Fazia tempo que não via tanta gente triste e desesperançada nesta cidade. Nas ruas, os olhares perdidos nos desencontros das esquinas. Na banca de revista, o frenético trocar de figurinhas bugas é o que salva o ambiente do bode total. No trânsito ensandecido, as caras fechadas por trás dos escuros vidros elétricos. Nos bares, um rosário de lamúrias, reclamações em altos brados, a pequena discordância que se transforma em gritaria histérica e irada, o pobre ébrio afogando seu desgosto numa reles dose de cana. As redes sociais destilam ódio em estado puro, num pessimismo de dar raiva e fazer pena. Na lotérica, a fila ainda faz a fezinha de teimosa que é. O veredito, meus caros, é amargo: tudo fede, nada presta, aqui não dá para ser feliz, estamos fritos, Seu Zé.

Otimista incorrigível, fico a remoer o áudio e o vídeo dessas duras cenas do cotidiano e chego à melancólica conclusão: Fortaleza está sem rumo, sem vocação e sem projeto. À mercê dos maus desígnios e das propostas vãs, um dia atrás do outro como uma fieira de oportunidades desperdiçadas. A opção pelo remendo, pela falta de planejamento, pelo ir tocando e fazendo, o monstro à espreita em todo lugar. O fino cronista, de faro certeiro e orelhas pontudas, faz trincheira do seu espaço no jornal, lamentando a troca de inúmeras árvores na avenida pelos milhares de metros cúbicos de fumaça do binário. A meta é sempre outra, nunca o ser humano, este, nessa ótica cruel, um mero detalhe. De súbito, o amigo de cabelos brancos, prestes a desistir, o sorriso de lágrimas.

E ele me joga na cara um monte de motivos do seu desejo de ir embora deste cada vez mais, para si, inóspito torrão: o cano do revólver do bandido abusado ferindo-lhe a têmpora no sinal fechado, a tia velha com a cabeça quebrada abandonada à própria sorte no piscinão do hospital do governo, a montanha de impostos pagos e a débil retribuição de serviços públicos, o ônibus que não passa, a ligação que cai, a energia que falta, a água que se vai. Encubro minha visão negativa do estado da cidade com uma piada: “E aí, meu caro, vai ter Copa?”. Gane ele: “Só se for para morrer, num Castelão mesmo que fogo, apedrejado pelos black blocs ou de uma mão de sola da polícia. Você escolhe, cara”. Para ele, esta nossa Fortaleza é cão sem dono dormindo à beira do abismo.

Há mazelas mais: o clube das colunas imortais corre perigo de virar um shopping center, o VLT ligando o nada a lugar nenhum e separando comunidades com um muro absurdo, a Praça Portugal não pode ser demolida sob a alegação de ser apenas o planeta Emo, o transtorno da Parangaba, a destruição do Jacarecanga, a desolação da Praia do Futuro, o fim da Praia de Iracema. Brinco com seu mau humor: “Quererá realmente puxar o carro, dar o pira da Loura um guerreiro tão bravo e com raízes cá tão fundas assim?”. Ele sorri de banda: “Pensas que eu não sei que achas o mesmo que eu? Meditar e não agir é o outro nome de covardia. Passagens só de ida para mim e a família. O diabo é quem fica aqui”, disse o novíssimo emigrante, o olho no céu azul.

Prego batido, ponta virada, despeço-me do meu já saudoso chapa. “Não sei para onde esta cidade vai, mas eu sei para onde vou”, fim de papo. Observo sua figura misturar-se, confundir-se e perder-se no turbilhão de gente da Praça do Ferreira. “E assim segue a capital alencarina: suja, embrutecida e bagunçada”, abarca o comentarista inflamado nas ondas do rádio do aposentado sentado defronte, a língua solta metendo o pau em tudo. Até que ponto esse mal-estar é verdadeiro? Não seria uma moda passageira, o protesto como algo de bom tom, um derrotismo de boutique? Ou teria mais uma vez razão Nelson Rodrigues: “O brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem”. Eu, por mim, fico por aqui. Hoje tem Rodger Rogério no Estoril.

(Romeu Duarte, O Povo Online)