São Paulo – Em época de Copa do Mundo, ressurge o estereótipo do argentino “do mal”, nacionalista ao extremo, que dentro ou fora das quatro linhas é desleal e catimbeiro, e usa qualquer artimanha para vencer, pior adversário do Brasil. Contudo essa rivalidade tem fundamento histórico ou é um mito midiático restrito ao folclore do futebol? Segundo historiadores, a suposta e encarniçada rivalidade entre brasileiros e argentinos pode não ser apenas um folclore, mas também não é tão grande como propagam alguns locutores e comentaristas esportivos.

A rivalidade entre brasileiros e “hermanos” é, inclusive, maior para nós do que para eles, acredita a historiadora Lívia Magalhães, mestre em Estudos Latinoamericanos pelo Centro de Estudios Latinoamericanos da Universidad Nacional de San Martín, Argentina (2008), e doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense (2013). “Na verdade, o grande rival argentino, pelo menos no futebol, ainda é a Inglaterra, no imaginário social deles. Um jogo entre Brasil e Argentina é um jogo de rivalidade, de brincadeiras entre brasileiros e argentinos, mas contra a Inglaterra é um jogo sério. Eles entram em campo vestindo a questão das Malvinas, do imperialismo inglês. Ali tem uma rivalidade muito maior. O brasileiro tem muito mais a rivalidade do que o argentino”, diz. “Acho que o Brasil compra mais isso, de que no futebol o grande inimigo é a Argentina, mas eles não nos considerem o primeiro rival.”

Já para o historiador Julio Pimentel Pinto, professor de História da América Latina no Departamento de História da USP, a rivalidade maior para a Argentina é outra. “Não sei se com a Inglaterra tem uma rivalidade propriamente futebolística. Tem uma rivalidade histórica com a Inglaterra e, quando se joga contra eles, isso se canaliza, aumenta a gana, a vontade de se vingar. Mas uma rivalidade argentina muito grande e muitas vezes esquecida, no plano econômico, histórico e no futebol é com o Uruguai”, aponta Pimentel.  “É uma briga encarniçada, complexa, tem um passado histórico, a disposição bonaerense de dominar a região do Oriente, o atual Uruguai. Há conflitos que aconteceram no século 19, as disputas comerciais no decorrer do 20. E hoje, ainda, eles têm querelas profundas nas imediações do rio da Prata, com o despejo de lixo tóxico ­­no lado uruguaio e vice-versa, por exemplo.”

O passado histórico de conflitos é mais complexo e duradouro entre argentinos e uruguaios do que entre qualquer um deles e os brasileiros, apesar de o Brasil ter anexado e governado o território que hoje é o Uruguai, na época (1817-1828) chamado Colônia Cisplatina. No entanto a relação entre uruguaios e argentinos é mais visceral. São vizinhos mais “íntimos”, a começar pela origem e a língua espanhola, o que fez com que as disputas territoriais entre ambos fossem mais intrínsecas a suas histórias. A esse “caldo” histórico, acrescenta-se, ainda, a rivalidade propriamente futebolística, que remonta à primeira metade do século 20. Nesse período, o Uruguai, em primeiro lugar, e depois a Argentina, eram as potências do futebol sul-americano.

O Uruguai, que já havia sido bicampeão olímpico de futebol em 1924 e 1928 (daí a seleção ser conhecida como Celeste Olímpica) foi também o primeiro campeão mundial, em 1930, na capital Montevidéu. Infelizmente para ela, a seleção Argentina conheceu o apogeu em termos de futebol num período em que as Copas do Mundo estavam suspensas devido à Segunda Guerra.

“A gente esquece que o auge da seleção argentina, o primeiro momento áureo, foi justamente nos anos 1940, quando não houve mundiais. De 40 até o começo dos 50, a grande seleção era a de Di Stéfano, que os argentinos mais velhos dizem que foi o maior de todos os tempos”, lembra Julio Pimentel.  Os hermanos só foram conquistar a primeira Copa em 1978, no auge da brutal ditadura que assolou o país.

