatas, de gente que odeia o futebol, bancados, repito, por uma rede Globo cúmplice e criminosa, e com a omissão ou comentários insossos, há décadas, de uma mídia esportiva empobrecida.

O lado bom desse vexame, é que deixamos temporariamente de ser o “país do futebol”, os alemães enterraram a seleção hoje, TUDO TERÁ QUE SER REINICIADO dos escombros que sobraram, a CBF terá que ser repensada, o domínio da Globo sobre o futebol, terá que ser repensado, nosso futebol pobre, muito dependente de faltas e violência, terá que ser repensado, nossa mídia esportiva terá que ser repensada, e vou além, a FIFA terá que ser repensada, pelos vários episódios de violência que vimos na Copa, com a permissividade dos juízes.
Aviões não caem por um motivo só – dizem aviadores experientes – sempre é uma CADEIA DE EVENTOS que explica o desastre…

O vexame de hoje, o futebol pobre em toda a Copa, da seleção brasileira, os erros existentes nas estruturas dos clubes, são também, uma cadeia de eventos infelizes, de um futebol mal dirigido, mal comandado, apoiado por uma mídia corrupta.

Finalmente, chegou o evento marcante, que nos permite re-começar do zero!

(Eduardo Ramos, via http://jornalggn.com.br)

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