Com o título “Fim de festa”, eis artigo do professor José Borzacchiello, que pode ser conferido no O POVO desta quarta-feira. Ele fala sobre Fortaleza pós-Copa. Ou seja, com o fim da maquiagem e inicio da campanha eleitoral, os problemas urbanos retornarão à cena com maior visibilidade. 

Os jogos da Copa do Mundo em Fortaleza projetaram a cidade e o Ceará e permitiram a construção de olhares, depoimentos e imagens positivas do modo cearense de ser e de fazer. Esse saldo positivo deve ser tratado com muito cuidado. Nem tudo é o que parece. Com o fim da Copa e início da campanha eleitoral, a maquiagem que transfigurou a cidade no período da competição se desmancha e os problemas urbanos retornam à cena com maior visibilidade. O que fica, certamente, é a certeza que o cearense continua simpático e hospitaleiro, tendo recebido muitos elogios de brasileiros de vários estados e povos de várias nacionalidades. Aos poucos, os vestígios da festa desaparecerão. No palanque ela será sempre lembrada com imagens lindas. Não faltarão aquelas da Fan Fest, do aterrinho e as que consagraram Fortaleza como o epicentro do nacionalismo com a capela do hino nacional que empolgou os jogadores na Copa das Confederações e acabou se repetindo na Copa, em todos os estádios onde nossa seleção jogou. Também estará no palanque a cobrança pelas obras que não foram realizadas e as incompletas do plano de mobilidade urbana. Questionarão também, a inadequação de políticas de remoção da população das áreas atingidas pelas obras.

Passada a Copa, espera-se que os candidatos contemplem, em suas plataformas políticas, uma ampla e séria discussão sobre a cidade e o urbano no Ceará. É urgente que se pense em Fortaleza e sua região metropolitana, considerando sua forte concentração demográfica, seu potencial econômico e as múltiplas atividades ai desenvolvidas. Desde o Planefor, a região metropolitana de Fortaleza tem sido esquecida. Esta apresenta um nível de complexidade a ser esmiuçado pelos pesquisadores, políticos e planejadores. Fortaleza firma-se fortemente no cenário metropolitano, ampliando seu raio de influência direta e incorporando novas funções. Seu crescimento acelerado interfere sobremaneira no território à sua volta, provocando a expansão da malha viária, de infra-estrutura, de equipamentos e serviços, nem sempre concebidos e executados a partir de um plano de gestão.

Fortaleza é muito importante no cenário urbano brasileiro, entretanto, não possui uma urbanização à altura de seu tamanho demográfico e de seu peso funcional. Quando comparada com outras praças de porte idêntico, sua importância comercial e de polo de prestação de serviços se destaca. Não se pode negligenciar seu território metropolitano que contém quinze cidades e uma multiplicidade de atividades como distrito e corredor industrial, complexo porto/industrial, aterro sanitário, reservatórios e estações de tratamento de água para abastecimento de Fortaleza, potencial paisagístico e importantes polos turísticos ligados ao mar, às serras e ao sertão. Isso e muito mais vem à tona quando se discute sucessão política no Ceará. É fim de uma festa e começo de outra.

* José Borzacchiello

borza@secrel.com.br

Geógrafo e professor da UFC.