Seja como for, no cenário futebolístico dos anos 30 e 40, o Brasil ainda estava longe de ter o protagonismo que viria a ter apenas a partir do fim da década de 50. Até então, as duas Copas que aconteceram na América foram vencidas pelo Uruguai em 1950, exatamente ­­­no Maracanã.

Lívia Magalhães concorda que até 1950 o Brasil estava muito aquém dos vizinhos enquanto potência no esporte. “Apesar de o Brasil ganhar a Copa primeiro (em 1958), a Argentina sai na frente em termos de estrutura, de organização, tinha jogadores mais famosos e mais importantes naquele início de século.”

Para Lívia, a rivalidade, mais por parte dos brasileiros do que dos argentinos, é algo “que foi muito incentivado”. “Do ponto de vista sociológico, histórico, o torcer necessita do inimigo, digamos. Para torcer pelo seu, você tem de ter o outro. É a mesma lógica da construção da nacionalidade. A gente só se sente como brasileiro porque há o não brasileiro, que não faz parte do mesmo grupo. E a Argentina sempre funcionou muito bem nesse discurso brasileiro. Sempre vai funcionar como o outro, mas é ao mesmo tempo um outro amigável, porque é vizinho”, analisa Lívia.

A questão da vizinhança e do amor e ódio, muitas vezes próprios a indivíduos, entidades ou nações próximos, é um fator a se considerar, acredita a historiadora.  O curioso apelido com que nos dirigimos aos vizinhos, “hermanos”, demonstra a dicotomia.  “Se a gente for ver, nosso grande carrasco, pelo menos recentemente, seria mais a França (que bateu o Brasil na final de 1998 e nos eliminou em 2006) do que a Argentina. Mas a gente não cria esse tipo de identidade de disputa com a França.”

Relações históricas

As relações entre Brasil e Argentina, historicamente, ao longo do século 19 até hoje, oscilaram entre momentos positivos e mais ou menos tensos. A República instaurada em 1889 no Brasil instituiu novas prioridades da diplomacia brasileira, até então voltada à Europa. A América passou a ser o principal foco. No entanto, “houve entre Argentina e Brasil uma nítida disputa pela hegemonia regional e o Rio de Janeiro (então capital do país) acompanhava as aproximações do vizinho platino, visto como inimigo provável, com os países de menor expressão territorial e desenvolvia uma política cordial com o Chile”, anota Clodoaldo Bueno, no estudo Passado e Presente das Relações Brasil-Argentina, desenvolvido para o Instituto de Estudos Avançados da USP.

As questões relativas à hegemonia geopolítica corriam paralelamente às relacionadas ao comércio internacional e entre os dois países. Na virada do século 19 para o 20, havia um desequilíbrio na balança comercial entre os dois países. O então embaixador brasileiro, o barão do Rio Branco, titular do Itamaraty de 1902 a 1912, anotava: “Não é o Brasil que tem de dar compensações ao fraco comprador que é para nós a Argentina: é ela que deve dar compensações ao grande comprador de produtos argentinos que é o Brasil”.

Porém, bravatas à parte, na passagem do século a Argentina começava um forte crescimento. Nas primeiras décadas do século passado o país vizinho viveu seu apogeu econômico, graças à abertura do mercado internacional a sua carne e grãos (cevada, centeio, trigo), e chegou a ser a sétima economia do um mundo. “A aproximação mais definitiva entre os dois países começou a se dar na virada do século”, diz Julio Pimentel, da USP. Nessa época, ocorreu a primeira viagem oficial de um presidente brasileiro ao exterior, quando Campos Salles foi a Buenos Aires (em 1900) para retribuir uma visita de Julio Roca, então presidente argentino ao Brasil pouco mais de um ano antes. “Uma troca de cordialidade que anunciava na prática que as suas economias não eram concorrentes, mas complementares”, explica Pimentel.

