Prefeitura quer construir viadutos no encontro das avenidas Engenheiro Santana Júnior e Antônio Sales – Foto: Fábio Lima

Os protestos em torno dos impactos da construção de viadutos nas avenidas Engenheiro Santana Júnior e Antônio Sales ao Parque do Cocó põe em relevo a polêmica da viabilidade de viadutos e túneis para uma mobilidade eficiente na Capital. Não apenas em termos ambientais, questiona-se também se as intervenções são as opções mais acertadas para desafogar o trânsito das áreas que os receberão e se atenderão a demanda do intenso fluxo de veículo a médio e longo prazos. Para estudiosos da área, eles são vistos como “paliativos” e não estão inclusos em um plano consistente e eficaz de mobilidade urbana.

“Viadutos e túneis, tecnicamente, são perfeitos, mas a discussão não deve se pautar nisso. Deve-se pensar em termos de uma mobilidade mais moderna, que atenda aos vários tipos de modais de locomoção. Viadutos e túneis são investimentos pontuais, que privilegiam o transporte particular e não estão inclusos em um planejamento a médio e longo prazos”, resume a arquiteta urbanística Carla Camila Girão Albuquerque, professora da Universidade de Fortaleza (Unifor).

Carla defende que os túneis – em se tratando de escolha – são melhores que os viadutos por deixarem a cidade menos impactada com as construções, mas considera um equívoco não enxergar soluções além. “Daqui a cinco anos vai ser preciso pensar em outra solução porque eles já não vão dar mais conta de tanto carro. E aí? Não temos nenhum planejamento que contemple outras maneiras de locomoção, não temos nenhum plano de mobilidade que não se esgote em pouco tempo”, avalia a doutora em desenvolvimento urbano.

Ela aponta um sistema integrado entre os vários modais como uma das soluções possíveis, com menos intervenções na cidade e bem mais eficiente. “É preciso dar às pessoas a possibilidade de andar de bicicleta, a pé ou em um transporte coletivo de qualidade, não apenas de carro”, enumera. 

Transportes coletivos

Para o engenheiro civil Dante Rosado, mestre em engenharia de transportes, o investimento do dinheiro público deve buscar contemplar transportes coletivos. “Os túneis e viadutos que querem construir em Fortaleza desafogam, por muito pouco tempo, um trânsito que prioriza o transporte particular e subutiliza espaços. Observe os arredores desses espaços que já existem. São desvalorizados. Esses túneis e viadutos são planejados para mostrar serviço, mas não fazem parte de um plano concreto de mobilidade que norteie ações eficientes de fato, a longo prazo”, diz o engenheiro.

O POVO buscou ouvir a Secretaria da Infraestrutura de Fortaleza (Seinf) e a Autarquia Municipal de Trânsito (AMC) para melhor quantificar viadutos e túneis, atuais e em planejamento, e analisar a necessidade das obras para a mobilidade da Capital. A assessoria da Seinf não deu retorno até o fechamento desta matéria. A assessoria da AMC informou que não seria possível fornecer os dados ainda ontem. 

Saiba mais 

A construção de um viaduto na Engenheiro Santana Júnior com Antônio Sales já é pensada desde a primeira gestão do prefeito Juraci Magalhães (1990- 1993). Ele fazia parte do pacote de ações de mobilidade urbana na Capital, chamado BidFor, que, na gestão da prefeita Luizianne Lins, foi intitulado de Transfor. 

Inicialmente, a obra foi pensada atrelada a uma rotatória que passaria por baixo da Engenheiro. Durante a segunda gestão de Luizianne, o projeto foi rediscutido e passou por mudanças para ser adaptar ao fluxo de veículos atual. “Um dos grandes erros do replanejamento foi a não participação popular nesse processo”, critica o engenheiro Dante Rosado.

(Por Sara Rebeca Aguiar, O Povo Online)

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