E eis que o veterano Nelson Jobim é notícia de novo. Um dos assuntos de destaque de hoje em política na internet foi a informação de que ele doou 10 mil reais para Genoino.

Foi a Folha que trouxe a notícia, com detalhes. Ele passou um cheque à família. Caso a quantia necessária para o pagamento da multa fosse alcançada, o dinheiro deveria ser usado para ajudar no pagamento do aluguel de Genoino.

O que significa tudo isso?

A rigor, nada. Jobim é amigo pessoal de Genoino. Não há nada de mais em sua contribuição. A única coisa relativamente estranha é divulgá-la. Como a família Genoino é discreta, presume-se que o próprio Jobim tenha vazado a doação.

Os bons modos sugerem que a mão direita não deve saber da caridade praticada pela mão esquerda, mas são raríssimos os que têm bons modos, pelo menos neste capítulo.

Nelson Jobim, aos 67 anos, é o TPB, o Típico Político Brasileiro. Aproveita todas as brechas.

Oriundo do PMDB e jurista de formação, foi ministro de FHC, Lula e Dilma. FHC o indicou para o Supremo, do qual foi presidente em dias em que o estrelato estava distante dos magníficos magistrados togados.

Da lei para as armas foi um pulo: não se sabe por quais atributos Dilma o fez ministro da Defesa.

Mesmo sendo integrante da equipe de Dilma, não votou nela. Optou por Serra, em 2010. São grandes amigos. Foram companheiros de quarto depois que ele, Jobim, se separou. Serra seria padrinho de seu segundo casamento.

Sobre os ex-chefes Lula e FHC, Jobim diz que ambos são “sedutores”. Anota que a diferença é que Lula fala palavrões e FHC é um “lorde”.

Jobim citou uma mesma frase de Nelson Rodrigues em pelo menos duas situações que ficaram marcadas.

A frase, uma das melhores, diz que os idiotas de antigamente ficavam quietos em seu canto, ouvindo os outros, e os idiotas de hoje são absolutamente desinibidos.

Uma delas foi num jantar oferecido a FHC quando ele completou 80 anos. Não houve amuos pois ninguém ali se julgava idiota.

Na outra, houve problemas. Jobim presidia o STF e usou Nelson Rodrigues para rebater críticas da imprensa. Dora Kramer tomou a mensagem para ela mesma. “Não me dou com ela e ela não se dá comigo”, disse ele à revista Piauí.

Ao falar com a Piauí, ele era ministro da Defesa, e vazamentos do Wikileaks sugeriam que ele tinha uma relação próxima demais com os Estados Unidos.

A entrevista acabou lhe custando o cargo. Ele falou mal de integrantes do governo, provavelmente sem imaginar que isso fosse ser publicado.

Mas foi.

Provavelmente foi um ato de maldade da Piauí, dirigida então por Mario Sergio Conti, um dos jornalistas mais maldosos do Brasil. Basta dizer que foi Conti quem inventou Mainardi como colunista da Veja, quando a dirigiu, nos anos 90.

Jobim acabou fora do governo, e recolhido a suas origens gaúchas.

Antes de virar notícia hoje, esteve no meio de um escândalo, aspas, da Veja, em 2012. Gilmar Mendes disse à revista que Lula teria pedido a Jobim que arrumasse um encontro entre ambos.

O objetivo, segundo Gilmar e a Veja, seria empurrar o julgamento do mensalão para depois das eleições municipais de 2012.

Jobim negou Gilmar e a Veja. Vistas as posições de Gilmar ao longo da vida, custa crer que alguém imaginasse que ele pudesse fazer qualquer coisa que beneficiasse o PT, ainda que indiretamente.

Daí a dificuldade em aceitar a versão de Gilmar.

Se foi confiada mesmo a missão diplomática a Jobim, o fato é que ela fracassou. Mas este episódio ainda carece de luzes que o iluminem.

Desde então, Jobim sumiu  — até aparecer, hoje, como um doador de Genoino.

Nas redes sociais, houve quem, entre os petistas mais inflamados, interpretasse a doação como uma prova definitiva da inocência de Genoino.

Tenho para mim que há evidências bem melhores da inocência de Genoino do que o cheque de Jobim.

O episódio parece mostrar, acima de tudo, que como todo TPB Jobim estava saudoso de ver seu nome nas notícias, e aproveitou o caso de Genoino para matar a saudade.

Agora ele deve voltar à obscuridade, embora terá sempre a glória — como nota a Wikipedia em inglês logo no primeiro parágrafo — de ser parentes distante do “real” Jobim, o enorme, o colossal, o eterno Antônio Carlos Jobim, o Tom.

(Paulo Nogueira, Diário do Centro do Mundo)

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