Participantes pedem indicações de vendedores de TCCs em um grupo de professores do Ceará (FOTO: Reprodução)

A venda de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) existe e vem se tornando mais explícita. Cartões, anúncios em jornais ou colados em universidades e sites bem elaborados. Até em locais inesperados, você encontra o contato de quem faz o serviço, como aconteceu no grupo do Facebook intitulado “Professores do Estado do Ceará”, comunidade que, teoricamente, deveria debater a temática da educação.

Em postagem, uma professora afirma que precisa “urgente que alguém faça um TCC com tema Filosofia para Criança”. “Se alguém puder me informar ficarei muito agradecida”, completa, dizendo que o trabalho é destinado a um curso de pós-graduação à distância. “Estou sem tempo, dando aula em três períodos”.

Poucos minutos após a publicação, usuários do Facebook – possivelmente professores – ajudam a solicitante, informando número de telefone de pessoas que fazem o trabalho. “Ligue agora e converse (…) A equipe é especializada, não é trabalho pronto, tem detector de plágio e tudo mais”.

Em seguida, a professora pergunta com quem terá de falar e é informada de que o número pertence a uma empresa especializada no assunto. “Esse número é da empresa, pode ligar e falar com quem atender. Mas se quiser mandar e-mail, eles respondem ainda hoje”, explica. A publicação foi apagada após o término da conversa.

Teste

Tribuna do Ceará salvou os contatos e resolveu ligar para a suposta empresa. A reportagem telefonou se mostrando interessada em comprar uma monografia. Em contato com uma professora S. D., que elabora e vende trabalhos para faculdades, ela afirmou que já está lotada de pedidos para esse semestre.

“Usualmente, as monografias eu estou cobrando R$ 900, 50% na entrada do trabalho e 50% no término do trabalho”, avisa. A professora também pergunta de qual instituição se trata e pede as exigências do professor que orienta o trabalho, como o total de páginas. Ela também pergunta o tema do projeto e ressalta que gosta de trabalhar com tempo.

 

Crime?

Com uma rápida pesquisa sobre vendas de monografias em Fortaleza, o total de links encontrados surpreendente. O comércio de trabalhos acadêmicos ganha espaço e se torna mais competitivo e mais explícito.

O advogado, professor e membro do Conselho Nacional de Justiça Jorge Hélio explica que não há uma lei específica que puna as pessoas que vendem esse tipo de serviço. Já os estudantes que compram os trabalhos podem ser processados por falsidade ideológica ou até plágio, caso TCC contenha trechos de outros autores sem seus nomes devidamente citados.

“É um desvio ético do aluno, tem uma traição de relação e confiança entre faculdade e estudante. É um ato condenado pelos costumes. Mas isso é muito comum. A maior parte das monografias é fraudulenta. Ou é comprada, ou copiada ou malfeita a ponto de não passar pela banca”.

Jorge Hélio ainda reforça que o professor sabe quando o trabalho tem deficiências ou que não foi o aluno que fez. As faculdades públicas, geralmente, são mais existentes. O problema maior é nas privadas, pois há professores que deixam o erro passar, além da relação entre cliente e empresa. “A pessoa chega e diz que está pagando, que paga a faculdade e pronto”.

Os prejuízos causados por essa prática são profissionais com péssima qualidade de formação no mercado trabalho e falta de ética. “O mercado não seleciona. Alguns ainda conseguem destaque. O que eu conheço de analfabeto funcional que tem mestrado, doutorado… Os valores éticos não passam de cartilhas escritas. É um universo de hipocrisia. É uma crise civilizatória”, desabafa.

Com esse quadro, há apenas duas saídas: ou o processo de formação nas faculdades é fortalecido, ou as pessoas continuam comprando diplomas e as instituições permanecem de olhos fechados.

(Hayanne Narlla, Via Tribuna do Ceará)