Brega, cafona, popular, romântico… Classifique-o como quiser, mas a verdade é que poucos compositores brasileiros falaram das dores do amor de uma forma tão visceral como Reginaldo Rossi, que morreu ontem, aos 70 anos, no Hospital São José, em Recife, vítima de câncer de pulmão.  

Seus maiores sucessos eram pequenas histórias que tinham como protagonista, quase invariavelmente, o homem que sofria da “dor de corno”, para usar uma expressão simples e direta como o Rei do Brega gostava. 

Ele mesmo se orgulhava de não fazer firulas em suas letras, como afirmou em uma entrevista que deu ao jornal Diário de Pernambuco, em 1995: “Não gosto de usar adjetivos rebuscados em minha composição para provar uma intelectualidade que não tenho. Mas não uso o português vulgar. Quando canto A Raposa e as Uvas, agrado a presidentes, prefeitos, garis, delegados e ladrões”.  

Mas, antes de chegar ao romantismo, Rossi foi do rock’n’roll e do iê-iê-iê. Estudante de Engenharia e professor de Matemática, decidiu abandonar a faculdade e o ensino para se dedicar à música.  

Depois de se apresentar em bares na capital pernambucana, onde imitava Roberto Carlos e se apresentava com a banda The Silver Jets, lançou seus primeiros álbuns, O Pão (1966) e Festa dos Pães (1967).  “Fui o primeiro cantor de rock do Nordeste”, dizia. 

Virada 

Em 1970, ele deu uma virada e partiu para a música romântica, lançando, em carreira solo, o álbum À Procura de Você. Foi o início  de uma carreira de números grandiosos: 14 discos de ouro, dois de platina, um de platina duplo e um de diamante.  

Prêmios muito merecidos para alguns dos 21 LPs e 10 CDs lançados em 49 anos de carreira. Os números foram mais que suficientes para torná-lo símbolo de um gênero, ao lado de Odair José, Wando, Amado Batista, Agnaldo Timóteo, Fernando Mendes e outros nomes da música brega. 

Além de A Raposa e as Uvas, viriam muitos sucessos, como Deixa de Banca (Borogodá), Em Plena Lua de Mel e Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme. Mas talvez nenhum se compare a Garçom, gravada em 1987, em um álbum que levava o nome do artista. 

Na canção, um homem vai afogar as mágoas em um bar, onde lamenta o casamento da mulher amada com outro: “Saiba que meu grande amor hoje vai se casar/ Mandou uma carta pra me avisar, deixou em pedaços o meu coração/ E pra matar a tristeza só mesa de bar/ Quero tomar todas, vou me embriagar”…  

Rossi era assim: rápido, direto, sem pretensão de ser poeta. Gostava de contar histórias que pareciam reais e, com isso, tocava o coração do povo, que logo se identificava com seus personagens. 

Garçom 

Embora Garçom tenha feito bastante sucesso no Nordeste logo que lançada, foi só no final dos anos 90, quando a Sony lançou uma coletânea, que a canção tornou-se popular no restante do país. E o cantor, claro, viu sua popularidade ganhar o Brasil, surgindo oportunidades de aparecer até no disputado Domingão do Faustão. 

Foi aí que ele ganhou definitivamente a aura cult, pecha da qual tentava fugir: “Sempre procurei me livrar dos rótulos, de ser cult ou brega. Eu sou um artista. Sou o Mozart nordestino. Ele escrevia para príncipes, para ateus, para o povo. Sou um artista na alma porque gosto de cantar para o povo”. 

A imagem cult seria reforçada no ano 2000, com o lançamento do álbum Reginaldo Rossi – Um Tributo, em que seus sucessos foram gravados por artistas do universo pop/rock brasileiro.  

Lenine interpreta A Raposa e as Uvas e a pernambucana Cascabulho uma versão para Deixa de Banca. Otto, com Garçom, é autor da melhor faixa do disco. O CD tornou-se tão raro e cultuado que, em sites de leilão, está sendo vendido por R$ 190.   

Política 

Confiante em sua popularidade, Reginaldo lançou-se na vida política. Em 2008, candidatou-se a vereador em Jaboatão dos Guararapes, Região Metropolitana de Recife, mas não foi eleito. Dois anos depois, tentou um voo ainda mais alto, disputando uma vaga de deputado estadual, mas foi novamente derrotado.  

Em 2011, com o DVD Cabaret do Rossi, ganhou o Prêmio da Música Brasileira na categoria de canção popular, seu primeiro troféu de reconhecimento nacional. No show, belas mulheres dançavam ao seu lado, do jeito que ele gostava. O repertório do DVD, além das canções tradicionais do Rei, trazia o hino gay I Will Survive, que, nos shows, tinha seus primeiros versos cantados em português, com a irreverência marcante de Reginaldo: “Quando a bicha terminou o namoro/ Ficou petrificada/ Pensava que não podia mais viver sem seu bofe”.  

Com a saúde debilitada, principalmente pelo excesso de cigarro e bebida, Rossi não teve fôlego para novos lançamentos. Foi internado na UTI em 27 de novembro, quando sentiu fortes dores no peito. Chegou a ser transferido para um quarto, mas no dia 9 precisou retornar à UTI. 

Logo na sequência, iniciou as sessões de quimioterapia e de hemodiálise. Chegou a ter melhora no quadro clínico, mas na quinta-feira voltou a respirar com ajuda de aparelhos. O empresário do cantor, Atonio Mojica, chamou a atenção para um vício: “Ele fumava toda hora. Chegava a acender um cigarro no outro”. Rossi deixa a mulher, Cileide, com quem era casado há 30 anos, e um filho, Roberto. O corpo do cantor será enterrado hoje, às 20h, em Recife.

(Roberto Midlej, Correio 24 Horas)

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