Em uma das mais belas – e esquecidas – faixas litorâneas de Fortaleza, se consolida o Projeto Vila do Mar, no Litoral Oeste, que abrange os bairros Pirambu, Cristo Redentor e Barra do Ceará. São cerca de 4 quilômetros de avenida com paralelepípedo, calçadão em pedra cariri, ciclovia, praça de convivência, quadras esportivas, campos de areia, mirante (Rosa dos Ventos), quiosques, iluminação pública e espigões.

Mesmo após a inauguração, os moradores da área ainda sofrem com o abandono. O descaso governamental com a manutenção do Vila do Mar é visível em apenas um passeio de duas horas pela orla: ciclovia com calçamento apagado, postes enferrujados, mirante pichado, poucas árvores (a sensação de aridez é grande), quadras esportivas repletas de areia e lama.

Apesar dos problemas, há pontos a aplaudir, como o projeto social de surf para crianças e adolescentes, cursos e oficinas ministrados pela comunidade católica Shalom e a existência de uma nova possibilidade de mudança para a vida os moradores.

O morador do Pirambu, Raimundo Soares, de 57 anos, se beneficiou com o Vila do Mar. Segundo disse, antes “havia muito lixo, muita sujeira e muita doença”. Os pontos negativos deram lugar à limpeza e à paz no local. “Melhorou 500% para mim. Não está faltando nada”, revela.

A VIDA NA VILA DO MAR

Apesar de haver policiamento ostensivo, a sensação de insegurança permanece em razão da pouca movimentação no calçadão. Durante a apuração da reportagem, duas viaturas do Ronda do Quarteirão e três motocicletas passaram pelo local, mas – como afirmam alguns moradores –são poucas as abordagens feitas aos suspeitos e nem todas as áreas da orla são bem atendidas.

Para o “xará” Raimundo Tomás, de 47 anos, morador da Avenida Francisco Sá (desapropriado pelo projeto), policiamento existe, mas violência, como as brigas de gangues, ainda são frequentes na região. “Eu não tenho medo, a minha esposa tem. A gente não vem com o nosso filho para ele brincar no parquinho, por causa das brigas de gangue. Quando tem isso, normalmente quem sai ferido é quem não tem nada a ver”, desabafa.

Ele reclama da devastação feita no Vila do Mar. “Os que não valorizam o projeto acabam fazendo isso, deviam organizar, em vez de fazer vandalismo”, afirma. “Mesmo assim, se fosse para dar uma nota de 0 a 10, eu daria 8 para o projeto”, completa, sem deixar de apreciar o mar antes de seguir seu rumo, afinal, as belezas da praia da Marinha e do Rio Ceará dão um toque especial para os olhos de quem passa por ali.

Logo adiante, Adonias Mota da Silva, de 40 anos, passeava com a esposa e as duas filhas pequenas, atividade que não costumava acontecer antes da existência do calçadão. “Muita coisa mudou, antes era uma favela que ocupava esse calçadão, não tínhamos esse espaço. Agora dá para ficar admirando”, brinca.

Sujeira no mar

A sujeira constante no mar é o único problema apontado pelo surfista cearense Marcelo Bibita. Segundo ele, a galeria pluvial existente na Avenida Costa-Oeste diariamente recebe lixos e tintas de uma fábrica de tecidos. “O mar muitas vezes fica sujo, uma vez já ficou até todo vermelho”. Ele sugere que sejam realizadas limpezas constantes e trabalho de conscientização dos moradores.

Ciclovia para a Costa Oeste

Ao longo de todo o calçadão, há a presença de ciclovia. Enquanto na Avenida Beira-Mar os ciclistas precisam trafegar nas calçadas ou por entre os carros, os moradores e frequentadores do Vila do Mar já contam com ciclovia em todo o percusso do projeto. Ponto a ser comemorado pelo ciclista Raimundo Tomás. “Ainda bem que nós temos, mas poucas pessoas usam, porque mal tem gente andando no calçadão”.

SUJEIRA NA ORLA

Vila do Mar

Batizado de Vila do Mar na gestão da prefeita Luizianne Lins, o projeto foi iniciado pelo Governo do Estado com o nome de Costa Oeste, com obras iniciadas em abril em 2002, no governo Lúcio Alcântara.

Quando a obra estiver 100% concluída, a extensão será de, aproximadamente 5,5 quilômetros, indo da foz do Rio Ceará, na Barra do Ceará (onde foi iniciada) até o antigo Kartódromo, próximo à Escola de Aprendizes Marinheiros, na Avenida Presidente Castelo Branco (Leste-Oeste). O investimento do projeto é da ordem de R$ 142 milhões, sendo R$ 92 milhões do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

(Roberta Tavares, Tribuna do Ceará)