Só há uma palavra para descrever o estilo de Ayrton Senna: ousado. Ele fazia seus carros irem além do que eram capazes. Foi assim que deu inúmeras alegrias ao povo brasileiro e fez história na Fórmula 1, até o fatídico 1º de maio de 1994. Na curva Tamburello, do GP de San Marino, na Itália, despediu-se, fazendo o que mais amava. Há exatos 20 anos, o país perdia um dos maiores pilotos do automobilismo mundial. 
 
Sobrinho do tricampeão, Bruno Senna, de 29 anos, conta que as primeiras experiências no kart foram por influência do tio. E a morte do ídolo foi um grande trauma na vida dele, que se afastou das pistas por dez anos. Porém, conseguiu superar e até chegou à F-1, onde disputou três temporadas. 
 
Nesta quinta-feira (1º) competindo em provas de Endurance, ele se recorda de histórias curiosas e até da famosa frase proferida por Senna: “Se acham que sou rápido, esperem até ver meu sobrinho.” Suas lembranças mais antigas são da época em que o tio morava no exterior e regressava ao Brasil ao final da temporada. “Sempre trazia brinquedos incríveis para mim e minhas irmãs, principalmente do Japão. Ganhei vários carrinhos rádio-controlados, com os quais eu começava a brincar imediatamente”, comenta.
 
Bruno confessa que, por ter seguido carreira no automobilismo, o “peso” do parentesco é enorme. “O nome Senna sempre foi motivo de orgulho, mas também fator de pressão extra. Mas é claro que me ajudou muito a conquistar apoios no início da minha carreira”, afirma. 
 
Ele pontua que a marca de Ayrton Senna vai muito além das pistas. “Todos os fãs têm as memórias inesquecíveis de disputas por posição, grandes corridas na chuva, além, é claro, das classificações. Mas o grande legado está voltado à personalidade. Características como determinação, obstinação, perfeccionismo, senso de justiça e patriotismo fizeram dele alguém muito diferenciado num esporte onde a política sempre reinou”, conclui. 
 
Ele conta uma história que ouviu de Nigel Mansell. “Me disse que, quando venceu o campeonato de 1992 e estava saboreando a conquista no pódio, meu tio estava ao seu lado e falou pra ele: Tá curtindo né? Por que você acha que me esforço tanto?”
 
Mãe de Bruno, Viviane Senna diz que nunca imaginou que o filho pudesse seguir os rastros da velocidade. “Achei que era brincadeira de criança. Fiquei um pouco assustada, mas, após algum tempo, decidi apoiá-lo”, confessa. 
 
Ela relembra o lado humanitário do irmão. “Ayrton era um ser humano simples, com coração enorme e muito brincalhão. Sempre que estávamos juntos, nos divertíamos. Sempre o vi como uma pessoa diferenciada, que cultivava um amor imenso pelo povo brasileiro”, observa.
 
A inquietação enorme diante da desigualdade social era outra forte característica. “Ele tinha o sonho de fazer algo para mudar essa realidade. Esse desejo foi o embrião do trabalho do Instituto Ayrton Senna, que hoje leva educação pública de qualidade a mais de 2 milhões de crianças e jovens do país”, lembra.
 
Acidente é marco para segurança na Fórmula 1
 
A morte de Ayrton Senna mudou para sempre os rumos da Fórmula 1. Para o bicampeão mundial da categoria, o brasileiro Emerson Fittipaldi, que já havia se aposentado no auge da carreira de Senna, o acidente foi um marco. “Ajudou os construtores a descobrirem novas formas de melhorar a segurança dos carros”, argumenta o ex-piloto.
 
Uma das primeiras atitudes, de acordo com ele, foi subir o cockpit para proteger a cabeça dos atletas. “Houve mais consciência sobre a questão da segurança. Se vale pensar como consolo, sua morte ajudou a melhorar a modalidade”, pontua. Vários outros acidentes ocorreram na F-1 desde 1994, mas nenhum terminou com a morte de pilotos.
 
Fittipaldi acrescenta ainda que a morte do ídolo causou a perda do interesse dos brasileiros por esse esporte. “Ayrton era espetacular. Ele ia ao limite dele, da pista e do carro. Infelizmente, morreu no topo da carreira. Isso, inclusive, esfriou o interesse do público pela F-1. Quem tem menos de 25 anos hoje não conviveu com aqueles momentos fantásticos e não sabe da magnitude de tal piloto”, lamenta. 
(Émile Patrício, Hoje em Dia)