Na turma de Ronaldo Chaves, há cearenses na cadeira da esquerda, da direita, da frente e de trás. O característico sotaque arrastado, presente nas salas e corredores, passa a ideia de estar na terra natal, mas ele mora a 2,3 mil quilômetros de distância. Em São José dos Campos (SP), onde estuda no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Na faculdade, que forma a elite da engenharia no país, a invasão do Ceará chama a atenção de quem chega. Mas os números comprovam que isso não é só impressão.

Levantamento do Tribuna do Ceará indica que Fortaleza aprovou 23,5% dos novos alunos na última década(veja quadro abaixo). Líder nacional nesse quesito, essa foi a cidade onde estudavam 305 dos 1.296 aprovadosentre 2004 e 2013. Quem chega mais perto é São José dos Campos, sede de vários cursos preparatórios para a faculdade, com 291 (22,5%). Abaixo, os outros 54% são pulverizados entre duas dezenas de cidades, nenhuma com índice tão significativo. “Nossos colegas perguntam o que colocam na nossa farinha”, ri Ronaldo.

Não existem dados consolidados sobre a naturalidade dos “iteanos”, como são chamados os estudantes da faculdade. Se houvesse, o domínio cearense ficaria ainda mais evidente. “Dos 43 aprovados de Fortaleza em 2013, a maioria é de cearenses, talvez um ou outro piauiense que estuda na cidade. Enquanto isso, dos 41 de São José dos Campos, três ou quatro são daqui”, constata Luiz Carlos Rossato, que coordena o vestibular do ITA há 25 anos.

Esse fenômeno, sem paralelo no país, despertou o interesse da universidade. Especialmente de Rossato, que já fez algumas visitas a Fortaleza para entender os motivos dessa disparidade. “Os alunos cearenses são os mais bem preparados do país”, assegura o professor. Não à toa, eles quase sempre formam toda a seleção brasileira em olimpíadas internacionais de matemática, física e química – disciplinas essenciais dos cursos de engenharia oferecidos pelo ITA.

“Os alunos cearenses são os mais bem preparados do país”. (Luiz Carlos Rossato, coordenador do vestibular do ITA desde 1988)

A receita desse sucesso foi maturada nas últimas três décadas, num trabalho de base aperfeiçoado que nem o de potências do esporte. Começou com o extinto colégio GEO Studio, que criou as primeiras “turmas olímpicas” na década de 1980. Quando a escola passou a aprovar em massa no ITA e no Instituto Militar de Engenharia (IME), do Rio de Janeiro, suas técnicas de aulas voltadas para o vestibular ganharam força no ensino privado de Fortaleza.

Passada uma geração, quatro escolas da cidade se sobressaem em grandes vestibulares do país: Ari de Sá, Farias Brito, 7 de Setembro e Christus. Juntos, os colégios concentram 35 mil alunos, 15% do ensino privado em Fortaleza. É desse universo onde uma seleção realizada ainda no último ano do ensino fundamental pinça as mentes brilhantes com potencial elevado em disciplinas exatas. Esses jovens são tratados como estrelas nos três anos seguintes.

“Antes eram dadas bolsas de estudo para atletas. Hoje a gente premia os alunos que recebem boas notas”, explicou Tales de Sá Cavalcante, diretor superintendente do Farias Brito, ao programa Câmera 12, da TV Jangadeiro/Band, que abordou o tema em março passado. O professor é um dos entusiastas desse modelo de ensino, marcado por anúncios publicitários em jornais e TVs locais com o rosto dos aprovados em grandes universidades ao fim de cada semestre. “Formamos jovens altamente capacitados para o mercado”.

Essa indústria, que levou ao quadro atual de domínio no vestibular mais difícil do Brasil, está baseada num tripé que combina, além de estudantes de alto nível, professores muito bem remunerados, material didático específico e aulas em tempo integral(confira quadro abaixo). Esses fatores, segredo cearense para o ITA, serão destrinchados a seguir.

Estudar é a alma do negócio

Jonab Fernandes chega ao colégio às 6h45, diariamente. Dois dias na semana, tem aulas também à tarde. Independente disso, de segunda a sexta ele fica na escola até 21h, revisando as aulas passadas ou preparando as seguintes. No sábado é a vez dos testes simulados, e aos domingos a maratona é em casa. “Em três anos, a gente vive para estudar”, reconhece o estudante do 3º ano de turma ITA do Ari de Sá.

A política do tempo integral é o principal fator da formação de alunos de alto desempenho. Nos grandes colégios cearenses, os estudantes são distribuídos em três grupos: os de turmas ITA, olímpicas (com potencial para grandes vestibulares) e tradicionais. Nas duas primeiras, a carga horária ganha duas horas a mais que o normal e três a mais que no ensino público. “A divisão adequa os diferentes níveis de conhecimento”, explica Leonardo Bruno, coordenador das turmas ITA do Ari de Sá.

