SÃO PAULO – Quarto maior município do Brasil, com 2,4 milhões de habitantes, Fortaleza viu o preço médio do metro quadrado dos imóveis triplicar entre 2006 e 2010. As vendas quintuplicaram. Normalmente, os grandes edifícios se multiplicam em áreas centrais ou, no caso de cidades litorâneas, nas faixas rentes à praia. Mas, na capital cearense, o ritmo frenético da construção civil alcançou as periferias. Duas, três, até dez ou mais torres numa mesma gleba de terra.

Às vezes, emergem bairros inteiros, como o apropriadamente chamado Bairro Novo, um conjunto de 12 condomínios com 5.436 unidades, lançado em 2008. Segundo o IBGE, o número de apartamentos na cidade passou de 77.613 para 126.133 entre 2000 e 2010.

O preço empurra prédios para a periferia. À beira-mar, turistas supervalorizaram os preços. Fortaleza foi sugerida a investidores como “destino imobiliário”, atraente pelos preços baixos e pela cotação do real frente a moedas estrangeiras. Em 2006, o Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Ceará vendia a cidade “como se fosse liquidação, uma loja de R$ 1,99”. Resultado: na praia, 70% das unidades foram vendidas a estrangeiros, a preços de R$ 4 mil a R$ 8 mil, o metro quadrado.

— Primeiro, a produção se concentrou na oferta de apartamentos para os mais ricos. Depois, se disseminou por toda a cidade — diz a arquiteta Maria Beatriz Rufino, que analisou a produção de espaço em Fortaleza em sua tese de doutorado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

A aposta das incorporadoras em Fortaleza não difere do que ocorreu na maioria das outras cidades de Norte e Nordeste: a quantidade de áreas era grande e o preço dos terrenos, baixo. No mercado imobiliário, o preço costuma ser a primeira coisa a ser definida. Só depois de saber quanto o consumidor pode pagar é que as empresas “desenham” os edifícios, o que, em parte, explica o tamanho cada vez menor das unidades. Em 2010, segundo o estudo, 70% dos apartamentos de dois dormitórios em Fortaleza tinham menos de 55 metros quadrados de área.

Legalização com Lei municipal

A arquiteta afirma que boa parte dos condomínios gigantes são aprovados por leis municipais ilegais. Ela cita a lei federal 6.766, de 1979, que prevê que qualquer gleba acima de dez mil metros quadrados deve ser parcelada. Na prática, essa lei não é aplicada. Os megacondomínios acabam sendo classificados como loteamentos fechados, privatizando as vias que os conectam ao restante da cidade. E assinala que o setor imobiliário avança, apesar do discurso sobre as deficiências no planejamento urbano.

(Cleide Carvalho – O Globo)

 

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