Fato conhecido, a classe média brasileira, incluindo amplos setores da intelectualidade e da classe artística, nunca em conformou com a ascensão do PT ao poder e de um operário – um reles torneiro-mecânico – à Presidência da República.  Afinal, depois oito anos tendo como presidente o Príncipe dos Sociólogos que fazia seus discursos na ONU em francês, como aceitar um sapo barbudo, com a mão disforme, que bebia cachaça e falava “menas”.

Mesmo depois do seu acerto na gestão econômica e financeira do país, da sua habilidade em conduzir a política interna e do sucesso de sua política externa, Lula continuou intragável para muitos grupos. Não importava que todos os países o vissem com um grande estadista, a dor de cotovelo da burguesia era – e é até hoje – incurável.

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Eu vivi uma boa história que ilustra essa constatação.  A montadora onde eu trabalhava iria completar 50 anos de operação no Brasil e queria comemorar isso em grande estilo. Uma visita do Lula, em seu primeiro mandato de presidente, à fábrica de São Bernardo do Campo fazia parte dessa comemoração. Afinal, o então presidente Juscelino Kubitscheck havia inaugurado a fábrica; nada mais razoável que o presidente operário participasse das festas do cinquentenário. Lula aceitou prontamente o convite e começaram os preparativos para sua visita (vocês não imaginam como é complicada a visita de um presidente da república).

Num determinado sábado, eu fiquei responsável por “fazer sala” ao diplomata encarregado do cerimonial do Lula.  Era um diplomata de carreira, um sujeito refinado, falava várias línguas, tinha servido em muitos países e já estava há 10 anos no cerimonial da presidência.  Como era sábado e tínhamos a tarde livre, ele se mostrou interessado em conhecer o famoso restaurante onde o Lula, quando era operário, almoçava. Bem ali na Avenida Demarchi em São Bernardo.

Fomos lá e depois de algumas caipirinhas, o diplomata abriu seu coração e a sua insatisfação em servir do cerimonial do Lula, sempre comparando seus modos de operário à fineza do “príncipe dos sociólogos”.  Mais umas caipirinhas e o diplomata voltou sua raiva para a primeira dama, Dona Marisa. E contou que, quando servia em Paris e recebia Dona Ruth Cardoso, ele a acompanhava a exposições nos museus, a concertos maravilhosos…

Na primeira vez que Dona Marisa acompanhou o presidente Lula a Paris, o diplomata-cicerone perguntou a ela o que gostaria de fazer no dia seguinte. E Dona Marisa, na sua simplicidade, disse que gostaria de ir numa “feirinha”.  A essa altura, já completamente bêbado, o diplomata não escondia sua decepção e a vergonha que sentia por servir a uma primeira dama que, em Paris, queria ir numa feirinha. Quase foi às lágrimas.

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Assim, na verdade, se sentia a burguesia brasileira ao constatar que o líder supremo da nação era um homem do povo, que sentia e falava como um homem do povo. Ele e a primeira dama. E a burguesia não perdoa. Mesmo quando Lula tornou-se um dos maiores líderes do mundo, que mudou as relações entre os países ricos e nós, os pobres, a burguesia engoliu em seco. Mas não perdoou. Salve, Dona Marisa que, como a mulher do povo brasileiro preferiu ir numa feirinha a ir ao Louvre ou escutar Mozart. Esse é o nosso povo.

Caiubi Miranda

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