O dia 1º de abril, aniversário de 50 anos do golpe militar, marca a abertura da exposição em homenagem à estilista Zuzu Angel, chamada Ocupação Zuzu, no Itaú Cultural, em São Paulo. E a escolha da data não é à toa. Zuzu sofreu a perda do filho, Stuart Angel, preso e morto pelo regime militar, e isso fez com que usasse seu trabalho como forma de protesto ao exibir estampas que faziam referência ao momento vivido pelo País. A mostra tem como um dos apoiadores o São Paulo Fashion Week, que começa no dia 31 de março e conta com desfile-performance em homenagem à estilista, coordenado pela estilista Karlla Girotto.

O estilista Ronaldo Fraga, em 2001, trouxe à passarela do SPFW uma coleção inspirada em Zuzu Angel. Com modelos com aréola de anjo passando em meio a grandes bonecos pendurados em um pau-de-arara imaginário, emocionou a plateia ao recontar a trajetória da estilista e relembrar o contexto histórico em que ela viveu. “Ainda adolescente e sem nenhuma pretensão em me envolver com o mundo da moda, tive o primeiro contato com a história da Zuzu Angel ao ler um livro do Zuenir Ventura. Impressionou-me muito o fato de uma costureira – sim, é assim que ela preferia ser chamada – ter denunciado de forma surpreendente e forte com a moda o que muitos intelectuais não tinham conseguido com os vetores tradicionais de cultura. Talvez ali, pela primeira vez, eu, um jovem que vivia em passeatas de protesto contra a ditadura, tenha olhado a moda com respeito pela primeira vez”, disse Fraga ao Terra.

Zuleika Angel Jones, conhecida como Zuzu Angel, nasceu em 5 de junho de 1921, em Curvelo, Minas Gerais. Montou uma pequena oficina de costura em sua casa e passou a criar seus próprios modelos, acessórios, estampas e bolsas. Construiu carreira internacional, principalmente nos Estados Unidos e, com seu sucesso, chegou a dizer “eu sou a moda brasileira”. Suas criações tinham características baseadas no tropicalismo, com estampas de chita, vestidos inspirados em Maria Bonita e Lampião, estampas de anjinhos sobrevoando as nuvens, pássaros e florais. Apostava em vestidos, saias e blusas volumosas com modelagem bem simples, como as “mulheres rendeiras” da zona rural brasileira.

No auge da alta-costura, na década de 1960, criava modelos personalizados para artistas e para a sociedade, mas também começou a elaborar vestidos repetidos, dando a ideia do pret-à-porter. Nos anos 70, fezlingeries, camisolas e babydolls. Os vestidos de noivas tinham pedrarias preciosas brasileiras, bordados à mão, rendas do norte e rendões nordestinos tingidos à mão com seda. Na passagem dos anos 60 para os 70, no auge da sua criação, Zuzu sofreu a perda de Stuart, militante do MR8, e tornou a busca pelo corpo do filho sua grande militância, mas não abandonou a carreira, produzindo peças com teor crítico ao regime.

Zuzu passou a usar apenas o preto do luto, mas criou estampas cada vez mais coloridas. Em 1971, apresentou desfile de protesto em Nova York, nos Estados Unidos, na casa do cônsul brasileiro na cidade. Morreu na madrugada de 14 de abril de 1976, aos 54 anos, em um acidente de carro no Rio de Janeiro, na Estrada da Gávea, à saída do Túnel Dois Irmãos, hoje batizado com seu nome. Anos depois, concluiu-se que foi assassinada pelo regime militar, assim como seu filho. “Acredito que, em tempos desmemoriados, é de extrema importância manter viva a memória e o legado de alguém que, como Zuzu, foi única na moda nacional e talvez até na moda mundial. Nesta época incerta, que absurdamente há quem fale na volta da militarização, é importante lembrar também deste passado negro na história da democracia brasileira”, completou Fraga.

Exposição
A exposição no Itaú Cultural apresenta cerca de 400 itens, entre vestidos, croquis, documentos, objetos, fotos e cartas endereçadas por Zuzu a personalidades brasileiras e estrangeiras, militares, congressistas americanos, artistas e intelectuais, na busca pelo filho preso e assassinado pelo regime militar brasileiro. “Um prazer e uma delicadeza da vida me proporcionar um trabalho tão lindo: reproduzir algumas réplicas de looks desfilados por Zuzu, montar um desfile e trazer os principais estilistas da moda brasileira para homenageá-la”, escreveu no Facebook a estilista Karlla Girotto, que organiza a performance marcada para o primeiro dia de evento. Estima-se a participação de 20 estilistas.

Período: 1° de abril a 11 de maio
Horário: no dia 1° de abril, das 9h às 17; de terça-feira a sexta-feira, das 9h às 20h; e sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h
Valor: entrada franca
Endereço: Itaú Cultural – Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô, São Paulo – SP
Telefone: (11) 2168-1776/1777

(Patricia Zwipp, via Portal Terra)