No início da década de 1930, começou o forte declínio argentino, enquanto a industrialização impulsionava o Brasil a se tornar a principal potência da região e superar o vizinho, mas, com Getúlio Vargas no Brasil (a partir dos anos 1930) e Juan Domingo Perón na Argentina duas décadas depois, e mais tarde, durante o período das ditaduras militares nos dois países, a relação entre as nações foi de cooperação, para o bem e para o mal. Com a criação do Mercosul nos anos 1990, os interesses comuns se estreitaram.

Portanto, há muito tempo, nada nas relações político-econômicas respalda qualquer motivo para uma rivalidade séria. “A disputa política que existia entre Brasil e Argentina, a questão da liderança na América do Sul, acho que já tem muito tempo que a Argentina não compra muito essa disputa”, diz Lívia Magalhães.

Ainda assim, episódios isolados de violência ocorrem, como de resto ocorre quando o assunto é futebol. No último dia 10, o argentino Ruben Lucero, morador de Belo Horizonte há dois anos, foi agredido e sofreu fratura em um dedo. Motivo: portar uma bandeira argentina na capital mineira, uma das sedes onde o time de Messi vai atuar nesta Copa do Mundo.

“Na última Copa, em 2010, senti alguma manifestação um pouco mais violenta. Comentários um pouco mais racistas, por exemplo”, anota Lívia. Um dos motivos, segundo ela, pode ter sido que, “entre 2006 e 2010, houve maior incentivo nacionalista por parte dos meios de comunicação” na Argentina.

E, do lado brasileiro, incentivo midiático à rivalidade e até hostilidade por parte dos brasileiros é o que não falta, por parte do locutor titular da TV Globo, Galvão Bueno, por exemplo. “É, meu amigo, Brasil e Argentina é sempre Brasil e Argentina!”, disse ele em uma narração, entre as pérolas ao falar do clássico Brasil e Argentina.

“Acho que é uma via de mão dupla. Alimenta a rivalidade, mas também os locutores, Galvão Bueno etc., ficam batendo nessa tecla porque supõem que é o que o espectador quer ouvir”, analisa Júlio Pimentel. O historiador ironiza essa tentativa de fomentar uma suposta rivalidade a partir de premissas que os fatos desmentem. “É gozado como, aqui no Brasil, se criou essa coisa de que Brasil e Argentina são o ‘maior clássico do futebol mundial’, quando, na verdade, a Itália é tetra e a Alemanha é tricampeã mundial, e a Argentina é bi”, lembra. “Acho que, na verdade, esse mito, inventado aqui no Brasil, é uma forma de fazer essa via de mão dupla de que falei: o locutor corresponde àquilo que ele imagina que seja a cabeça do espectador e, por outro lado, instiga esse espectador a ter um adversário mais próximo, mais plausível, vizinho, e reforça esse ponto ufanístico das transmissões.”

Porto Alegre

Pelo sim, pelo não, os argentinos que chegarem ao Rio Grande do Sul, para acompanhar e assistir à partida da seleção de Messi e companhia em Porto Alegre, dia 25 de junho, contra a Nigéria, vão ser monitorados. “Haverá um trabalho específico para fazer o monitoramento a partir da entrada no estado”, diz a prefeitura de Porto Alegre, por meio da assessoria de comunicação. A prefeitura estima que cerca de 200 ônibus cheguem ao Rio Grande mais ou menos ao mesmo tempo.

Uma parte da torcida argentina ficará na cidade de Canoas, ao norte da região metropolitana de Porto Alegre. A outra parte, de acordo com a administração, será acomodada pela Torcida Popular, do Internacional. “A rivalidade existe, mas não há clima hostil”, diz a prefeitura.

(Eduardo Marreti, Rede Brasil Atual)

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