Leonardo foi um ex-aluno do Ari de Sá que concluiu Engenharia da Computação no ITA, em 2010, e voltou no ano seguinte para formar futuros iteanos no colégio onde estudou. Ser aprovado na faculdade é difícil porque o exame exige um alto grau de acerto de questões complexas em 4 horas, além de resistência para os quatro dias de testes. “Nos dois primeiros anos do ensino médio, o aluno aprende com profundidade. No último, ele desenvolve soluções rápidas para problemas complicados”, detalha Leonardo.

10 motivos para o sucesso dos cearenses no ita

Assim como o professor, uma geração de ex-alunos geniais voltou para os colégios depois de terminar a faculdade. Em 1991, Silvio Mota e mais seis cearenses eram os componentes do Brasil na Olimpíada de Matemática do Cone-Sul, no Chile. Uma equipe toda local. “Essas competições são ótimas para treinar alunos de alto desempenho”, avalia Silvio, hoje supervisor do Pré-Vestibular do 7 de Setembro.

Para otimizar o tempo dos alunos, as disciplinas de humanas – biologia, história e geografia – foram deixadas em segundo plano nas turmas ITA. O foco são as disciplinas de exatas – matemática, física e química –, além de português e inglês. Nas três primeiras, a prova apresenta 30 questões cada, sendo uma disciplina para cada dia de exame, enquanto no quarto dia é a vez de 20 questões nas duas outras matérias, além do teste de redação.

Com o tempo, ITA virou sinônimo de vestibular complicado. “É o teste mais difícil do Brasil”, atesta Onofre Campos, professor de turmas ITA do 7 de Setembro, Christus e Master. Para selecionar apenas 120 estudantes em uma média de 7 mil inscritos altamente capacitados, a prova precisa ser muito complexa. Por isso, não é raro alunos mais bem preparados para o teste que os próprios professores dos colégios.

Estudar no ITA é sonho

Tarcisio Lima Verde Neto chegou a São José dos Campos aos 16 anos. Na turma do colégio Ari de Sá, havia colegas de 23 anos (idade limite de ingresso no ITA) que colecionavam sucessivas aprovações em cursos de engenharia das melhores universidades do país, inclusive do IME, mas recusavam a chamada em nome do sonho. “Eles não desistiam do ITA. Achava aquilo magnífico”, relembra o jovem de 24 anos, que concluiu Mecânica Aeronáutica em 2010.

Tanta luta tem seus motivos. Atualmente, o ITA conta com cerca de 600 estudantes em seis cursos: Engenharias Aeronáutica, Eletrônica, Mecânica Aeronáutica, Civil Aeronáutica, Aeroespacial e da Computação. “Daqui sai a elite da engenharia no país”, aponta o coordenador do vestibular do ITA, Luiz Carlos Rossato.

Bancada pela Aeronáutica, a escola foi fundada em 1950, pelo cearense Casimiro Montenegro. O orçamento é de R$ 100 milhões por ano, usado para manter a estrutura de 12 km² projetada por Oscar Niemeyer, situada dentro do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial, em São José.

Os alunos não pagam mensalidade. Para custear alojamento, alimentação e assistência médica, é cobrada taxa de R$ 50 por mês. Um investimento irrisório diante dos benefícios que o diploma iteano garante ao futuro.

Entre os cearenses que estudam no ITA e os que buscam chegar lá, Igor de Sousa Almeida, ex-aluno do Ari de Sá, é uma inspiração. Formado em Engenharia da Computação, ele foi contratado pelo Google. Mora nos Estados Unidos e recebe salário anual de US$ 200 mil.

Para chegar a esse nível, é cobrado do aluno uma postura de honestidade. É um código de conduta chamado de Disciplina Consciente. “Morávamos em alojamentos, e era comum deixarmos os quartos destrancados, com notebooks e objetos de valor. E as provas, muito difíceis, podiam ser feitas no quarto, e ninguém burlava as regras”, conta Tarcisio. Para o ITA, esse valor é essencial. Mais até que a capacidade intelectual de suas mentes brilhantes.

Fortaleza é a cidade que aprovou mais alunos no ITA nos últimos 10 anos

 

Leia artigo de Wanderley Filho (Blog do Wanfil) sobre o tema, onde ele cobra uma política de retorno dos cearenses formados no ITA.

Câmera 12, da TV Jangadeiro/Band, já mostrou realidade dos cearenses no ITA:

 

(Tribuna do Ceará)

Anúncios